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Operação França
Operação França
Assistir Operação França hoje é como descer numa crônica urbana que pulsa com as sirenes de Nova York e a própria respiração cansada de seus personagens. Desde os primeiros minutos fica claro que estamos diante de um filme que não busca glamourizar a polícia nem traçar heróis confortáveis. William Friedkin, diretor com um pulso firme e um olhar que antecipa os desvios da trama, constrói um filme policial cru e sem concessões, um dos mais influentes da história moderna do gênero.
O que mais chama atenção, logo de imediato, é a maneira como Friedkin filma a cidade: não há glamour cinematográfico, há sujeira, ruído, pessoas apressadas e a sensação de claustrofobia que só um ambiente metropolitano pode oferecer. Essa escolha estética com enquadramentos instáveis e câmera na mão empresta à narrativa a sensação de que você está ali, entre sombras e uivos de sirenes, respirando o mesmo ar frio de uma Nova York cinzenta. Uma abordagem quase documental que alimenta o realismo e acentua o clima de obsessão que persegue os personagens.
No centro dessa história está Jimmy “Popeye” Doyle, interpretado por Gene Hackman de forma visceral e inesquecível. Doyle é um anti-herói sem rodeios: áspero, violento, preconceituoso, alguém cujas falhas são tão visíveis quanto seu método implacável. É uma atuação que não busca a complacência do espectador, mas sua honestidade brutal. Hackman faz de Doyle uma figura que você não torce exatamente para vencer, mas cuja vontade de seguir em frente, mesmo perdida em moral duvidosa, parece autêntica.
O ritmo do filme é outro elemento central. Não se trata de uma sequência ininterrupta de ação, pelo contrário, há momentos de investigação lenta, de rotinas policiais monótonas, de passos em falso e de breves triunfos que não são realmente comemorações. Essa paciência narrativa prepara o terreno para que a cena mais famosa do filme, a perseguição entre o carro de Doyle e o trem elevado, não seja apenas um espetáculo isolado, mas o ápice de tensões acumuladas. Ali, cada segundo da sequência carrega a fricção dos personagens: a claustrofobia do asfalto, o medo latente de perder controle e a empatia contraditória pelo narcotraficante que conduz sua própria fuga.
No entanto, esse realismo também é sua maior fraqueza: o filme pode parecer lento ou até frustrante para olhos contemporâneos acostumados a ação frenética ou quem busca uma trama mais convencional ou uma construção de personagem mais profunda além de Doyle. A narrativa em si é simples, quase procedural, movida por pistas e tentativas. E é justamente essa falta de enfeites que dá a obra sua textura distinta: o policial aqui não é apenas um quebra-cabeça de ação, é uma exploração de um sistema e de homens consumidos por ele.
Friedkin não hesita em mostrar as imperfeições de seus personagens. Eles bebem, usam linguagem ofensiva, desobedecem ordens e em vários momentos se aproximam mais de caricaturas humanas do que de instâncias heroicas. Nesta ambiguidade, nesta incapacidade de separar claramente o bem do mal, o filme encontra sua força. Ele não oferece respostas fáceis, e talvez essa seja a razão pela qual, mesmo mais de cinquenta anos após sua estreia, Operação França ainda provoca discussão e fascínio.
Há, no final, uma sensação que não é de resolução, mas de continuação, que realmente existiu. O mundo do filme é implacável; não há redenção fácil para Doyle, nem um fechamento lírico para o espectador. Só há a persistência de um homem e suas falhas e, ainda assim, a capacidade de atravessar a vida com intensa determinação. Essa tensão entre método, moral e caos urbano é o que transforma Operação França em uma obra que ultrapassou seu tempo, influenciando inúmeras narrativas policiais e personagens urbanos posteriores.
Operação França (The French Connection, 1971 / Estados Unidos)
Direção: William Friedkin
Roteiro: Ernest Tidyman
Com: Gene Hackman, Roy Scheider, Fernando Rey, Marcel Bozzuffi, Tony Lo Bianco
Duração: 104 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Operação França
2026-05-25T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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