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Detroit, A Cidade do Rock
Detroit, A Cidade do Rock
É curioso revisitar Detroit Rock City hoje, porque ele parece um filme que nunca decidiu completamente o que queria ser. Dirigido por Adam Rifkin, ele se apresenta como uma comédia adolescente sobre quatro amigos desesperados para assistir a um show do KISS em 1978, mas rapidamente revela que seu verdadeiro tema não é a música, e sim a devoção juvenil, quase religiosa, que a cultura pop é capaz de provocar.
A premissa é simples, quase esquemática. Após perderem seus ingressos, os protagonistas embarcam em uma jornada caótica até Detroit, enfrentando pais conservadores, rivais e uma sequência de situações absurdas. O que poderia ser apenas mais uma “road movie adolescente” ganha alguma identidade pelo recorte específico: o fanatismo por uma banda que, naquele momento histórico, representava rebeldia, teatralidade e escapismo.
O problema é que o filme parece oscilar o tempo todo entre dois tons que não se harmonizam. Por um lado, há um esforço genuíno de capturar o espírito dos anos 70, com figurinos, trilha sonora e ambientação que evocam uma nostalgia quase tátil. Por outro, o humor aposta frequentemente em exageros escatológicos e gags previsíveis, o que enfraquece qualquer tentativa de profundidade emocional. Essa inconsistência de tom faz com que o filme nunca alcance plenamente nem a sátira, nem o afeto.
Ainda assim, há algo que funciona, e isso está muito ligado ao elenco. Edward Furlong, vindo de papéis mais densos no fim dos anos 90, surpreende ao adotar uma leveza quase despretensiosa. Ele não tenta transformar o personagem em algo maior do que é, e talvez por isso funcione tão bem dentro do grupo. Ao lado dele, Sam Huntington e James DeBello conseguem capturar aquele tipo de amizade adolescente que oscila entre lealdade e idiotice, algo que o filme explora com mais verdade do que o roteiro sugere.
Existe um momento específico que sintetiza bem o filme: a sequência em que os personagens se separam em Detroit e cada um vive uma pequena odisséia pessoal. Ali, o filme abandona a tentativa de narrativa coesa e se entrega a episódios quase independentes, revelando tanto sua fragilidade estrutural quanto sua maior qualidade. É nessa fragmentação que surge um vislumbre de autenticidade, como se o filme finalmente aceitasse ser apenas uma coleção de histórias sobre crescer, errar e sobreviver.
O final, quando finalmente vemos o show do KISS, funciona menos como clímax narrativo e mais como recompensa simbólica. Não importa tanto o concerto em si, que aparece de forma limitada, mas sim o que ele representa. A jornada até ali é o verdadeiro ponto. É quase um rito de passagem. O filme deixa claro que o objetivo nunca foi o espetáculo, mas a transformação dos personagens ao longo do caminho.
Detroit Rock City fala sobre identidade, pertencimento e rebeldia juvenil, ainda que de forma pouco refinada. O conflito entre gerações, representado pela mãe religiosa de um dos protagonistas, é tratado de maneira caricatural, mas revela uma tensão real entre conservadorismo e liberdade cultural, tentando capturar a ideia de que a música pode ser um refúgio, uma forma de resistência pessoal.
Na direção, Adam Rifkin aposta em uma estética energética, com câmera em movimento e cortes rápidos que tentam traduzir o impacto do rock na linguagem visual. Em alguns momentos, isso funciona, especialmente nas cenas iniciais e na montagem que estabelece o contexto dos anos 70. Em outros, parece apenas excesso estilístico, como se o filme confundisse dinamismo com ruído visual.
Talvez o aspecto mais curioso seja como o filme envelheceu. Em 1999, ele competia com uma enxurrada de comédias adolescentes, muitas delas mais afiadas ou mais populares. Hoje, visto à distância, ele ganha um certo charme justamente por suas imperfeições. Há algo de sincero na maneira como ele retrata o fanatismo juvenil, mesmo que o faça de forma desajeitada.
No fim das contas, Detroit, A Cidade do Rock não é exatamente um bom filme no sentido tradicional. Sua narrativa é previsível, o humor nem sempre acerta e o desenvolvimento dramático é irregular. Mas existe nele uma energia caótica e uma honestidade emocional que impedem que ele seja descartado. É o tipo de filme que funciona mais como experiência do que como obra coesa, e talvez por isso tenha encontrado um público fiel ao longo dos anos, justamente por conta dessa mistura de nostalgia, música e imperfeição. Ele não é um clássico, mas é um retrato curioso de uma época, tanto dos anos 70 que tenta representar quanto dos anos 90 em que foi produzido.
Detroit, A Cidade do Rock (Detroit Rock City, 1999 / Estados Unidos)
Direção: Adam Rifkin
Roteiro: Carl V. Dupré
Com: Edward Furlong, Giuseppe Andrews, James DeBello, Sam Huntington, Lin Shaye, Natasha Lyonne, Melanie Lynskey
Duração: 95 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Detroit, A Cidade do Rock
2026-07-13T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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