01/03/2011
Bruna Surfistinha
Raquel Pacheco seria apenas mais uma mulher brasileira a exercer a profissão mais antiga do mundo se não tivesse tido uma idéia, na época inovadora, de abrir um blog para contar seu dia a dia com os clientes. Virou celebridade com seu codinome Bruna Surfistinha, ganhou muito dinheiro, se perdeu, se encontrou, largou a vida e lançou um livro com sua história, "O Doce Veneno do Escorpião" que vendeu milhares de exemplares e ainda foi exportado para 14 países. Agora chega ao cinema como um dos mais esperados do ano, tendo Deborah Secco como sua protagonista. O estreante Marcus Baldini não faz feio, conduz bem a trama, mas o roteiro de Antonia Pelegrinno, José Carvalho e Homero Olivetto esbarra em alguns clichês e dificuldades de se construir uma cine-biografia.
O filme traz a história de Raquel / Bruna desde sua decisão de sair da casa dos pais adotivos, detalhando suas idas e vindas no mundo da prostituição até o momento em que decide largar aquela vida, dando-se um prazo determinado. A trama de cinderela às avessas não tenta explicar o que faz uma menina com uma situação financeira confortável se aventurar no submundo daquela maneira. "Eu não queria depender de ninguém", ela diz. Ok, mas daí a sair no meio da noite para se hospedar em um prostíbulo de quinta categoria, é um pouquinho demais. Lembrei da fictícia história de Hilda Furacão tão ironicamente construída por Roberto Drummond, que virou minissérie na Globo. Mas, o romance mineiro tinha como objetivo descobrir o porquê de Hilda ter se metido na Zona Boêmia, Surfistinha não. Até porque a realidade foi maquiada e exagerada com a relação fria com o pai, o desprezo do irmão e a perseguição dos colegas de classe.
Bruna saiu de casa, começou em um local pequeno, logo encontrou pessoas que a levaram a novos clientes, criou o blog, virou celebridade, ganhou muito dinheiro, enveredou no mundo das drogas, caiu, levantou e é o que é hoje. É tudo real? Sim, está no livro de Raquel, mas já dizia o velho e bom Aristóteles que devemos preferir as coisas verossímeis às reais. Ou seja, as que têm coerência interna, uma história não precisa ser real para ver verossímil, mas precisa nos fazer crer nela, ou não entramos no filme. Há, no roteiro de Surfistinha, um problema que os manuais de roteiro chamam de economia narrativa. Principalmente, após ela começar a cheirar cocaína.
Os roteiristas se apressam em contar no que restou de projeção, que foi muito bem gasta até o momento com o surgimento da protagonista, toda a curva de ascensão, queda, redenção e superação da personagem. Fica difícil de acreditar que alguém que dois minutos antes era a mulher mais desejada, de repente estava rodando bolsinha na calçada. Há também uma necessidade de redenção, como se ela precisasse "pagar" por todos os pecados que cometeu, para só então, ter o direito de ser feliz. Há ainda clichês, soluções fáceis, além da narração over que explica os pormenores dos sentimentos de Bruna. Neste recurso, entra o que falo da dificuldade de adaptar uma história real, ficamos tentando colocar tudo no filme e esse tudo às vezes não é tão necessário.
Ainda assim, o resultado que vemos na tela é envolvente e interessante, principalmente pela entrega de Deborah Secco e ousadia de Marcus Baldini. Mesmo estreante, o diretor demonstra segurança em suas escolhas, brindando-nos com cenas fortes e bem realizadas. A primeira vez de Bruna no bordel é incrível. A câmera parada no rosto da atriz, com o fundo desfocado. Vemos a movimentação do cliente, vivido por Cássio Gabus Mendes, mas estamos grudados no olhar de Bruna, no seu sofrimento, mas ao mesmo tempo resignação, força de vontade, raiva, determinação. Secco nos passa tudo isso como o olhar. Outro momento que parece banal é quando a música de Roxette toca no rádio e Bruna tenta ensinar para Kelly a letra, enquanto as demais olham a cena sem interesse. Gosto muito dessa cena porque mostra com detalhes cotidianos a nítida diferença entre Bruna, uma menina com educação privilegiada, que fala inglês fluente, e as demais prostitutas da casa de Larissa. O jogo que o diretor faz também com nós espectadores e clientes de Bruna, colocando por diversas vezes a câmera subjetiva, é fundamental para a construção do filme.
Mas, se Marcus Baldini conseguiu construir seu filme com força suficiente para nos envolver, deveu muito a Deborah Secco. A atriz, que ficou marcada por personagens caricatos nas telenovelas, demonstrou talento desde pequena. Não me esqueço da moleca Carol de Confissões de Adolescente, nem da rebelde Tatu da telenovela Vira-lata, muito menos da insuportável Íris de Laços de Família, seu melhor papel na televisão. Mas, junto com isso, ela foi construindo outra imagem para si, gerando personagens como Darlene ou a atual Natalie. No cinema, então, suas participações são esquecíveis. Nem falo de Xuxa e Os Trapalhões, ou mesmo, Caramuru. Mas Deborah protagonizou um dos piores filmes que já vi na vida: A Cartomante.
Toda essa explicação para dizer que vi em Bruna Surfistinha um vislumbre da atriz que pensei que Deborah Secco viesse a se tornar quando assistia as aventuras das quatro irmãs na série da TV Cultura. Ela nos passa força, determinação, sensualidade, timidez, medo, incompreensão, pena, raiva, admiração. Deborah Secco nos convence de que tudo aquilo é real e possível, passando por cima até mesmo de alguns problemas de roteiro. É de se admirar sua entrega e coragem para apresentar um personagem como esse, sem máscaras, preconceitos ou pré-julgamentos. Com o olhar, ela nos emociona em muitos momentos.
Bruna Surfistinha pode não ser o melhor filme de todos os tempos, nem mesmo o filme brasileiro do ano. Mas, é uma produção honesta, com bons momentos e que nos traz emoções diversas durante a projeção. Acabaria um pouco antes, ou mesmo na tela preta com as últimas explicações. A tentativa de resgate posterior pode parecer gratuita, talvez como uma mensagem moralista. Ou simplesmente, ele quisesse nos deixar com aquela imagem pura e perdida ao mesmo tempo. É um filme intenso, de qualquer maneira.
Bruna Surfistinha: (Bruna Surfistinha: 2011 / Brasil)
Direção: Marcus Baldini
Roteiro: Antonia Pelegrinno,José Carvalho,Homero Olivetto
Com: Deborah Secco, Fabiula Nascimento, Drica Moraes, Cássio Gabus Mendes
duração: 90 min










































24 opiniões:
Minha vontade em ver esta produção tende a menos infinito.
1 de março de 2011 08:52Pouco importa se a suposta vida pregressa da personagem seja fake e um bem sucedido produto de marketing; pouco importa que Raquel Pacheco seja o nosso Thierry Gueta e a sua “cinebiografia” o nosso Exit Through the Gift Shop; pouco importa que o roteiro subverta a obra em que se baseia e vitimize sua heroína; pouco importa que a trajetória do programa de R$ 300,00 para executivos vips ao programa de R$ 20,00 em muquifos do centro da cidade seja por demais inconvincente; pouco importa que o Radiohead tenha liberado seu clássico para a trilha sonora (aliás, as “falsas árvores de plástico” de Thom Yorke têm tudo a ver). O pior é terem tido a ousadia de colocar como tema principal “Time of the Season” do The Zombies, num pseudo-striptease meia boca – praticamente um sacrilégio. O único filme em que cabe essa canção é o dinamarquês QUERIDA WENDY de Thomas Vinterberg, com roteiro de Lars Von Trier, onde a música é quase uma personagem.
1 de março de 2011 09:39O erotismo não basta, embora o milhão de espectadores esteja garantido.
Obs.: Também assistia a "Confissões de Adolescente", mas TODOS nós crescemos.
Não espero muito do filme e nem de Deborah Secco. Bela atriz, mas que parece estar presa ao mundo das novelas. Não acredito que ela possa segurar um filme.
1 de março de 2011 17:25Foi legal você lembrar da série "Confissões de Adolescente", um tipo de produção inteligente, onde Deborah Secco bem garotinha dava a impressão de que poderia ser uma boa atriz, mas preferiu seguir o caminho da novelas.
Bjos
Não sou fã de Deborah Secco e muito menos de "Bruninha Surfistiinha". O ótimo resultado de bilheteria no cinema mostra o quanto, a meu ver, nosso povo precisar conhecer a verdadeira cultura nacional.
1 de março de 2011 18:03Quando sair em locadora, talvez, talvez mesmo, eu assista. Nada mais do que isso.
Nossa, estou querendo muito ver esse filme principalmente por Deborah Secco, adoro a atriz. Seu ótimo texto me deixou com uma vontade de vê-lo agora, ainda mais porque tudo o que li até agora acabou com o filme.
1 de março de 2011 19:08Hmm... eu não tava muito interessado em ver este filme no cinema, mas os elogios, principalmente a Debora Secco, estão me fazendo mudar de ideia...
1 de março de 2011 19:47Vou atentar para esta cena da primeira vez no bordel, o Pablo Villaça tb falou muito bem dela!
Bjos!
O filme é bom! Tem um ritmo bem ágil e legal. A Deborah Secco está excelente como a protagonista, facilita o fato de ela ter a inocência e a ousadia que a personagem pedia. Mas, eu não consegui acreditar nas razões que levaram Raquel a optar pela vida que escolheu... Não combina!
1 de março de 2011 19:54Bom texto :)
1 de março de 2011 22:43Vou dar um crédito a esse filme.
Poema, concordo que o erotismo não basta, até porque não é um filme pornô. Mas, repito que é bem feito.
1 de março de 2011 23:08Hugo, entendo seu receio, mas devo dizer que ela segura o filme.
Entendo, Renato, e as risadas em alguns momentos estranhos comprova que o público é facilmente atraído por inversões de valores, mas é um filme bem feito.
Tomara que goste, Gabriel.
Não só essa, Bruno, todas em que o diretor joga com o espectador colocando a câmera subjetiva. A personagem olha para nós e nos faz interagir. Vou ver a crítica de Pablo.
Também acho um bom filme, Kamila e a razão da escolha também acho que fica sem razão.
bjs a todos.
Amanda, ótimo texto. Gosto muito de Deborah Secco, também acho que Íris foi seu marco na televisão, mas ela fez outros bons papeis, o caso é que a Globo impõe um rótulo nela - esse seu papel, Natalie, em 'Insensato Coração', é a cópia quase de outro personagem seu, Darlene de "Celebridade", do mesmo autor. Enfim, apesar de tudo, até com um texto medíocre nas mãos, Secco é ótima sempre.
2 de março de 2011 11:30Eu quero ver este filme, acho que posso ter a mesma impressão que você teve. Mas, preciso dizer que acho a Bruna Surfistinha real um porre, e seu livro é péssimo. Enfim...veremos. Vou mais pela curiosidade e por Secco.
beijo
Até que a segunda foto que você postou Amanda, a Deborah Secco esta parecida com a Raquel. Rs!
3 de março de 2011 00:23Eu fugi deste filme. Reconheço também que a Secco é ótima atriz que até agora demonstrou nas soup operas, mas aí querer fazer este filme? Ela esteve ótima no filme do Furtado MEU TIO MATOU UM CARA, por exemplo. Ela bem que podia ter evitado este papel, já que não vejo nada, mas NADA, absolutamente nada de interessante na vida da Bruna Surfistinha que nem sabe dar entrevista e vem com papinho caó. Ela é tão modesta não? Rs!
Bjs
RODRIGO
Só valeu a pena ver a deborah secco em algumas cenas, mas isso já era esperado...
3 de março de 2011 00:41Filme muito bom, Debora Secco esbanjando sexualidade! Muito gostosa!! Melhor trabalho dela!
3 de março de 2011 01:05Recomendo...
bom filme eu ja assisti (:
3 de março de 2011 04:44esse brasil ta perdido mesmo, fazendo filme de uma mulher que ficou famosa pq era prostituta e escrevia as besteiras em um blog, nada contra deborah secco pois ela eh atriz, queria ganhar dinheiro, mas com tanta gente que presta por ai vao fazer um filme logo de uma puta, eh muita falta do que gastar dinheiro
3 de março de 2011 07:02Não vi e não verei. Não patrocino história de puta.
3 de março de 2011 10:47abs
Por favor, quem escreveu a crítica, assistiu o mesmo filme que eu?
3 de março de 2011 14:52Não duvido da capacidade de atuação da Deborah nem de longe, mas se dependesse desse filme para ela se promover ela não iria a lugar nenhum.
A cena descrita como forte, se dá forte apenas pelo movimento, pela ação, pelo contexto. Desculpa, estudo Arte Dramática e não vi NADA nos olhos da Deborah.
A ÚNICA coisa que se salva no filme é a trilha (que pelo amor, devia ser de outro filme, não desse!). O Roteiro tem erros que até minha namorada que não entende muito disso disse que era falho, não explica absolutamente NADA, não há motivação para o personagem fazer nada.
Não li o livro, mas espero que ele seja melhor que o filme para o bem da Raquel.
E aos IMBECIS que não querem ver o filme só pq é a história de um prostituta, olha, nem sei o que dizer...
Mas vale a pena assistir, como eu ouvi na hora em que sai da sala do cinema:
"É bom assistir filmes ruins para ter bons parâmetros."
Abraços
Esse povinho q fica falando mal de Bruna (Raquel) esta com inveja, despeito...
3 de março de 2011 16:20Vi ontem esse filme e garanto a voces que nao estao perdendo nada. O som como sempre está horrivel, a estoria nao convence ninguem, Secco e uma pessima atriz, enfim, mais uma 'bela' producao nacional global cacaniqueis. Nao percam seu $ num cinema, jamais!
3 de março de 2011 17:21Lixo de filme
3 de março de 2011 17:35Cara ''/ , vi esse filme hoje baixei aqui . não tem porque ter inveja de uma ex- prostituta ,como escreveram ai , não gostei do filme , e tambem acho a debora secco uma atriz fraca .
3 de março de 2011 18:04FILME RUIM , TODOS JÁ SABIAM QUE IRIA SER POLEMICO , MAS NÃO TÃO RUIM COMO ELE É :)
... E ASSIM CAMINHA O BRASIL, MOSTRANDO ESTERIÓTIPOS DE MULHERES VULGAR COMO UMA COISA NORMAL E FAZENDO COM QUE SEJA UMA COISA ACEITÁVEL ENTRE O PUBLICO. A ALIENAÇÃO SE ALASTRA NESSE BRASIL EM SUAS NOVELAS, MINI SERIES, FILMES. PORRA, BRASIL! VAI TOMAR LÁ HEIM!
4 de março de 2011 22:11Outro detalhe que gostei no filme é no final quando fala o que aconteceu com a Gabi, mostra ela com um crachá escrito: Deborah.
5 de março de 2011 02:31Achei o filme muito verossímil e muito profundo. Isso só dá pra perceber no final, quando repete aquela cena do começo... e você vê que ela não tinha noção alguma do que iria passar. Achei um filme inspirador... me faz pensar que mesmo quando tenho certeza de uma escolha, daqui uns anos vou olhar pra trás e ver que não tinha noção alguma do que aquela escolha me traria. Mas também com a certeza de que essa conclusão só a Bruna poderia ter, nunca a Raquel, se é que entendem a metáfora aqui.
Pouco importa o grande problema dos brasileiros é o Pré- Conceito, vocês esperam ver o quê? É um filme baseado no livro, e assisti e recomendo, a Deborah Secco deu um show de atuação me surpreendeu e provou que tem capacidade sim de segurar um filme , melhor que muita atriz que se esconde, Parabéns pelo filme, e o próprio cartaz do filme já diz, não leve o preconceito para assistir o filme e por favor, tem tantas coisas muito piores no nosso Brasil , querem falar de moral agora? Ah por favor, o Filme tá muito bom, a Trilha sonora esta perfeita.
12 de março de 2011 01:47Parabéns pelo trabalho e sucesso !
Ni Tavares
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