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O Quatrilho
O Quatrilho
Mesmo depois de tantos anos, O Quatrilho (1995) segue como um monumento modesto, mas poderoso, do cinema brasileiro. O filme é uma obra que, com elegância silenciosa, confiou na força da história, da cultura e da simplicidade expressiva para tocar quem se aproxima dela com sinceridade. Assisto hoje como quem já viu muitos filmes pretensamente épicos e que, felizmente, diante deste pode afirmar. Aqui não há exagero, mas há sentimento. Não há ostentação, mas há autenticidade.
Logo de cara, o filme já se vale de sua ambientação na serra gaúcha para estabelecer o clima, não apenas pelas paisagens, figurinos e direção de arte abertamente esmerados, mas porque aquilo que vemos é sustentado por um preciso trabalho de realismo etnográfico. A sensação é a de que a gente respira aquele ar de comunidade ítalo-brasileira em 1910, sente os tecidos puídos, ouve o sotaque carregado sem artifícios. Há aqui algo de memória viva e respeito pelas tradições, que não flerta com o folclore, mas dança com ele como alguém que compreende onde pisa.
E nesse cenário, o cerne dramático nasce: enquanto Teresa e Ângelo representam atitudes antagônicas para uma vida que se pretende estabilizadora, Massimo e Pierina vivem dentro de outras coordenadas. Ele é sofisticado e sensível; ela, prática e dura como a terra. Não é difícil prever o romance que se acende, mas não é essa previsibilidade que importa: o que captura é a forma como ele se desenvolve, sutilmente, de maneira crível, rejeitando tanto os gestos melosos quanto as grandes explosões narrativas. O que interessa é o peso da troca de olhares e o que fica nas entrelinhas.
As atuações de Patrícia Pillar e Glória Pires são honestas, ainda que revestidas de estereótipos claramente demarcados. Pilar habita a idealista, Pires, afirma outro tipo de vida. Mas ambas conquistam porque não se entregam a um sentimentalismo fácil: elas vivem suas personagens com frieza sensível e cumplicidade com o público. Em especial, é notável o modo como Pires sustenta Pierina mesmo quando fica menos em cena. Cada expressão ganha densidade, cada gesto pesa.
É verdade que o roteiro às vezes soa didático e existem momentos em que um personagem anuncia a ação antes de executá-la, o que rouba parte do impacto visual, mas isso não apaga o valor da narrativa. Talvez pareça estranho elogiar essa qualidade, mas é justamente na clareza e no ritmo descontraído que reside o charme. Não estamos diante de um filme que se recusa a ser acessível; ao contrário, ele entende sua própria linguagem popular e a usa a seu favor, sem vulgaridade.
Há, sim, recursos que poderiam ser mais sensoriais. Uma câmera mais ousada, uma fotografia menos contida. Félix Monti acerta nas composições, mas o filme parece hesitar em deixar que o plano respire sozinho, a apostar no silêncio da imagem. Ainda assim, no conjunto final, essa limitação não enfraquece a imersão. A música de Jaques Morelenbaum e a presença orgânica da voz de Caetano Veloso trazem um sopro nostálgico; aquilo não é trilha que preenche o vazio, é canto que emociona.
Talvez o que mais fique na memória seja a sensação de estar diante de um romance que respeita o contexto, que vale-se da história, das tensões culturais e do cenário para contar algo simples, mas profundo. Um romance combinando desejo e convenção, tradição e transgressão. É nesse jogo de opostos que se forma o quatrilho, o nome que dá título ao filme, e que resume toda a lógica emocional da trama.
O Quatrilho não é despretensioso, mas é discreto, concentrado, resiliente. Ele sabe que sua força está no reconhecimento daquilo que, aparentemente, é simples, mas há muito esquecido: o valor de contar historicamente, com cuidado, sem alarde. E é exatamente essa quietude sincera que o torna comovente.
O Quatrilho (1995 / Brasil)
Direção: Fábio Barreto
Roteiro: Leopoldo Serran, Antônio Calmon
Com: Glória Pires, Patrícia Pillar, Bruno Campos, Alexandre Paternost, José Lewgoy, Gianfrancesco Guarnieri, Cecil Thiré
Duração: 92 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Quatrilho
2025-10-17T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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