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JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar
JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar
Existe um tipo de cinema que não quer apenas contar uma história, mas reescrever a maneira como lembramos dela. JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar, dirigido por Oliver Stone, pertence exatamente a essa categoria desconfortável, provocadora e, em muitos momentos, perigosamente sedutora.
Desde os primeiros minutos, o filme não se apresenta como uma narrativa tradicional. Ele se comporta como um arquivo vivo. Fragmentos de imagens, registros históricos, encenações e diferentes texturas visuais se misturam de forma quase agressiva. A montagem não quer ser invisível. Ela quer ser percebida. E mais do que isso, quer gerar desconfiança. Uma escolha formal que não é gratuita. Ao quebrar a linearidade, Stone simula o próprio processo de investigação, como se o espectador estivesse montando um quebra-cabeça incompleto.
No centro dessa engrenagem está Kevin Costner, interpretando Jim Garrison com uma sobriedade que contrasta com o caos ao redor. Costner não tenta transformar o personagem em um herói inflamado. Ele o constrói como um homem comum sendo lentamente consumido por uma obsessão. Essa escolha é crucial porque impede o filme de cair completamente na caricatura conspiratória. Ainda assim, há momentos em que o roteiro claramente empurra Garrison para um papel quase messiânico, o que revela a intenção ideológica de Stone.
O elenco de apoio é um desfile de rostos conhecidos, e isso não é apenas um capricho por escala. Joe Pesci, Tommy Lee Jones e Gary Oldman surgem como peças de um mosaico maior, cada um representando uma versão possível da verdade. Oldman, em especial, transforma Lee Harvey Oswald em uma figura quase fantasmagórica, mais símbolo do que pessoa. Mas o verdadeiro protagonista do filme não é Garrison, nem Oswald. É a dúvida.
Stone constrói um thriller político que se alimenta da paranoia. A sensação constante é de que tudo está conectado, mesmo quando não há evidência concreta. Isso torna o filme eletrizante, mas também levanta uma questão ética inevitável: até que ponto o cinema pode sugerir como verdade aquilo que não consegue provar? O longa não esconde seu posicionamento. Ele parte da premissa de que houve uma conspiração e organiza toda a narrativa para sustentar essa ideia. O velho e conhecido viés de confirmação.
Tecnicamente, porém, é difícil não reconhecer o poder do filme. A edição é talvez seu elemento mais impressionante. Cortes rápidos, sobreposições e mudanças de formato criam uma sensação de urgência que mantém o espectador atento mesmo ao longo de mais de três horas. A fotografia, que alterna entre estilos, reforça essa ambiguidade entre documento e ficção. E a trilha de John Williams acrescenta uma camada emocional que transforma a investigação em algo quase épico.
Existe uma cena que sintetiza tudo o que o filme tenta fazer. No clímax, durante o julgamento, Garrison reconstrói o assassinato diante do júri. É um momento de puro cinema. A montagem acelera, os argumentos se acumulam, a música cresce. Não importa se aquilo é factual. O que importa é que, naquele instante, parece absolutamente convincente. É aí que mora tanto a força quanto o perigo do filme.
Por outro lado, essa mesma intensidade cobra seu preço. Em alguns momentos, o longa se torna excessivamente didático, quase como uma aula prolongada. Há também uma simplificação de certos personagens que contradiz a complexidade que o próprio filme tenta defender. E, claro, a principal fragilidade permanece: sua relação com a verdade histórica é, no mínimo, questionável.
Mesmo assim, ignorar o impacto de JFK é impossível. Ele não é apenas um filme sobre o assassinato de um presidente. É um filme sobre como narrativas são construídas, manipuladas e consumidas. E isso ainda é muito relevante. Não porque ofereça respostas, mas porque transforma a dúvida em espetáculo e a alimenta dentro de cada espectador. No fim, o que fica não é a certeza de uma conspiração, mas a sensação inquietante de que a verdade nunca está intacta.
JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (JFK, 1992 / Estados Unidos, França)
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Oliver Stone, Jim Garrison, Jim Marrs
Com: Kevin Costner, Sissy Spacek, Joe Pesci, Tommy Lee Jones, Gary Oldman, Donald Sutherland, Kevin Bacon
Duração: 189 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar
2026-08-12T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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