O Corcel Negro
O cinema tem poucos filmes capazes de equilibrar o maravilhoso e o verdadeiro de modo tão natural quanto O Corcel Negro (The Black Stallion, 1979). Na obra de Carroll Ballard, adaptada do romance de Walter Farley, não existe apenas uma história de amizade entre um garoto e um animal; existe um longo estudo sobre como se constrói confiança, respeito e presença, tudo diante da natureza. Desde os primeiros minutos, quando o jovem Alec Ramsey observa o garanhão árabe ainda no porão de um navio que logo será tragado pelo mar, sentimos que aquilo não será uma aventura comum. A partir de um desastre iminente, o filme nos leva a experimentar a intensidade sensorial do naufrágio sem cortes rápidos ou truques narrativos. O som retumbante da água, a ausência de música, tudo contribui para uma imersão visceral.
É impressionante como Ballard, em parceria com o diretor de fotografia Caleb Deschanel, faz do visual o principal veículo narrativo. Há uma paciência rara em cinema contemporâneo, em que longos trechos praticamente sem diálogo desenvolvem lentamente a relação entre o menino e o cavalo. Esse tempo estendido sem palavras não é vazio; é um ato de confiança no poder da imagem e do som natural para construir ligação entre personagens e público.
Kelly Reno, no papel de Alec, entrega uma atuação que não se apoia no corte fácil da fala, mas na expressividade dos olhos e da presença física. Não há exploração fácil de sentimentalismo: o afeto nasce de gestos contidos, olhares, o partilhar de alimentos e a maneira como o garoto aprende a mover-se com o animal, não sobre ele. Mesmo Mickey Rooney, em seu papel de treinador Henry Dailey, evita ser apenas uma figura paternal clássica. Em muitos momentos, sua postura mais velha e cansada contrasta com a energia ainda indomada de Alec e do cavalo, lembrando que experiência e juventude podem coexistir em caminhos distintos.
No entanto, depois de proporcionar um primeiro ato quase etéreo, quando a narrativa do filme muda de clima e entra no universo das competições de corrida, sentimos que parte da poesia original se dissipa. A transição para o ambiente competitivo, embora necessária ao arco dramático, devolve o espectador a ingredientes mais convencionais do cinema familiar de aventura. Essa mudança é tanto oportunidade, para mostrar crescimento, desafio e superação, quanto como uma concessão a expectativas narrativas mais tradicionais.
Ainda assim, mesmo nesse segundo momento, Ballard não abandona sua fidelidade à estética. A corrida final não é apenas um conjunto de passos sincronizados de casco no solo, é um duelo rítmico entre homem e natureza, uma coreografia intensa que exige do público mais do que torcer: exige que sinta o pulso do mundo que o filme construiu ao longo de quase duas horas. Não por acaso, O Corcel Negro permanece relevante não apenas na memória de filmes sobre animais, mas como um clássico que se sustenta por aquilo que faz melhor: tornar visível o invisível, ensinar pela observação e lembrar que algumas das experiências humanas mais profundas começam no silêncio.
O Corcel Negro (The Black Stallion, 1979 / Estados Unidos)
Direção: Carroll Ballard
Roteiro: Melissa Mathison, Jeanne Rosenberg, William D. Wittliff
Com: Kelly Reno, Mickey Rooney, Teri Garr
Duração: 118 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Corcel Negro
2026-01-14T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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