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A Revolução dos Bichos
A Revolução dos Bichos
Adaptada para a TV, o teatro e o cinema, A Revolução dos Bichos é uma fábula sobre a decepção de George Orwell com os rumos do sonho socialista, especialmente em relação ao governo tirânico de Stálin. A ideia de que todos são iguais, mas alguns podem desfrutar de privilégios sobre os outros, foi amplamente debatida e aplaudida, transformando a obra em uma das maiores críticas aos ideais comunistas e, ao mesmo tempo, em uma poderosa peça de propaganda capitalista.
Agora, Andy Serkis apresenta uma nova versão que, embora preserve boa parte das ideias originais, introduz um vilão ainda mais perverso que o porco Napoleão, ampliando a discussão para questionar as tiranias contemporâneas, especialmente as do próprio sistema capitalista. O problema é que tanto o roteiro quanto a estética acabam soando mais confusos do que a interessante premissa sugeria.
A sinopse permanece basicamente a mesma: em uma fazenda, os animais, liderados pelos porcos, se rebelam contra um fazendeiro explorador em busca de uma sociedade mais igualitária. Eles criam os Dez Mandamentos dos Bichos e passam a viver em aparente harmonia e colaboração mútua, até que Napoleão convence os demais porcos de que eles são superiores aos outros animais e, por isso, merecem privilégios. Desta vez, porém, a história se passa em um universo mais futurista, repleto de máquinas, robôs e uma dinâmica tecnológica que seduz ainda mais os porcos.
A nova vilã, dublada por Glenn Close, representa a figura do empresário inescrupuloso que os manipula e corrompe. Com direito a cartões de crédito, passeios em shopping centers e compras de carros de luxo, os porcos deixam de ser apenas bichos humanizados para se tornarem símbolos do consumismo, da falta de ética e da exploração desenfreada da terra em nome de um progresso vazio e do lucro acima de tudo.
Outro aspecto que chama atenção na versão de Andy Serkis é o elenco de peso reunido para dar voz aos personagens. Além de Glenn Close, estão presentes nomes como Seth Rogen, Woody Harrelson, Gaten Matarazzo, Laverne Cox, Kieran Culkin, Steve Buscemi, Jim Parsons e Kathleen Turner. A qualidade técnica também se destaca, tanto na direção de arte quanto na animação em si.
O roteiro, no entanto, acaba não fazendo jus à proposta. A maneira como a personagem de Glenn Close é inserida na narrativa, assim como algumas alterações em relação à trama original, não soa tão orgânica quanto poderia. Principalmente na tentativa de equilibrar o processo inicial da revolução com a transformação gradual em um regime totalitário. Permanece constantemente a sensação de que algo não se encaixa completamente. Algumas situações são um tanto atrapalhadas, com resoluções abruptas que desembocam em um final pouco convincente.
Ainda assim, trata-se de uma proposta válida para refletir sobre o mundo contemporâneo. E não deixa de ser uma obra corajosa em tempos de Trump e de valorização extrema do capital. A Revolução dos Bichos acaba funcionando como um grito de desespero diante de um sistema que falhou e da falta de perspectivas, mantendo viva, ainda que de forma quase vã, a esperança de que possamos olhar uns para os outros e compreender que sim, é possível viver em comunidade, colaborando entre nós e também com o planeta.
A Revolução dos Bichos (Animal Farm, 2026 / EUA)
Direção: Andy Serkis
Roteiro: Nicholas Stoller
Voz: Glenn Close, Seth Rogen, Woody Harrelson, Gaten Matarazzo, Laverne Cox, Kieran Culkin, Steve Buscemi, Jim Parsons, Kathleen Turner
Duração: 95 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
A Revolução dos Bichos
2026-05-28T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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