Em 1968, Kubrick nos apresentou a elipse mais longa do cinema. Um osso lançado ao ar fez a gente ir da pré-história para o espaço sideral em 2001 - Uma odisseia no espaço com apenas um corte. Um salto temporal tão grande nos dá a sensação de que evoluímos, saindo desse estado primitivo.
Round 6
Em 1968, Kubrick nos apresentou a elipse mais longa do cinema. Um osso lançado ao ar fez a gente ir da pré-história para o espaço sideral em 2001 - Uma odisseia no espaço com apenas um corte. Um salto temporal tão grande nos dá a sensação de que evoluímos, saindo desse estado primitivo.
O que isso tem relação com Round 6, nova febre coreana da Netflix? Tudo. Fiz uma óbvia conexão inicial sonora já que a música que nos embala nessa cena espacial é a mesma que nos anuncia o início de mais um jogo na série: A valsa de Strauss, Danúbio Azul. Depois, porque ele nos lembra que essa sensação de evolução é ilusória. Nós continuamos, tal qual aqueles primatas, com um osso na mão, lutando por poder e sobrevivência.
A série pode ser comparada com diversas obras desde Jogos Vorazes a Jogos Mortais. Faz eco também a Parasita, filme coreano vencedor do Oscar e Palma de Ouro por representar essa enorme disparidade social, entre privilegiados e miseráveis. Alguns têm comparado também ao filme O Poço por demonstrar bem até onde um ser humano pode ir em situações extremas.
Na verdade, não há muita novidade. Tal qual nos circos romanos, nossa sociedade é dividida entre pessoas que pagam para se divertir com a miséria humana, enquanto outros se matam na arena. O interessante em Round 6 é a construção de camadas a partir disso, inclusive nos fazendo refletir que, no fundo, estamos todos nesse jogo, nos matando todos os dias em trabalhos cada vez mais desgastantes em busca de dinheiro, que nos garantem status, respeito e até amor.
Outra qualidade da série consiste em sua construção técnica. O roteiro é hábil em nos prender à trama. Se vale da jornada do herói com direito inclusive a etapa da recusa ao chamado. As personagens são bem construídas mesmo em seus estereótipos, cumprindo funções dentro do grupo. O equilíbrio do que se passa dentro e fora do jogo também é importante pra construção da empatia inicial.
Ainda que a roupa vermelha e máscara façam eco com A Casa de Papel, outro fenômeno mundial da Netflix, a direção de arte aqui tem outras funções. Os soldados serem todos “iguais” ajuda a não construir um vilão entre os algozes, representando ninguém e todos ao mesmo tempo. O cenário clean, quase asséptico, ajuda no choque de quando as mortes acontecem. Os símbolos infantis também, afinal, morrer jogando batatinha frita 123, por exemplo, é algo aparentemente inimaginável, ainda que faça parte das brincadeiras de criança “morrer” de mentirinha.
Tudo isso reforça a ideia de que não é preciso estar na arena para “jogar” essa cruel disputa. A vida moderna tem se demonstrado assim. Desde sempre. Mesmo em uma ilusória busca por sociedade igualitária, acabamos por reforçar a meritocracia e pequenos privilégios que vão se acumulando e nos dividindo entre vencedores e perdedores. Somos ainda capazes de gestos altruístas? E na hora em que estivermos à beira da morte, vale qualquer coisa? Não por acaso, o final fica aberto, a trama não é cartesiana e não consiste apenas em sobreviver aos seis jogos, tendo segunda temporada ou não.
Valeu a pena? Qual o sentido da vida? Por que acordamos todos os dias, encaramos trabalhos exaustivos em troca de dinheiro? Qual o nosso limite? A que nos permitimos submeter e em troca de quê? O que conseguimos assimilar e como podemos, de fato, evoluir? Algum dia deixaremos de ser aquele primata com o osso na mão experimentando o poder? São questões que ficam após a projeção dos nove episódios de Round 6. E, talvez, nisso consista o segredo de seu enorme sucesso.
Round 6 (Squid Game, Coreia do Sul, 2021)
Direção: Hwang Dong-hyuk
Roteiro: Hwang Dong-hyuk
Com: Lee Jung-jae, Park Hae-soo, Wi Ha-Joon, Jung Hoyeon
Duração: 9 episódios de 50 min cada
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Round 6
2021-10-18T13:53:00-03:00
Amanda Aouad
cinema coreano|critica|Hwang Dong-hyuk|netflix|série|
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