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Doutor Sono

Doutor Sono - filme

Existe algo particularmente arriscado em fazer uma continuação de O Iluminado. Não apenas porque o filme de 1980 se tornou um dos pilares do terror psicológico moderno, mas porque ele carrega duas sombras difíceis de conciliar. De um lado está o romance de Stephen King, com sua visão emocional e trágica da família Torrance. Do outro está o clássico de Stanley Kubrick, uma obra fria, hipnótica e quase clínica. Quando Doutor Sono chegou aos cinemas em 2019, o diretor Mike Flanagan assumiu a tarefa ingrata de costurar esses dois universos. O resultado é um filme que, mesmo irregular, revela uma ambição rara dentro do terror contemporâneo.

A história retoma Danny Torrance décadas depois dos eventos traumáticos no Hotel Overlook. A criança aterrorizada pelo pai enlouquecido cresceu e se tornou um adulto marcado por vícios e culpa. Interpretado por Ewan McGregor, Danny é agora um homem tentando sobreviver aos próprios fantasmas. Ele trabalha em um hospital, onde usa discretamente seus poderes psíquicos para confortar pacientes em seus momentos finais. É daí que surge o apelido que dá título ao filme. Essa ideia simples é uma das melhores sacadas da narrativa. O Doutor Sono não é apenas um médium, mas alguém que transforma uma habilidade sobrenatural em gesto de compaixão.

Doutor Sono - filme
Mike Flanagan
sempre demonstrou interesse por personagens traumatizados. Em séries como A Maldição da Residência Hill, o terror funciona mais como expressão de dor emocional do que como espetáculo de sustos. Em Doutor Sono, ele tenta aplicar essa mesma lógica. O horror não nasce apenas de fantasmas ou monstros, mas do peso psicológico carregado por Danny desde a infância.

O filme ganha impulso quando surge Abra Stone, uma garota com poderes psíquicos ainda mais fortes que os de Danny. Interpretada por Kyliegh Curran com uma segurança impressionante para sua idade, Abra se torna rapidamente o coração dramático da história. Há uma naturalidade em sua presença que evita o clichê da criança assustadora típico do gênero. Ela não é frágil nem indefesa. Pelo contrário, muitas vezes é a personagem mais lúcida em cena.

Do outro lado da história está o grupo conhecido como Verdadeiro Nó, liderado por Rose Cartola. Rebecca Ferguson cria uma antagonista memorável. Sua interpretação mistura sedução, crueldade e uma estranha elegância predatória. Rose não é uma vilã histérica. Ela parece sempre relaxada, quase entediada, como alguém que vive há tempo demais e já viu tudo. Esse tom ajuda a tornar suas cenas ainda mais inquietantes.

O grande desafio do filme, no entanto, está na relação inevitável com O Iluminado. Durante boa parte da narrativa, Flanagan tenta construir algo próprio. A história funciona quase como um thriller sobrenatural sobre perseguição e sobrevivência. Só que a gravidade cultural do Hotel Overlook puxa o filme de volta para o passado.

Quando o terceiro ato retorna ao famoso hotel, a sensação é ambígua. Por um lado, há um prazer quase cinéfilo em revisitar aqueles corredores, o salão dourado e o elevador de sangue. Flanagan recria esses espaços com respeito quase arqueológico. Por outro lado, essa reverência também revela a dificuldade de escapar da obra de Kubrick. Em alguns momentos o filme parece hesitar entre ser uma continuação e um tributo.

Doutor Sono - filme
Mesmo assim, existe uma sequência particularmente poderosa quando Danny atravessa novamente os corredores do Overlook. A câmera acompanha o personagem enquanto ele revisita os lugares que marcaram sua infância. Não é apenas nostalgia. É um confronto direto com o trauma. Nesse momento, o filme deixa de ser uma simples sequência de terror e se torna algo mais íntimo. É um homem voltando ao cenário de sua própria ferida.

Outro ponto forte é a forma como Flanagan constrói o conceito de “vapor”, a energia psíquica que os vilões consomem para prolongar suas vidas. A ideia pode parecer extravagante, mas funciona como metáfora para algo mais profundo. O Verdadeiro Nó se alimenta literalmente da vitalidade dos outros. Em certo sentido, eles representam um mundo predatório, onde os fortes sobrevivem sugando os vulneráveis.

Nem tudo funciona. O ritmo é irregular e a longa duração do filme pesa em alguns trechos. Há momentos em que a narrativa se dispersa em subtramas que poderiam ser mais enxutas. O próprio Danny, curiosamente, às vezes parece menos central do que Abra ou Rose. Ewan McGregor entrega uma atuação sólida, mas o roteiro nem sempre mergulha tão profundamente quanto poderia na psicologia do personagem.

Mesmo com essas imperfeições, Doutor Sono é um filme curioso dentro da filmografia de Mike Flanagan. Ele revela um diretor tentando equilibrar reverência e identidade própria. Não é uma continuação revolucionária, mas também não se contenta em ser apenas uma reciclagem nostálgica.

Talvez o maior mérito do filme seja transformar o legado de O Iluminado em algo mais humano. Enquanto o clássico de Kubrick era um estudo sobre loucura e isolamento, Doutor Sono fala sobre sobrevivência. Danny Torrance não é mais a criança perdida nos corredores do hotel. Ele é um homem tentando aprender que o passado pode assombrar, mas não precisa definir quem somos. No final das contas, essa é a verdadeira história do filme. Não é apenas um confronto contra monstros sobrenaturais, mas contra as cicatrizes que carregamos por dentro.


Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019 / Estados Unidos, Reino Unido)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan
Com: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Cliff Curtis, Jacob Tremblay
Duração: 151 min.

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