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O Poço
O Poço
O cinema espanhol trouxe-nos inúmeras pérolas ao longo dos anos, mas, a meu ver, nenhuma delas se assemelha ao impacto visceral e à reflexão profunda desencadeados por O Poço (El Hoyo), um filme de terror dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia. Esta produção de 2019 não é apenas uma adição ao gênero, mas uma experiência cinematográfica que transcende as fronteiras do simples entretenimento, mergulhando nas profundezas sombrias da psicologia humana e da crua realidade das disparidades sociais.
O Poço nos arrasta para um pesadelo distópico, uma prisão vertical onde os residentes são distribuídos em andares, com dois indivíduos por nível. A alegoria social é imediatamente clara: quanto mais alto o andar, mais privilegiado o residente, enquanto os que se encontram nos andares mais baixos enfrentam a crescente escassez e uma luta brutal pela sobrevivência. O protagonista, Goreng (interpretado por Ivan Massagué), escolhe levar consigo um exemplar de Dom Quixote como seu único pertence, um gesto que em si é uma declaração de idealismo em meio à desolação. Essa escolha já simboliza o espírito do sonhador que enfrenta um mundo impiedoso.
As atuações em O Poço merecem destaque, com Ivan Massagué como o protagonista que passa por uma transformação psicológica impressionante. Ele encarna Goreng com uma mistura de idealismo, desespero e finalmente, adaptação à brutal realidade da prisão. Zorion Eguileor como Trimagasi, um residente mais experiente, oferece uma performance carregada de cinismo e desencanto, tornando-o um personagem intrigante que questiona a natureza humana.
A direção de Galder Gaztelu-Urrutia é eficaz na construção de um ambiente claustrofóbico e sombrio. A escolha de manter a maior parte da ação dentro da prisão vertical reforça a sensação de confinamento e isolamento. O diretor utiliza os espaços e as personalidades dos personagens para criar uma narrativa que vai além da superfície, explorando as complexidades humanas em meio a um cenário desumano.
Gaztelu-Urrutia nos leva a uma análise aguda de uma sociedade regida pela economia neoliberal. A prisão é uma representação vívida do capitalismo extremo, onde a ganância e a desigualdade são exacerbadas. O filme expõe a futilidade das tentativas de conscientização e mudança por parte dos privilegiados, enquanto os mais desfavorecidos são levados à beira da selvageria em busca de sobrevivência.
Em meio a toda a brutalidade, há um momento marcante em O Poço. Goreng, após uma jornada repleta de transformações, percebe que a verdadeira mensagem a ser enviada não reside em palavras ou ações, mas na mera existência de uma criança que ele salva nos andares mais baixos. A chegada dessa criança, nascida e criada na prisão, simboliza a esperança e a possibilidade de mudança. O filme nos questiona se a mera existência desse símbolo de esperança pode ser o suficiente para provocar uma revolução.
O Poço é uma experiência cinematográfica intensa cujas performances sólidas, direção eficaz e metáfora social incisiva são pontos cruciais que ressoam com o público, provocando discussões profundas sobre a natureza humana e a desigualdade. O diretor Galder Gaztelu-Urrutia conseguiu criar uma obra que transcende o entretenimento, deixando-nos com uma reflexão duradoura sobre as questões sociais que assolam nossa realidade. O Poço é um soco no estômago, um grito de desespero e, ao mesmo tempo, um chamado à esperança em meio às trevas.
Este filme espanhol merece seu lugar entre as produções mais marcantes do cinema contemporâneo e, sem dúvida, é uma adição notável à filmografia do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. O Poço permanece como uma lembrança assombrosa de que, em um mundo desigual, a esperança pode surgir das profundezas mais sombrias, desde que tenhamos a coragem de enfrentar o abismo.
O Poço (El Hoyo, 2019 / Espanha)
Direção: Galder Gaztelu-Urrutia
Roteiro: David Desola, Pedro Rivero
Com: Ivan Massagué, Zorion Eguileor, Antonia San Juan
Duração: 94 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Poço
2023-12-08T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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