06/01/2011

Além da vida

Matt DamonClint Eastwood me conquistou aos poucos. Ele sabe como construir um filme que emociona e, agora, parece ter escolhido Matt Damon como seu principal cúmplice. A trama do novo filme da dupla é interessante, a direção tem o toque do grande cineasta e a atuação, não apenas de Matt como de todos os demais atores, é muito boa. Só o roteiro de Peter Morgan deixa um pouco a desejar, não fazendo deste uma obra perfeita, por mais interessante e perturbador que seja em alguns momentos. Um pouco meloso em sua conclusão, talvez. Ainda assim, é um belo drama.

Três histórias paralelas são contadas com a morte ou o mistério ao redor dela como ligação. Em Paris, Marie LeLay se recupera de um tsunami que quase tirou sua vida. Jornalista consagrada, apresentadora de um telejornal, ela não consegue esquecer a sensação de quase morte e decide fazer uma pausa no trabalho para escrever um livro. Em Londres, o garoto Marcus perde uma pessoa muito próxima desnorteando sua vida. Ele começa a investigar formas de se comunicar com os mortos. Nos Estados Unidos, George tenta convencer seu irmão de que jamais voltará a utilizar seu dom de comunicação com o além, pois considera uma maldição. Ele tenta viver uma vida normal, mas sempre existem pessoas ao seu redor querendo um pouco de alento.

Além da vidaO trailer e a sinopse adiantam o óbvio de que, em algum momento, o destino dos três irá se cruzar, o como, deixo para quem for assistir ao filme. O mais interessante de Além da vida, Hereafter no título original, é a forma casual como Clint Eastwood apresenta os dramas. Coisas que acontecem, todos os dias, em todos os lugares. Afinal, qual maior certeza na vida que não a morte? A forma como charlatões são apresentados em determinado momento e a distinção de que George realmente fala com os mortos também é bem realizada.

Além da vidaOutra coisa interessante que tenho que destacar é a posição dos franceses, principalmente do mercado editorial em relação ao tema. É, no mínimo curioso, constatar que o país onde o espiritismo surgiu se considere tão desinteressado no assunto. "Isso é interesse de ingleses ou americanos", diz o editor. E é a pura verdade, tanto que o codificador da doutrina teve que utilizar o pseudônimo de Alan Kardec para publicar a obra. Não digo com isso que Além da Vida é um filme espírita. Sua construção é na mesma base espiritualista da maioria dos filmes norte-americanos, onde o fenômeno é o foco. Apesar de George ser um médium, sua postura e construção cultural nada se assemelha aos trabalhadores da seara espírita. Até porque ele faz disso uma profissão rentável. Apesar disso, suas dúvidas e negação da faculdade mediúnica tal qual uma maldição são interessantes de observar. Todo médium passa por essa crise.

Além da vidaA direção segura de Clint Eastwood nos conduz pelas três histórias de forma fluida. A forma grandiosa como filma o tsunami. O detalhe da propaganda de celular para demonstrar o prestígio de Marie LeLay. A forma intimista como apresenta os irmãos Marcus e Jason. A entrada de cena da mãe dos meninos mesmo é espetacular. A sutileza do mundo de George e como ele é conduzido. Gosto bastante do resultado. Como já ressaltei, só lamento que o roteiro não foi mais a fundo, acompanhando mais a trajetória dos três protagonistas, para culminar em uma conclusão sem dúvidas. Interessante ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo próprio Eastwood que carrega na emoção.

Matt Damon defende bem a carga dramática de seu personagem, assim como Cécile De France e o garoto Frankie McLaren. É possível acreditar perfeitamente em cada um dos dramas apresentados. Como já falei, acho apenas que o roteiro escorrega um pouco, principalmente no final, a conclusão poderia ser melhor elaborada e algumas coisas melhor justificadas. De qualquer forma, para quem gosta de filmes com tons sobrenaturais, carregados de drama, é imperdível. Não há nada de suspense e quase nada de morte ou espíritos. O filme fala de dúvidas e certezas que cada ser humano vive, que teme a morte, quer entendê-la e adoraria se comunicar com aqueles que já se foram. Às vezes, isso pode ser perigoso, doloroso, mas, também faz parte da vida.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

12 opiniões:

Reinaldo Glioche disse...

Boa crítica Amanda. Podemos esperar sempre competência de sobra da parte de Eastwood. Apesar do filme ter passado abaixo do radar da crítica americana, é natural que um filme de Eastwood nos conquiste.
Bjs

6 de janeiro de 2011 10:32
Caique Gonçalves disse...

É uma obra a parte na filmografia de Eastwood, mas não menos interessante. A forma como as histórias são conduzidas sem pressa é uma delícia. Ótimo filme

6 de janeiro de 2011 13:59
Carol disse...

Parece ser um filme incrível, como todos os do Eastwood. Fiquei sabendo dele por causa de uma promoção que o meu provedor de internet tá fazendo, achei super legal a história, o trailer... o link da promoção é esse, caso interesse http://migre.me/3taU8
bjs

6 de janeiro de 2011 15:32
Kamila disse...

Vou assistir a este filme, no final de semana. Como a obra tem obtido críticas mistas, quero assistir sem expectativas. Mas, do Clint, a gente sempre acaba esperando o melhor. Espero gostar.

6 de janeiro de 2011 18:16
Robin disse...

Gosto muito da temática, esse está na minha lista.

bjs

7 de janeiro de 2011 13:37
Rodrigo Mendes disse...

Eastwood vem realizando filmes mais do que interessantes e bons, aguns são ótimos. A Troca e Gran Torino estarão no blog em breve.

Ótima crítica Amanda e sem dúvida este filme esta na minha mira para este ano.

Abs.
Rodrigo

7 de janeiro de 2011 14:17
Mosaico Cultural disse...

É um belíssimo filme. Consegue falar de um tema delicado sem cair na mesmice e na galhofa. Gostei muito, principalmente da atuação de Matt Damon que eu aprendi a gostar aos poucos. Parece que a parceria dele com Clint Eastwood rendeu mais um bom fruto.

João Linno.

17 de janeiro de 2011 10:33
Amanda Aouad disse...

Sem dúvidas, Reinaldo. Eastwood é sempre interessante.

Também achei, Caique.

Ótimo, Carol.

Tomara que goste, Kamila.

Veja, Robin.

Tomara que goste, Rodrigo.

João, também estou cada vez mais encantada com Matt Damon.

bjs

17 de janeiro de 2011 23:10
Mandy disse...

LOUCA p ver, adoro muito, muito, muito Clint! Gran Torino é o filme de minha vida (um dos principais) hahahaha =***

23 de janeiro de 2011 00:49
Amanda Aouad disse...

O filme vale mesmo, Mandy.

23 de janeiro de 2011 22:02
yasmin disse...

é muito interessante, e a forma simples com que ele aborda o tema...é assim mesmo na vida real, e as imagens do além são incrivelmente parecidas. A forma como o personagem do matt damon encara a mediunidade, o conflito, todo médium passa um pouco por isso, até porque as pessoas acham que é fantasia, charlatanismo. Se eles soubessem...

14 de junho de 2011 23:57
Amanda Aouad disse...

Exatamente, Yasmin, o conflito do personagem de Matt Damon foi o que mais me encantou pela forma realista como foi encarada.

15 de junho de 2011 20:33

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