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Letra e Música
Letra e Música
Existe um certo tipo de filme que, mesmo com seus defeitos evidentes, acaba ganhando um lugar carinhoso no inconsciente coletivo. Especialmente entre aqueles que têm memórias afetivas ligadas à música pop, aos amores improváveis e à persistente ideia de que todos merecem uma segunda chance. Letra e Música (Music and Lyrics, 2007), escrito e dirigido por Marc Lawrence, é exatamente esse tipo de filme: uma comédia romântica sem grandes pretensões formais, mas que encontra seu charme justamente na mistura entre o descartável e o sincero. Entre a doçura da fórmula e uma autoconsciência irônica sobre o universo que retrata.
Marc Lawrence, conhecido por roteiros como Miss Simpatia e Amor à Segunda Vista, trabalha aqui com mais contenção. Ele evita os excessos de comédias escrachadas e aposta em algo mais modesto: uma história sobre dois fracassados que se encontram por acaso e, sem querer, compõem uma canção que transforma suas trajetórias. A estrutura é conhecida, e em muitos momentos previsível, mas isso não chega a ser um problema quando o filme se reconhece dentro da fórmula. Ao contrário, Letra e Música parece rir de si mesmo enquanto presta homenagem ao mundo das canções-chiclete, da fama passageira e da nostalgia envergonhada que nos faz dançar ao som de algo que juramos odiar.
Hugh Grant interpreta Alex Fletcher, um ex-astro dos anos 80 cuja banda fictícia, Pop!, claramente inspirada em duplas como Wham! ou Duran Duran, teve seus quinze minutos de glória e desapareceu como muitos artistas daquele tempo. Hoje, Alex se apresenta em feiras de nostalgia para um público fiel de quarentonas, vive de pequenos eventos corporativos e parece, curiosamente, estar em paz com essa decadência. Grant, que já vinha de uma fase mais madura, repete seu arquétipo do inglês charmoso, irônico e meio perdido, mas adiciona algo a mais: um certo cansaço no olhar, um gesto resignado que torna seu personagem mais humano. Aos 47 anos, sem disfarçar as rugas e as limitações vocais, ele entrega uma performance coerente com o espírito do filme. Ele sabe cantar mais ou menos, dançar mais ou menos, mas tem carisma de sobra para nos fazer acreditar que Alex Fletcher ainda pode ter um momento de redenção.
Drew Barrymore, por sua vez, interpreta Sophie Fisher, uma mulher insegura que rega plantas para ganhar a vida e tenta se recuperar emocionalmente após um relacionamento abusivo com um escritor narcisista. Barrymore, que nunca se apoiou exclusivamente na beleza ou no glamour, traz uma vulnerabilidade encantadora à personagem. Sophie é doce, sim, mas também é esquisita, impulsiva, cheia de travas emocionais. E é justamente essa imperfeição que a torna interessante. A química entre Barrymore e Grant não é avassaladora. Não há beijos cinematográficos sob a chuva ou momentos de tirar o fôlego. Mas há uma cumplicidade cômica, um ritmo de diálogo que flui com naturalidade, como duas pessoas que se entendem mais pela escuta do que pelo desejo.
O encontro entre os dois acontece quando Cora Corman, interpretada por Haley Bennett em uma performance absolutamente caricata e proposital, uma superstar adolescente claramente inspirada em Britney Spears e Shakira, contrata Alex para escrever uma nova música. O único problema é que Alex escreve melodias, mas não letras. E Sophie, que aparece por acaso para cuidar das plantas do apartamento dele, revela um talento surpreendente para escrever versos. A partir daí, os dois mergulham em uma parceria criativa que, aos poucos, se torna também afetiva.
O filme então se organiza em torno da composição da canção “Way Back Into Love”, uma música simples e grudentinha que serve como metáfora perfeita para a proposta do roteiro. Trata-se de olhar para o passado com carinho, mesmo quando ele nos embaraça. O momento em que os dois finalmente tocam a música juntos, testando frases, trocando rimas, afinando palavras como quem afina emoções, é talvez o mais sincero do filme. Não é grandioso, nem dramático. É tímido, quase íntimo. E é justamente por isso que funciona tão bem.
Marc Lawrence evita exageros visuais. Sua direção é funcional, sem firulas, deixando o protagonismo para os diálogos, para a trilha sonora e para os atores. Há, no entanto, inteligência em detalhes sutis. O uso do videoclipe de abertura, que recria com perfeição o kitsch dos anos 80, já estabelece o tom do filme com uma ironia fina. E as piadas sobre o universo da música pop, com sua espiritualidade plastificada e coreografias semipornográficas, revelam uma crítica leve, mas eficaz, ao esvaziamento cultural da indústria.
Ainda assim, Letra e Música não escapa de seus tropeços. Em alguns momentos, o ritmo se arrasta, especialmente quando o filme insiste em subtramas pouco desenvolvidas, como o embate com o escritor ex-namorado de Sophie ou os conflitos genéricos com a gravadora. Também há cenas que soam dispensáveis, apenas para preencher a estrutura clássica da comédia romântica. E há, claro, a previsibilidade inerente ao gênero. Sabemos que eles vão brigar no segundo ato e que a música será cantada no final. O que importa, no entanto, é como esses clichês são trabalhados. E Lawrence, aqui, demonstra que sabe usá-los com algum frescor.
Letra e Música não é um filme revolucionário, mas tem a honestidade dos trabalhos feitos com cuidado. É uma obra que reconhece suas limitações e, em vez de escondê-las, as transforma em estilo. Ele fala com ternura sobre a decadência, sobre as músicas que um dia nos marcaram mesmo sem serem boas, e sobre o valor de uma conexão verdadeira em meio ao ruído do mercado. É um lembrete de que, às vezes, a melodia mais simples pode dizer tudo, desde que cantada com o coração certo.
E no fim das contas, é isso que ele nos oferece. Uma pequena canção romântica, divertida, nostálgica, que talvez você não se orgulhe de amar, mas vai cantarolar por dias.
Letra e Música (Music and Lyrics, 2007 / Estados Unidos)
Direção: Marc Lawrence
Roteiro: Marc Lawrence
Com: Hugh Grant, Drew Barrymore, Brad Garrett, Kristen Johnston, Haley Bennett
Duração: 103 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Letra e Música
2025-07-25T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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