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Eiffel

Eiffel - filme

Assistindo Eiffel (2021), é inevitável sentir um gesto de frustração que acompanha o espectador desde os primeiros cortes. O filme, dirigido por Martin Bourboulon, tinha nas mãos uma das grandes narrativas arquitetônicas da história: a construção da Torre Eiffel, um símbolo que ultrapassa fronteiras, e, ainda assim, escolheu transformá-la em um romance diluído. Uma escolha criativa que acaba por orientar toda a experiência.

No coração dessa adaptação está a tentativa de humanizar um gênio da engenharia, Gustave Eiffel, através da reintrodução de um amor de juventude, Adrienne Bourgès. A premissa sugerida em sinopses e trailers promete explorar a vida interior do protagonista e sua motivação emocional. No entanto, o que se recebe é um melodrama que parece indeciso entre celebrar a magnitude técnica de uma obra colossal e tocar as cordas sentimentais do público, costurando uma fusão entre fatos históricos e ficção romântica em uma narrativa irregular.

Eiffel - filme
Quando a construção da torre aparece nas telas, há momentos de genuína fascinação. Cenas dos trabalhadores manobrando vigas de ferro, o jogo de luz sobre a estrutura crescente e a tensão palpável das limitações técnicas transmitem, ainda que brevemente, o porquê de Eiffel ter impulsionado seu projeto contra todas as resistências. Nesses fragmentos, nota-se que o filme poderia, sim, ter sido uma obra de engenharia cinematográfica tanto quanto a própria Torre é uma obra de engenharia mecânica.

E é nesse contraste que reside o principal problema do longa: a insistência em priorizar um arco amoroso sobre a força narrativa do próprio monumento. Esta opção narrativa rouba à história seu epicentro dramático. Enquanto Gustave Eiffel surge como um personagem competente e obstinado em uma construção sólida da atuação de Romain Duris, Adrienne (interpretada por Emma Mackey) oscila entre o brilho de um ícone de cinema de época e a fragilidade de um papel subdesenvolvido, sem conseguir criar uma química marcante com o protagonista que justifique narrativamente sua centralidade.

Eiffel - filme
A direção de Bourboulon parece relutar em aprofundar questões que poderiam enriquecer o filme. Em vez de tensionar mais o conflito entre visão e resistência pública, entre arte e pragmatismo, o roteiro recai frequentemente em flashbacks amorosos que fluem sem carga dramática relevante. Esse uso episódico tira o ritmo e dilui potencial emocional, fazendo com que o espectador espere, sem satisfação, uma síntese mais poderosa entre o homem e seu legado.

No entanto, há virtudes claras: a fotografia captura a luz de Paris com elegância e sensibilidade, lembrando que esta cidade, mais do que cenário, é personagem de qualquer narrativa que a celebre. Os figurinos, a ambientação e o design de produção situam bem o espectador no final do século XIX, proporcionando um deleite visual que justifica, por si só, parte do investimento estético do longa.

O que falta, porém, é intensidade emocional e uma linha narrativa que entrelace de forma mais convincente a vida pessoal do engenheiro e a obra que o imortalizou. Ao finalizar, Eiffel parece mais uma homenagem afetiva ao ícone parisiense do que um estudo profundo do homem, da sua época ou das revoluções técnicas e sociais que seu trabalho implicou. O filme é um romance de época suave, nada mais que isso.


Eiffel (Eiffel, 2021 / França)
Direção: Martin Bourboulon
Roteiro: Caroline Bongrand
Com: Romain Duris, Emma Mackey, Pierre Deladonchamps
Duração: 108 min.

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