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Sing Sing
Sing Sing
A arte pode nos salvar. Pode parecer uma frase de efeito, mas é a mais pura verdade. Vide o período da pandemia em que filmes, músicas, livros e até peças online nos salvaram da ansiedade da aproximação do “fim do mundo”. É notável também a maneira como a imersão em qualquer uma delas, pode transformar uma vida. Ainda mais a vida de uma pessoa encarcerada, com poucos motivos para ter esperanças e um estigma de estar “apartado” da sociedade.
No presídio de Sing Sing, Ossining, Nova York, a esperança renasce com o projeto RTP, um grupo de teatro que busca, através da arte, um caminho de transformação e resiliência. John "Divine G" Whirfield é um veterano do grupo, um dos fundadores, sempre muito respeitado e protagonista da maioria das apresentações que produzem. A chegada do detento Clarence "Divine Ey" Maclin irá mudar um pouco a rotina do grupo, inclusive com a sugestão de fazerem, dessa vez, uma comédia.
Com poucas exceções como Colman Domingo, que interpreta o Divine G, e Paul Raci, que faz o diretor da trupe, a grande maioria do elenco é composta por ex-detentos interpretando a si mesmos. Destaque nesse cenário para o próprio Divine Ey que constrói sua personagem com extrema força e emoção, nos envolvendo em sua história e construindo a rivalidade e parceria com Divine G de maneira igualmente competente.
É impressionante como a construção da narrativa e a direção de Greg Kwedar nos faz sentir ali, encarcerados, junto com eles, e ao mesmo tempo sermos capaz de sonhar e ultrapassar todos os muros a partir da imaginação daquelas histórias inventadas. A louca peça que mistura Hamlet, Freddy Krueger, Capitão Gancho, gladiadores, personagens históricos em uma história de viagem no tempo parece um absurdo, mas é extremamente simbólica. Podemos ser tudo em cima de um tablado teatral. Podemos esquecer a dura realidade através da ficção e, ao mesmo tempo, acessar nossas emoções mais reclusas.
Encanta também a maneira como vamos conhecendo as personagens aos poucos, em gestos, pequenas falas, situações. Não há didatismo nem mesmo no porquê estão ali. Na verdade, isso é o que menos importa. Eles não se resumem a um delito, são seres humanos que sonham, sentem medo, alegria, amor, dor. A quebra do estereótipo de prisioneiro é bem construído, a começar pela cena inicial que nos apresenta eles em cima de um palco, caracterizados, longe da imagem de uma farda penitenciária e uma cela.
Ainda que toda a narrativa se passe dentro da prisão, sendo a maior parte do tempo nos ensaios da peça, o ritmo é ágil, nos dando a sensação de dinâmica e muitos acontecimentos ao mesmo tempo. Há humor, drama, aventura, tensão. Tudo contribui para a imersão, nos sentindo ali junto com eles.
Sing Sing é mais do que uma história sobre uma trupe teatral dentro de uma prisão. É um convite a nos aproximar do humano por trás dos estereótipos. Dos sonhos findados pela privação da liberdade. E pela maneira como a arte pode retomar tudo isso, por instantes fugazes ou pela vida toda. Um filme emocionante que não é só uma experiência estética a ser vista, mas também vivida dentro de cada um de nós.
Sing Sing (Estados Unidos, 2025)
Direção: Greg Kwedar
Roteiro: Greg Kwedar, Clint Bentley
Com: Colman Domingo, Clarence Maclin, Sean San Jose, Jon-Adrian Velazquez, Paul Raci, Sean Dino Johnson
Duração: 107 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unifacs e da Uniceusa. Atualmente, faz parte da diretoria da Abraccine como secretária geral.
Sing Sing
2025-02-11T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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