Trapaceiros
O que mais me chama atenção em Trapaceiros não é o simples rastro de ideias furtivas ou a tentativa previsível de um roubo ao banco, mas o modo como Woody Allen transforma uma premissa trivial e leve em uma reflexão sutil sobre charme, classe social e o próprio sonho americano. Neste filme de 2000, Allen abandona parcialmente sua persona neurótica e sofisticada que conhecemos tão bem para se aventurar na pele de Ray, um ladrãozinho meia-boca cujo apelido irônico de “O Cérebro” já anuncia o tom da narrativa.
A trama começa com um plano que é puro humor de situação: Ray quer cavar um túnel do porão de uma loja de biscoitos até o cofre de um banco vizinho, usando a fachada aparentemente inocente da doceria para não levantar suspeitas. A comicidade aqui é física e lembra a herança mais cômica de Allen, com personagens tropeçando não apenas em pás e sacos de farinha, mas em suas próprias ambições.
O que acontece, porém, é que o plano tanto falha quanto prospera. Em vez de chegar ao cofre, os biscoitos de Frenchy, interpretada com brilho e um timing cômico notável por Tracey Ullman, tornam-se um sucesso imprevisível. É nesse ponto que o filme articula a primeira de suas ironias: o sucesso independe da lógica criminal e, de certo modo, questiona aquele velho mito de que apenas quem arrisca alto realmente vence.
Essa inversão é um daqueles momentos marcantes que merecem reconhecimento. Não se trata apenas de um artifício narrativo. A cena em que a loja se transforma em um fenômeno local, com clientes e entrevistas jornalísticas, é um comentário sobre como o lucro e a percepção pública podem subverter qualquer plano originalmente fora da lei. Observação econômica e sátira social caminham juntas aqui, ainda que Allen nunca deixe que a reflexão pese demais.
Apesar disso, a transição do humor físico e despretensioso para comentários mais incisivos sobre cultura e classes sociais revela uma tensão que nem sempre funciona. Ali, Allen parece querer dialogar tanto com sua tradição de comédia leve quanto com algo mais profundo, e o resultado é um filme que às vezes parece dividido entre esses dois pólos. O meio do filme perde um pouco o ritmo e a graça das primeiras sequências para entrar em discussões mais triviais de classe, principalmente quando Ray e Frenchy tentam aprender etiqueta com o personagem de Hugh Grant, que não está tão afiado quanto poderia ser.
No elenco, além de Ullman, há performances simpáticas que ajudam a criar uma textura emocionalmente leve sem soar superficial. Hugh Grant, por exemplo, entrega uma presença suave e polida que contrasta com o caos de Ray e Frenchy, mas não é uma atuação memorável do ponto de vista dramatúrgico, cumprindo seu efeito ao refletir o ambiente social que o filme pretende satirizar.
O mérito de Trapaceiros não está tanto em reinventar a roda narrativa, mas em como ele brinca com expectativas. Podemos nos divertir com as trapalhadas físicas, rir das aspirações sociais deslocadas e ainda sair com uma sensação de que houve alguma intenção crítica, mesmo que levemente formulada. Raramente o filme se arrisca a ser cruel, ácido ou realmente cortante na sua crítica cultural. Aqui, Allen opta por um humor mais suave, mais acolhedor, muito próximo do que se vê nas comédias familiares.
Para quem busca apenas risadas, há muitos momentos nominalmente engraçados e situações absurdas que justificam uma sessão sem grandes pretensões. Para quem procura algo mais incisivo, pode faltar o veneno social que obras mais afiadas de Allen possuem. De um modo ou outro, a experiência aqui é de um diretor veterano que reencontra temas familiares dentro de uma construção de humor inteligente, ainda que nem sempre consistente, mas com um sorriso ligeiramente irônico.
Trapaceiros (Small Time Crooks, 2000 / Estados Unidos)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Com: Woody Allen, Tracey Ullman, Hugh Grant, Michael Rapaport, Jon Lovitz
Duração: 94 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Trapaceiros
2026-05-01T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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