Home
cinema europeu
classicos
critica
Daniel Boulanger
Henri-Jacques Huet
Jean Seberg
Jean-Luc Godard
Jean-Paul Belmondo
Jean-Pierre Melville
suspense
Acossado
Acossado
Poucos filmes carregam o peso histórico de Acossado sem estarem aprisionados pelo próprio prestígio. O primeiro longa de Jean-Luc Godard continua sendo uma revolução estética, um divisor de águas da Nouvelle Vague francesa, um terremoto formal que mudou para sempre a linguagem cinematográfica mundial. O curioso é que, mais de seis décadas depois, o filme ainda consegue soar vivo. Talvez não exatamente moderno, porque o cinema absorveu quase tudo o que ele inventou, mas inquieto. Existe uma energia juvenil em cada plano que impede Acossado de virar apenas peça de museu. O filme parece feito por alguém que descobriu que cinema podia respirar de outro jeito e decidiu desafiar todas as regras antes mesmo que alguém dissesse não.
Existe algo quase insolente em Acossado. Desde a primeira sequência, Jean-Paul Belmondo interpreta Michel Poiccard como um homem que vive performando a si mesmo. Ele imita Humphrey Bogart, esfrega os lábios como astro noir americano, rouba carros, mente compulsivamente e circula por Paris como alguém apaixonado pela própria imagem. Michel não é um anti-herói carismático no sentido clássico. Ele é irritante, infantil, egoísta e perigosamente vazio. O mais fascinante é justamente isso. Godard não tenta humanizá-lo através de grandes dramas psicológicos. Michel existe como sintoma de uma juventude sem direção, uma juventude pós-guerra fascinada pela cultura americana, pelo crime romantizado e pela ideia de liberdade absoluta.
Ao lado dele, Jean Seberg constrói uma Patricia muito mais complexa do que parece à primeira vista. Há um distanciamento emocional permanente na atuação dela, como se a personagem estivesse observando o mundo de fora. O famoso corte de cabelo curto e a maneira como ela percorre as ruas vendendo jornais transformaram Seberg em ícone instantâneo da Nouvelle Vague, mas o que realmente sustenta sua presença é a ambiguidade. Patricia nunca revela completamente o que sente. Ela parece amar Michel, desprezar sua presença, estudá-lo e usar o relacionamento como uma experiência existencial simultaneamente.
Boa parte do filme acontece em conversas aparentemente banais. Em mãos menos talentosas, isso seria um desastre. Godard transforma o banal em linguagem. A longa sequência no apartamento é provavelmente o coração do filme. Michel e Patricia falam sobre sexo, amor, medo, morte, jornalismo, ambição e absolutamente nada importante. É uma cena que desafia a lógica tradicional do roteiro clássico porque não está interessada em fazer a história avançar. Ela existe para capturar comportamento, hesitação, silêncio e desconforto. O cinema americano da época cortaria aquela cena pela metade. Godard insiste nela até criar uma intimidade quase documental.
É impossível falar de Acossado sem falar da montagem. Os jump cuts talvez sejam o elemento mais comentado do filme porque quebravam violentamente a continuidade clássica de Hollywood. Hoje, depois de décadas de videoclipes, publicidade e cinema acelerado, muita gente pode não perceber imediatamente o impacto disso. Mas ainda existe uma estranheza poderosa nesses cortes bruscos. Eles criam a sensação de que o filme está sendo montado no calor do momento, como se a narrativa pudesse desmoronar a qualquer instante. Essa instabilidade combina perfeitamente com Michel, um homem que vive improvisando a própria sobrevivência.
Ao mesmo tempo, Acossado também carrega defeitos que não devem ser ignorados. Há momentos em que a espontaneidade de Godard levam a uma repetição proposital nos diálogos que pode soar cansativa para quem espera um thriller policial. Em certos momentos, Godard parece mais interessado em desafiar o espectador do que em envolvê-lo emocionalmente. Isso pode criar um distanciamento. E o próprio experimentalismo do filme pode parecer, para alguns, uma celebração do improviso acima da profundidade dramática.
Mas talvez esse seja exatamente o ponto. Acossado não quer oferecer conforto narrativo. O filme quer desmontar o cinema tradicional enquanto ainda se diverte com ele. Godard amava os filmes policiais americanos, mas também queria construir algo novo. O resultado é um filme que parece ao mesmo tempo homenagem e provocação.
Existe um momento específico que resume toda a força do longa. Michel, já encurralado, caminha pelas ruas após ser traído. Não há heroísmo trágico na cena. Não há romantização verdadeira da criminalidade. Existe apenas um homem tentando continuar interpretando um personagem até o último segundo. Quando o filme termina, fica a sensação de que Godard matou não apenas Michel, mas uma certa inocência do cinema clássico. Depois de Acossado, a câmera parecia mais livre, os cortes mais violentos, os personagens mais contraditórios e o cinema mais consciente de si mesmo.
Talvez o maior mérito do filme seja justamente sua recusa em envelhecer de maneira confortável. Muitos clássicos se tornam respeitáveis demais. Acossado continua bagunçado, arrogante, sedutor e imperfeito. Continua parecendo um filme feito por jovens que acreditavam que cinema podia e devia ser reinventado na rua, sem dinheiro, sem autorização e sem pedir desculpas.
Acossado (À bout de souffle, 1960 / França)
Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em argumento de François Truffaut
Com: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Jean-Pierre Melville, Henri-Jacques Huet, Daniel Boulanger
Duração: 90 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Acossado
2026-08-31T08:30:00-03:00
Ari Cabral
cinema europeu|classicos|critica|Daniel Boulanger|Henri-Jacques Huet|Jean Seberg|Jean-Luc Godard|Jean-Paul Belmondo|Jean-Pierre Melville|suspense|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
A Incrível História da Ilha das Rosas (2020) é uma pérola cinematográfica, uma comédia italiana que explora as fronteiras da liberdade, ind...
-
O Segredo de Marrowbone (2017) é um daqueles filmes que te prendem pela textura da atmosfera antes de te conquistar pela lógica de cada aco...
-
Casablanca (1942) é um daqueles raros casos em que o mito não engole o filme . Pelo contrário, ele se sustenta. Revisitar a obra dirigida p...
-
Foi-se o tempo em que as pessoas vestiam as suas melhores roupas e iam apreciar um bom filme em uma sala escura e silenciosa chamada Cinema...
-
Mais um Semana no Cinema , e provavelmente a última. A nossa página no Facebook já vem fazendo o trabalho de trazer as notícias que são des...
-
Imaculada entende perfeitamente o tipo de filme que deseja ser. Em um período em que o terror religioso voltou a ocupar espaço nos cinemas...
-
Ver Nonnas , de Stephen Chbosky , é como cruzar a porta de um restaurante pequeno, com paredes cheias de fotos de família e o cheiro de mol...
-
É fascinante revisitar O Quinto Poder (1962) hoje, não apenas como peça de cinema, mas como um artefato quase profético. É só trocar ondas ...
-
O que mais chama atenção em Um Filme Minecraft (2025) é como ele tenta transformar um dos jogos mais livres da história em algo fechado, co...
-
A primeira coisa que precisa ser dita sobre Garota Dourada , sem rodeios, é que o filme nasce diretamente da sombra de Menino do Rio (1981...





