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Fitzcarraldo
Fitzcarraldo (1982) é uma obra que supera qualquer limite do cinema convencional, mergulhando o espectador em uma narrativa tão grandiosa quanto controversa. Dirigido por Werner Herzog, o filme conta a história de Brian Sweeney Fitzgerald, conhecido como Fitzcarraldo, um irlandês apaixonado por ópera que sonha em construir uma casa de ópera no coração da Amazônia peruana. Para financiar esse sonho, ele planeja explorar uma área rica em seringueiras, acessível apenas através de um audacioso plano: transportar um barco a vapor por sobre uma montanha para alcançar um rio paralelo.
A atuação de Klaus Kinski no papel-título é, sem dúvida, hipnotizante. Conhecido por sua intensidade e comportamento errático, Kinski incorpora Fitzcarraldo com uma paixão febril que beira a obsessão. Sua performance transmite a determinação implacável do personagem, mas também revela suas vulnerabilidades e delírios. A química entre Kinski e Claudia Cardinale, que interpreta Molly, a parceira e financiadora de Fitzcarraldo, adiciona uma camada de profundidade emocional ao filme. Cardinale traz uma presença calorosa e resiliente, equilibrando a volatilidade de Kinski com uma serenidade firme.
A direção de Herzog é marcada por sua busca incansável pela autenticidade e pela disposição de enfrentar desafios monumentais para capturar a essência de sua visão artística. Em Fitzcarraldo, essa abordagem é levada ao extremo. O diretor optou por realizar a façanha de transportar um barco de 320 toneladas sobre uma montanha sem o uso de efeitos especiais, uma decisão que resultou em uma produção repleta de dificuldades e perigos reais. Essa escolha não apenas reflete a obsessão do protagonista, mas também a do próprio Herzog, criando uma metanarrativa onde a arte imita a vida de maneira visceral.
A produção de Fitzcarraldo foi repleta de controvérsias, o que acabou lançando uma sombra sobre a obra, levantando debates sobre questões éticas dos limites da arte, sobre os métodos de Herzog e o custo real de sua busca pela autenticidade. Relatos indicam que aldeias indígenas foram deslocadas e que houve desmatamento significativo para acomodar as filmagens. Além disso, o transporte do navio pela montanha causou danos ambientais consideráveis, destruindo parte da floresta. Além disso, o filme também peca por sua duração excessiva e ritmo irregular, que podem ser um teste à paciência.
E este é um momento particularmente marcante do filme: a cena em que o barco é levado pela montanha. Essa sequência resume bem a grandiosidade e a loucura do empreendimento de Fitzcarraldo, servindo como uma metáfora poderosa para a luta humana contra os limites impostos pela natureza e pela própria condição humana.
Entre os pontos positivos, destaca-se a cinematografia impressionante que captura a vastidão e a beleza indomável da Amazônia, proporcionando um pano de fundo majestoso para a narrativa. A trilha sonora, que inclui árias de ópera, reforça a paixão de Fitzcarraldo e cria um contraste evocativo com o ambiente selvagem.
Fitzcarraldo acaba por ser uma experiência cinematográfica complexa que desafia e provoca. É uma obra que celebra a grandiosidade dos sonhos humanos, mas também serve como um lembrete das consequências potencialmente destrutivas da obsessão desenfreada. O filme é um convite a refletir sobre o preço da ambição e os limites entre a arte e a moralidade.
Fitzcarraldo (Fitzcarraldo, 1982 / Alemanha, Peru)
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Com: Klaus Kinski, Claudia Cardinale, José Lewgoy, Miguel Ángel Fuentes, Grande Otelo
Duração: 158 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Fitzcarraldo
2025-07-28T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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