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Natal Amargo
Natal Amargo
A pior angústia de um artista bem-sucedido é a pressão em não decepcionar em sua próxima obra. Não se espera muito de alguém mediano, cada filme é uma página em branco que vamos descobrir e nos interessar ou não. Mas espera-se muito de novo “Almodóvar”, será que vai manter a qualidade dos seus melhores filmes? Ou, mais improvável, nos arrebatar com uma nova obra-prima? Isso é tratado com certa ironia e um bocado de melancolia em Natal Amargo, novo filme do diretor espanhol.
Se há uma crise ou mesmo um esgotamento em sua obra, Pedro Almodóvar leva isso para as telas com a criatividade de sempre. Através de uma metalinguagem bem emaranhada e uma dose de auto-referência, temos o cineasta Raul às voltas com a criação de seu novo filme que trata exatamente de uma cineasta cult, Esla, que também busca retornar às obras cinematográficas após fazer carreira como diretora publicitária.
A mudança de gênero entre protagonista da história dentro da história é providencial para dialogar com uma das marcas autorais do diretor que são mulheres exacerbadas. Ainda que Esla parece contida, há angústias e segredos que esconde de si mesma, incluindo um luto não resolvido de sua mãe falecida há um ano. Não ironicamente, ela é casada com um bombeiro, que nas horas vagas ganha a vida como stripper. E tal qual o próprio roteiro traz em algum momento, é um personagem que some no meio da trama, sendo sub-aproveitado.
Isso é o que mais chama a atenção em Natal Amargo. As possíveis críticas estão todas ali sendo tensionadas pelo diretor. É uma auto-reflexão sobre sua carreira e a maneira como se encontra esgotado de alguma forma. Tal qual Oito e Meio de Felinni, Almodóvar transforma em genialidade o que poderia ser a constatação de que ele não tem o que dizer ao mundo. Não tem mais espaço para se reinventar. “Viva do prestígio que construiu”, diz sua assistente Monica em determinado momento. E parece que isso é o óbvio em um mundo que vive de aparências.
As dores de Raul, as dores de Esla, podem não ser exatamente as dores de Almodóvar, mas, os três transitam nesse angustiante espaço das obras-primas a serem construídas que todo mercado exige dos gênios. Não por acaso ambos sofrem com síndrome do pânico. E é ainda mais irônica a maneira como o próprio filme lida com isso, através do fornecimento de um ansiolítico em uma festa que traz mais uma pressão para a personagem.
Entre o medo de não conseguir e a necessidade de se expressar, há as possíveis fontes de inspiração e o limite ético entre expor vidas reais mesmo que cobertas de metáforas. Mas, afinal, de onde vem as ideias para obras senão de nossas experiências? É até cruel brigar com um artista por ele se inspirar em sua própria história. Por mais que isso possa parecer uma quebra de confiança de algo pessoal. As personagens são todas o artista e ao mesmo tempo não são ele, ganham vida própria que vão dialogar com o público, suas referências e suas vidas.
Além da mudança de gênero, há também uma mudança temporal. Raul vive em 2026, Esla em 2006. Vinte anos trabalhados em uma direção de arte cuidadosa entre tecnologias, hábitos e roupas que diferenciam as duas décadas. Mas chama ainda mais atenção, claro, o tratamento de cor. O universo feminino entre o vermelho, o verde e o roxo já tão característicos da maneira como o artista a imprime. Para um azul, um preto e as cores mais pasteis do universo de Raul.
Natal Amargo pode não ser o melhor filme de Pedro Almodóvar, mas o que ele está tentando demonstrar é que isso não importa. Esperemos de um filme apenas aquilo que ele é, mais uma expressão artística de diretor. Dialoguemos com isso, sem tantas expectativas ou ideias pré-concebidas.
Natal Amargo (Amarga Navidad, 2026 / Espanha)
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Com: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijon, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Rossy de Palma
Duração: 120 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Natal Amargo
2026-05-26T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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