Home
Akin Omotoso
Andrew Buckland
cinema africano
comedia
critica
Kagiso Lediga
Pearl Thusi
Mais uma Página
Mais uma Página
Assistir a Mais uma Página (Catching Feelings), esse filme sul-africano, é como entrar em uma sala elegante em Joanesburgo e encontrar ali todas as tensões de um casamento moderno. Há conforto no cenário urbano, mas o ciúme ronda cada ato, e os diálogos filosóficos têm uma ponta de amargura que fazem rir e pensar ao mesmo tempo. Kagiso Lediga nos apresenta Max, um professor universitário preso à rotina e à crise criativa, dividido entre a mulher, Sam, jornalista firme e leal, e o retorno inesperado de Heiner Miller, um escritor famoso cuja presença traz à tona os ressentimentos e as fissuras que o casal tentava ocultar.
É fascinante ver como a comédia de erros se desenrola. Risos se enroscam em traições quase sutis, reversões emocionais silenciosas e no humor cáustico que só alguém com sensibilidade política consegue entregar. Há charme nas conversas secas, tons irônicos que soam como duelos verbais entre papéis sociais, e ali se descortinam conflitos profundos: ciúme, infidelidade psicológica, desigualdades raciais, a fragilidade de instituições e promessas feitas e esquecidas.
O filme valoriza o cotidiano sofisticado da classe média urbana de Joanesburgo, apresentando uma cidade longe dos estereótipos coloniais, repleta de bares modernos, ruas vibrantes e cultura visual refinada. Ainda assim, essa Joanesburgo aparentemente segura guarda fissuras: relações que se esfarelam, criadores que duvidam de si mesmos, convenções matrimoniais submetidas a pressões exteriores e interiores.
A performance de Pearl Thusi como Sam é convincente: ela traz uma força tranquila que contrasta com o nervosismo arrogante de Max. Lediga, ocupando simultaneamente os papéis de diretor, roteirista e protagonista, entrega um protagonista que parece cínico, mas não insensível; sua ironia acaba por revelar vulnerabilidades soterradas. Andrew Buckland, como Heiner, funciona como catalisador de tensões e seu fascínio por Max é ambíguo: ao mesmo tempo gera desconforto e admiração. A química entre os três é real, ainda que o roteiro às vezes pareça disperso e há momentos em que a narrativa parece desorganizada, quase desconexa, deixando pontas soltas.
O ritmo do filme varia entre cenas de alto valor de produção, com o visual sofisticado da Joanesburgo moderna, e pausas que insistem na melancolia, como se permitissem que cada olhar carregasse todo o peso da história. É nesse contraste que reside o charme: um romance que finge leveza, mas que explode num debate sobre discriminação, amores líquidos, instituições frágeis e alianças que já não se sustentam no silêncio.
Entre aquilo que se elogia com razão está justamente esse humor contemporâneo e filosófico, os diálogos refinados, a desconstrução de estereótipos visuais e emocionais, e a criação de um microcosmo que reflete dilemas universais. Por outro lado, é justo apontar as falhas: a sensação de dispersão narrativa, a lentidão que desgasta o espectador que busca uma resolução clara, e o desfecho abrupto que deixa mais perguntas do que conclusões.
Mas talvez isso seja proposital. Como uma página que foi virada sem aviso, mas deixou marcas, o filme Mais uma Página ecoa na mente pelo desconforto, fazendo refletir sobre amor e poder, tradição e liberdade, riso e crise. E isso, para um filme que opera sob o verniz de uma comédia leve, é um ato de coragem.
Mais uma Página (Catching Feelings, 2017 / África do Sul)
Direção: Kagiso Lediga
Roteiro: Kagiso Lediga
Com: Kagiso Lediga, Pearl Thusi, Andrew Buckland, Akin Omotoso
Duração: 124 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Mais uma Página
2025-10-15T08:30:00-03:00
Ari Cabral
Akin Omotoso|Andrew Buckland|cinema africano|comedia|critica|Kagiso Lediga|Pearl Thusi|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Ser mulher no Brasil não é algo fácil. Imagine no início do século XIX. Ser uma mulher artista era ainda pior. Não havia espaço para criar,...
-
Assistindo Frankenstein de Guillermo del Toro , dá para sentir de imediato que estamos diante de um cineasta apaixonado por monstros, mas m...
-
Ainda no clima Avatar vs M. Night Shyamalan, percebi que não falei de seu grande filme aqui no blog. Por isso, resolvi resgatar O Sexto Sent...
-
Armadilha , dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan , chegou ao público num momento em que o nome do cineasta era sinônimo tanto de ex...
-
O cinema nasceu documental representando um registro de uma época. É memória em imagem e som que resgata a História, registra uma época. Ma...
-
M. Night Shyamalan começou muito bem a sua carreira e foi caindo aos poucos, chegando a ser desacreditado pela crítica . Parece que a má f...
-
Ao revisitar Anaconda (1997), sinto uma mistura estranha de nostalgia, divertimento e certo constrangimento prazeroso. É o tipo de filme q...
-
Quando a câmera de Aquário se aproxima de Mia, ela não olha para nós: nos atinge. Não é um filme sobre adolescentes ficcionais idealizados...
-
Ratatouille não é apenas um filme de animação sobre um rato que sonha em cozinhar em Paris . Assistir a esse longa é confrontar uma ideia ...
-
Desde os primeiros minutos, G20 (2025) tenta se afirmar como um thriller político de ação em escala global. O filme , dirigido por Patrici...




