Não tem como falar do segundo filme do Pantera Negra sem falar da morte do ator Chadwick Boseman. É um fator externo que influenciou diretamente a estrutura interna, modificando os planos iniciais da Marvel e o roteiro pensado. A solução foi trazer o externo para o interno, iniciando o filme com a morte de T’Challa e construindo toda a trama em torno do luto e busca por um novo começo. O que acabou funcionando bem.
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Pantera Negra - Wakanda para sempre
Pantera Negra - Wakanda para sempre
Não tem como falar do segundo filme do Pantera Negra sem falar da morte do ator Chadwick Boseman. É um fator externo que influenciou diretamente a estrutura interna, modificando os planos iniciais da Marvel e o roteiro pensado. A solução foi trazer o externo para o interno, iniciando o filme com a morte de T’Challa e construindo toda a trama em torno do luto e busca por um novo começo. O que acabou funcionando bem.
Há uma sensação de confusão e descontrole no roteiro, é verdade. Não há tempo para construção de algumas personagens e as tramas vão se atropelando na progressão narrativa. Mas isso acaba refletindo também esse sentimento de confusão pós perda. O luto é isso, uma imprecisão sobre o futuro, um apego ao passado, uma dor que nos faz vagar em busca de caminhos, tal qual o filme.
De uma maneira geral, Wakanda Forever foi o que precisava ser para seguir adiante. Não por acaso é um filme quase desconectado do resto do MCU. Duas citações apenas. A luta contra Thanos e a tecnologia Stark. Há também vislumbres de possíveis desenvolvimentos para o grupo. Mas, em geral, acaba sendo uma trama isolada, tal qual o reino, já não mais tão escondido no meio da África.
Ainda que dê espaço para a reflexão e melodrama diante da perda, é um filme também de muita ação. Há batalhas bem desenvolvidas dentro e fora da água que ajudam na construção do ritmo. Destaque para a cidade sendo atacada. O compasso da montagem continua sendo o batuque das tribos e do coração de Wakanda. Há também uma direção de arte caprichada, em especial no reino submerso, com uma riqueza de detalhes que ganha força na tela grande.
O arco de Shuri traz muitas camadas, assim como do vilão Namor. Talvez fosse melhor tratá-los com mais calma, mas funciona dentro da proposta. A perda do irmão, as consequências da guerra, o embate com o desconhecido dão ferramentas para essa mulher inteligente, mas insegura em relação à sua própria força e discernimento. É curiosa a escolha de priorizar, em seu arco, o conflito interno, diante de tantos conflitos externos, o que acaba trazendo muitas das questões de uma mulher negra em um mundo machista e racista.
Já Namor traz vislumbres potentes, mas mal desenvolvidos na personagem. A questão da colonização europeia, da exploração da terra e dos povos originais e todas as consequências disso dão possibilidades para muitas discussões. Mas acaba ficando um discurso vazio e revanchista que não leva a lugar algum. Fica um vilão soberbo construído em promessas não cumpridas.
Ainda assim, Pantera Negra é um filme acima da média da fase quatro do MCU. Não se rende a fórmulas cômicas fáceis e mantém sua essência de luta, representatividade e reflexão. O herói, inspirado no movimento racial da década de 1960, continua representando valores tão caros na luta contra o preconceito, o que traz identificação e pertencimento. Uma inspiração e confirmação de que as HQs são fontes ricas de questões tão caras à humanidade.
Pantera Negra - Wakanda para sempre (2022 / EUA)
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Joe Robert Cole, Ryan Coogler
Com: Letítia Wright, Angela Bassett, Danai Gurira, Tenoch Huerta, Lupita Nyong'o, Winston Duke
Duração: 162 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Pantera Negra - Wakanda para sempre
2023-01-05T10:32:00-03:00
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