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Acossado

Acossado - filme

Poucos filmes carregam o peso histórico de Acossado sem estarem aprisionados pelo próprio prestígio. O primeiro longa de Jean-Luc Godard continua sendo uma revolução estética, um divisor de águas da Nouvelle Vague francesa, um terremoto formal que mudou para sempre a linguagem cinematográfica mundial. O curioso é que, mais de seis décadas depois, o filme ainda consegue soar vivo. Talvez não exatamente moderno, porque o cinema absorveu quase tudo o que ele inventou, mas inquieto. Existe uma energia juvenil em cada plano que impede Acossado de virar apenas peça de museu. O filme parece feito por alguém que descobriu que cinema podia respirar de outro jeito e decidiu desafiar todas as regras antes mesmo que alguém dissesse não.

Existe algo quase insolente em Acossado. Desde a primeira sequência, Jean-Paul Belmondo interpreta Michel Poiccard como um homem que vive performando a si mesmo. Ele imita Humphrey Bogart, esfrega os lábios como astro noir americano, rouba carros, mente compulsivamente e circula por Paris como alguém apaixonado pela própria imagem. Michel não é um anti-herói carismático no sentido clássico. Ele é irritante, infantil, egoísta e perigosamente vazio. O mais fascinante é justamente isso. Godard não tenta humanizá-lo através de grandes dramas psicológicos. Michel existe como sintoma de uma juventude sem direção, uma juventude pós-guerra fascinada pela cultura americana, pelo crime romantizado e pela ideia de liberdade absoluta.

Acossado - filme
Ao lado dele, Jean Seberg constrói uma Patricia muito mais complexa do que parece à primeira vista. Há um distanciamento emocional permanente na atuação dela, como se a personagem estivesse observando o mundo de fora. O famoso corte de cabelo curto e a maneira como ela percorre as ruas vendendo jornais transformaram Seberg em ícone instantâneo da Nouvelle Vague, mas o que realmente sustenta sua presença é a ambiguidade. Patricia nunca revela completamente o que sente. Ela parece amar Michel, desprezar sua presença, estudá-lo e usar o relacionamento como uma experiência existencial simultaneamente.

Boa parte do filme acontece em conversas aparentemente banais. Em mãos menos talentosas, isso seria um desastre. Godard transforma o banal em linguagem. A longa sequência no apartamento é provavelmente o coração do filme. Michel e Patricia falam sobre sexo, amor, medo, morte, jornalismo, ambição e absolutamente nada importante. É uma cena que desafia a lógica tradicional do roteiro clássico porque não está interessada em fazer a história avançar. Ela existe para capturar comportamento, hesitação, silêncio e desconforto. O cinema americano da época cortaria aquela cena pela metade. Godard insiste nela até criar uma intimidade quase documental.

Acossado - filme
É impossível falar de Acossado sem falar da montagem. Os jump cuts talvez sejam o elemento mais comentado do filme porque quebravam violentamente a continuidade clássica de Hollywood. Hoje, depois de décadas de videoclipes, publicidade e cinema acelerado, muita gente pode não perceber imediatamente o impacto disso. Mas ainda existe uma estranheza poderosa nesses cortes bruscos. Eles criam a sensação de que o filme está sendo montado no calor do momento, como se a narrativa pudesse desmoronar a qualquer instante. Essa instabilidade combina perfeitamente com Michel, um homem que vive improvisando a própria sobrevivência.

Ao mesmo tempo, Acossado também carrega defeitos que não devem ser ignorados. Há momentos em que a espontaneidade de Godard levam a uma repetição proposital nos diálogos que pode soar cansativa para quem espera um thriller policial. Em certos momentos, Godard parece mais interessado em desafiar o espectador do que em envolvê-lo emocionalmente. Isso pode criar um distanciamento. E o próprio experimentalismo do filme pode parecer, para alguns, uma celebração do improviso acima da profundidade dramática.

Mas talvez esse seja exatamente o ponto. Acossado não quer oferecer conforto narrativo. O filme quer desmontar o cinema tradicional enquanto ainda se diverte com ele. Godard amava os filmes policiais americanos, mas também queria construir algo novo. O resultado é um filme que parece ao mesmo tempo homenagem e provocação.

Existe um momento específico que resume toda a força do longa. Michel, já encurralado, caminha pelas ruas após ser traído. Não há heroísmo trágico na cena. Não há romantização verdadeira da criminalidade. Existe apenas um homem tentando continuar interpretando um personagem até o último segundo. Quando o filme termina, fica a sensação de que Godard matou não apenas Michel, mas uma certa inocência do cinema clássico. Depois de Acossado, a câmera parecia mais livre, os cortes mais violentos, os personagens mais contraditórios e o cinema mais consciente de si mesmo.

Talvez o maior mérito do filme seja justamente sua recusa em envelhecer de maneira confortável. Muitos clássicos se tornam respeitáveis demais. Acossado continua bagunçado, arrogante, sedutor e imperfeito. Continua parecendo um filme feito por jovens que acreditavam que cinema podia e devia ser reinventado na rua, sem dinheiro, sem autorização e sem pedir desculpas.


Acossado (À bout de souffle, 1960 / França)
Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em argumento de François Truffaut
Com: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Jean-Pierre Melville, Henri-Jacques Huet, Daniel Boulanger
Duração: 90 min.

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