01/02/2011
Jardim das Folhas Sagradas
Talvez você não tenha ouvido falar desse filme baiano, a não ser que tenha ido ao Festival do Rio ou seja muito atento às novidades cinematográficas. Jardim das Folhas Sagradas é um filme de Pola Ribeiro, diretor baiano da geração Super-8, que fala sobre candomblé, ecologia e intolerância em diversos níveis. Tive o prazer de conferir em uma sessão fechada no último sábado e devo dizer que fiquei bastante impressionada com o resultado. A direção e o roteiro, também do diretor, são cuidadosos e a fotografia de Antonio Luiz Mendes é uma pintura compondo personagens e natureza de uma forma tão harmônica quanto prega o objeto do filme.
A história é centrada em Bonfim, aparentemente um pacato diretor de um banco sólido, casado com uma mulher evangélica e tendo uma vida confortável. O problema é que sua verdade está muito longe dessa aparente vida estável. Ele é bissexual, ecologista e herdeiro de uma tradição milenar. Todos ao seu redor lhe cobram que preencha seu espaço no candomblé comandando um terreiro tal qual sua mãe. Filho de Ossaim, orixá das plantas, ele não aceita, no entanto, a matança de animais que existe em sua religião e resolve encarar o desafio depois de alguns acontecimentos em sua vida, mas só se puder mudar algumas regras.
Esse poço de controvérsias que é o personagem Bonfim serve de ponto de partida para Pola discutir discriminação racial e sexual, além de contar um pouco da religião africana que aportou em nosso país, construindo parte de nossa cultura, discutindo pontos que sempre são citados como obscuros nessa tradição, principalmente no que está relacionado ao derramamento de sangue para as oferendas. Sem julgamentos, sem preconceitos, apenas expondo fatos, mesmo quando inclui em suas cenas pessoas da religião evangélica para discutir o candomblé. Há sim, uma certa tendência a depreciar os evangélicos, mostrando-os como intolerantes e fixados em rotular tudo que não segue sua crença como diabo. Mas, não está muito longe da verdade que vemos nas ruas, o que é uma pena.
O maior mérito do filme consiste nas escolhas da fotografia, Pola em parceria com Antonio Luiz Mendes conseguem contar essa história em imagens impressionantes. Há sempre um cuidado de enquadrar as cenas com uma moldura de folhas, representação do orixá de seu protagonista. A composição metafórica de alguns momentos como Bonfim chorando deitado em uma raiz de uma árvore cortada é belíssima, diz muito com poucos recursos. A produção de algumas cenas também merece destaque como o incêndio ou a criação do terreiro de candomblé. A trilha sonora também tem seu destaque, desde a música tema apresentada na abertura por Maria Bethânia e nos créditos pelo autor Gerônimo, a cada inserção de ruído e som. A única nota triste fica por conta de um reggae no momento em que um certo cigarro é aceso. O filme não precisava de algo tão clichê e forçado.
Jardim das Folhas Sagradas tem poesia, história, conscientização e um tema universal, por mais que esteja enraizado na Bahia. Fala de intolerância e luta por aquilo em que acreditamos, mesmo que mexa com tradições, grupos ou sobrenatual. O elenco é bastante diversificado, com atores veteranos, outros mais comuns de teatro e alguns rostos novos. Isso acaba trazendo um certo desequilíbrio nas atuações. Destaque para o sempre ótimo João Miguel, impressionante a naturalidade com que atua. Já o protagonista Antônio Godi, parece sentir um pouco a linguagem mais natural do cinema. Ainda assim, a história flui de uma forma harmônica. Pode não ser o melhor filme já visto, mas é de dar orgulho a seus realizadores. O clima é de celebração. A que tudo indica, o filme deve estrear para o público em agosto desse ano. Espero que chegue realmente a todos.
Ah, uma curiosidade para os soteropolitanos aflitos com a eterna espera do metrô. No filme há uma passagem de tempo e ele aparece lá, funcionando como em nossos sonhos, tendo inclusive uma fictícia estação no Bonocô, coisa que ficou esquecida no projeto que está tentando ser terminado nas ruas da cidade há mais de dez anos. Mas, aí é assunto para outros blogs.










































20 opiniões:
Vc está certa. Eu não conhecia esse filme. Nem de nome. Parece interessante. É o desbravamento da cultura brasileira e baina. Já é o quarto ou quinto filme de berço baiano (sem reverberação nacional) que descubro aqui no CinePipocaCult.
1 de fevereiro de 2011 10:18Bjs
Pois é, Reinaldo, cinema baiano, o que é totalmente feito aqui no estado é difícil de ter destaque nacional, porque normalmente não consegue distribuição. Nem mesmo para o DVD vão depois, só "Eu me lembro" de Edgar Narravo conseguiu isso, e mesmo assim não está em todas as locadoras. Aí, fica complicado mesmo, só passeando de festival em festival. É o triste retrato do nosso cinema ainda sem recursos.
1 de fevereiro de 2011 15:05bj
Nunca ouvi mesmo falar deste filme. Bom saber que a Bahia tem produção cinematográfica forte. :)
1 de fevereiro de 2011 18:54Falta só distribuição forte, Kamila. hehe.
1 de fevereiro de 2011 23:29:)
Gostaria muito de ver,
26 de março de 2011 19:19mas ak em SP nao sei onde
Como posso assistir esse filme?
12 de agosto de 2011 16:49As cenas do Banco foram gravadas na Ag. do Banco do Brasil do Comercio. Estou anciosa para assití-lo.
Anônimos, o filme ainda não estreou, há uma previsão de chegar aos cinemas em outubro. Pude assistir em uma pré-estreia aqui em Salvador e ele já correu alguns festivais também.
13 de agosto de 2011 00:41Amanda, sou do Rio de Janeiro e me parece que você é a pessoa mais informada sobre o filme com quem eu já tive algum contato. Então, se puder, nos deixe informados sobre a estreia e a distribuição ok...
17 de setembro de 2011 21:03Olá, Romulo, o filme tem previsão de começar a estrear em outubro, mas distribuição de filmes baianos ainda é um problema sério, infelizmente. No Rio, a previsão é de chegar em novembro. Veja aqui: http://jardimdasfolhassagradas.com/blog/?page_id=49
18 de setembro de 2011 00:15E aqui o site oficial: http://www.jardimdasfolhassagradas.com/
Grata surpresa. Um filme que já estava virando lenda e tinha tudo para ser uma grande bomba, mas que na verdade é encantador. Quando vi “uma estrela” no Correio de ontem pensei: agora que fudeu tudo, até a imprensa baiana, tão corporativista, não gostou. Mas insisti e lá fui. Os versos do poeta Ildásio Tavares na canção de Gerônimo ainda ecoam, “sem folha não tem sonho, sem folha não tem vida, sem folha não tem nada”, durante os aplausos ao final da sessão.
5 de novembro de 2011 16:18O Correio deu apenas uma estrela? Não tinha visto, que triste. Quero rever o filme agora para olhar com calma outro detalhes, mas da safra baiana atual baiana é mesmo dos melhores. Ele consegue falar a públicos diversos sobre uma realidade pouco conhecida, sem o folclore habitual. Também me encantou.
5 de novembro de 2011 23:39O filme tem um imenso potencial para ser bom, porem e mal executado, muito desconexo, o ator principal é fraco na interpretação, e muitas cenas são meio robotizadas. O inicio com a Betânia cantando e as cenas inicias com esta trilha sonora, dão a impressão que o filme será excelente, porem depois ele desanda, cenas fragmentadas.
6 de novembro de 2011 11:22Concordo em relação ao ator principal, anônimo e, realmente, o início prometia mais, mas no geral, acho que o filme consegue passar o drama do protagonista, a questão da fé e sua virada de vida.
6 de novembro de 2011 23:46ACHEI MUITO BOM PARA O MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA ESSE FILME TÃO QUESTIONADOR... ABRE ESPAÇO PRA MUITAS DISCUSSÕES. UMA TRILHA SONORA FORTISSIMA, O ATOR PRINCIPAL FALTA ALGO, NÃO ME DISSE MUITO...UM FILME COM UM BOM POTENCIAL, PENA QUE O METRÔ NÃO É BAHIANO, É O DE BRASILIA. O FILME SAIU EM DEZ ANOS, QUANTO AO METRÔ !!!!!!! QUANDO VINGARÁ ????????????
9 de novembro de 2011 19:25Não gostei do filme.
15 de novembro de 2011 21:37Várias cenas dispensáveis, como as de sexo e do homen nú.
Sinceramente, não dá pra entender muita coisa e não passa qualquer emoção.
E a cena do METRÔ??? Será q foi exigência do Governo da Bahia para apoiar/patrócinar o filme? Simplesmente ridícula.
Ainda no aguardo de um bom filme sobre as religiões de matrizes africanas no Brasil.
Acho quase impossível a cena do metrô ser exigência do Governo da Bahia, só se fosse para dar um tiro no próprio pé, já que no filme ele já funciona e aqui no mundo real continua sendo uma piada de mau gosto.
16 de novembro de 2011 14:49As cenas de sexo aqui não achei exatamente desnecessárias, fazem parte da história, mas concordo que tem algumas coisas confusas sim.
O jardim das Folhas Sagradas eh um título sonoro, se imagina um grande filme, mas nao passa de um desperdício. Tornou-se uma propaganda para as religiões evangélicas , outro desperdício! Que pena, a fotografia eh bela e nossa imaginação flui, dando consistência ao roteiro por demais fragmentado, Vislumbra-se crenças e valores do Candomblé ,apresentados de forma tosca pelo roteiro. E o metro? E hilário , cria uma sensação de ma Fe no trabalho. Um equivoco que se sente pela reação do publico presente.
16 de novembro de 2011 21:19gostaria muito que os direitores do filme divulga-se ainda mais a nossa religião para acabar com muita mentira que gira em torno dela.
19 de novembro de 2011 21:36GENTE COMO FAÇO PRA VER ESTE FILME? ESTIVE EM SALVADOR E LÁ OS BAIANOS FALARAM QUE NUNCA OUVIRAM FALAR NESTE FILME! FIQUEI PERPLEXO!
14 de março de 2012 14:06ONDE POSSO ENCONTRAR, COMPRAR?
SE ALGUÉM SABE ME AVISA POR FAVOR!
marconeaureliano@hotmail.com
gente estou doida para assistir este filme ;sou da religião ele e muito bonita e marese ser divugada
7 de maio de 2012 20:13Postar um comentário