A Baleia
A Baleia (2022), dirigido por Darren Aronofsky, é um filme que se apresenta como um estudo profundo sobre a condição humana, a solidão e o peso da culpa. Um convite ao espectador para mergulhar na vida de Charlie, interpretado magistralmente por Brendan Fraser. A temática da obesidade e as consequências emocionais e físicas que ela acarreta são o pano de fundo que estrutura a narrativa, gerando tanto conexões emocionais quanto discussões acaloradas sobre a representação de personagens gordos no cinema.
O filme, adaptado da peça homônima de Samuel D. Hunter, nos apresenta Charlie, um professor de literatura cuja vida tomou um rumo trágico após uma série de eventos dolorosos: o abandono de sua esposa e filha por causa de sua orientação sexual e a perda de seu antigo amor. Esta espiral de culpa e fechamento se intensifica com sua obesidade mórbida, que o aprisiona fisicamente em seu apartamento, criando uma atmosfera claustrofóbica, como se o espaço representasse não apenas seu corpo, mas também sua mente e suas relações despedaçadas. A direção de Aronofsky, conhecida por abordar temas de dor e obsessão – como visto em Réquiem Para um Sonho e Cisne Negro – se destaca pela capacidade de transitar entre o íntimo e o universal, levando o público a uma experiência perturbadora.
Brendan Fraser brilha em seu retorno às telonas, conferindo dignidade e vulnerabilidade ao seu personagem. Sua interpretação é marcada por uma melancolia palpável e um otimismo que desafia a sua condição. Contudo, não se trata apenas de uma performance sensacional, é uma construção de uma experiência humana real. O ator consegue nos fazer sentir empatia por Charlie, mesmo quando o filme parece, por muitas vezes, forçar a desumanização do protagonista. Fraser capta a essência do personagem: o peso emocional que vem acompanhado do físico e isso se torna particularmente evidente em momentos memoráveis que intensificam o drama da narrativa.
Um desses momentos marcantes é quando Charlie tenta se reconectar com sua filha Ellie, interpretada por Sadie Sink, que se tornou uma adolescente revoltada e cheia de ressentimentos. A dinâmica entre pai e filha é um microcosmo dos conflitos não resolvidos que permeiam A Baleia. A cena em que eles se confrontam carrega um peso emocional que poderia facilmente escorregar para o melodrama, mas a interpretação crua e honesta de Fraser e Sink evita que isso aconteça. Em vez disso, o espectador é imerso em uma realidade complicada de amor e dor.
Entretanto, a obra tem problemas. Apesar do talento de Brendan Fraser, o uso de "fat suits" traz algo controverso sobre a representação de corpos gordos na tela. O filme acaba por perpetuar estereótipos, ao invés de oferecer uma representação autêntica e respeitosa da comunidade afetada. Essa linha de discussão é válida, mas reflete a complexidade inerente à arte de Aronofsky, que nunca se preocupou em garantir a aprovação universal. É substancial compreender que a escolha de um ator magro assumindo um papel com essa carga pode não ser a melhor solução artística e ética para a questão.
A cinematografia de Matthew Libatique, que já trabalhou com Aronofsky em outras obras, constrói uma visão opressiva do mundo de Charlie. A escolha do aspecto 4:3 para capturar a claustrofobia da vida do protagonista é um acerto estético, reforçando a percepção de que sua vida é limitante. Os elementos visuais de A Baleia muitas vezes falam mais alto que os diálogos. Momentos em que Charlie realiza ações simples, como se banhar ou se alimentar, são transpostos para cenas que transmitem uma carga agoniante, nos levando a sentir a gravidade de sua situação.
Por outro lado, a obra se apoia frequentemente em diálogos corrosivos e momentos que, embora componham a tragédia do filme, soam forçados. O roteiro de Hunter, adaptado da peça, é amarrado ao teatro e, embora isso traga um certo caráter harmônico às suas intrincadas interações, em alguns momentos a carga dramática parece exagerada e previsível, prejudicando a experiência. A trama, nesses momentos, se perde em nuances excessivas que obscurecem a autenticidade das emoções.
A Baleia é um filme que nos provoca análises sobre a condição humana, a vulnerabilidade e o que significa redimir-se. Se não fosse pela extraordinária performance de Fraser e pela direção comprometida de Aronofsky, a obra não conseguiria nos impactar tanto. A linha entre comovente e apelativo é tênue e A Baleia navega por esse espaço. É uma experiência cinematográfica que, mesmo gerando polêmica, desperta debates essenciais, não apenas sobre a obesidade, mas sobre a empatia e a fragilidade da existência humana. Um convite à reflexão, ao reconhecimento das complexidades de cada indivíduo e à necessidade de conversarmos sobre os temas que, muitas vezes, preferimos ignorar.
A Baleia (The Whale, 2022 / EUA)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Samuel D. Hunter
Com: Brendan Fraser, Sadie Sink, Hong Chau, Sathya Sridharan, Ty Simpkins, Samantha Morton
Duração: 117 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
A Baleia
2025-03-21T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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