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Anaconda
Anaconda
Ao revisitar Anaconda (1997), sinto uma mistura estranha de nostalgia, divertimento e certo constrangimento prazeroso. É o tipo de filme que revela muito sobre o cinema de monstros dos anos 90: ambicioso, exagerado e consciente até de seus próprios excessos, ainda que nem sempre bem-sucedido. Dirigido por Luis Llosa, Anaconda parte de uma premissa simples. Uma equipe de documentaristas navega pela Amazônia em busca de uma tribo perdida, mas acaba sendo guiada por Paul Serone (Jon Voight), um homem misterioso que esconde intenções mortais. Logo, surge a serpente lendária: uma anaconda enorme, ameaçadora, pronta para devorar seus perseguidores.
Visualmente, o filme surpreende. A fotografia de Bill Butler não trata a selva apenas como cenário, mas como um personagem. É possível sentir a umidade, o peso da mata, a escuridão opressiva, e essas escolhas visuais reforçam a ideia de que a floresta não é refúgio, mas prisão. As sombras, os reflexos na água, o barulho dos galhos: tudo contribui para uma atmosfera verdadeiramente sinistra, especialmente nas sequências em que a cobra aparece de maneira tangível, com close-ups convincentes e até momentos de ponto de vista de dentro da barriga da serpente. Essas passagens, embora beirem o caricatural, têm sua força imagética.
A atuação de Jon Voight como Serone é central. Ele encarna um vilão memorável: manipulador, sedutor, com um olhar que mistura ganância e devoção à criatura. Voight não poupa exageros, chegando a pronunciar frases com uma teatralidade quase shakespeariana. De certa forma, é justamente esse excesso que torna o personagem memorável. Se fosse mais contido, provavelmente perderia carisma; ao exagerar, Voight transforma a obsessão pela cobra em algo palpável, quase hipnótico. Vale mencionar aqui a cena icônica em que ele é engolido pela cobra gigante, regurgitado e ainda pisca para Jennifer Lopez. Absurdo, sim, mas funciona como ápice do espírito do "filme B".
Jennifer Lopez, no papel de Terri Flores, é a figura do pragmatismo que ainda assim se deixa levar pelo perigo. Ela não é heroína de manual, tampouco apenas donzela em apuros: há momentos de tensão real em que se mostra decidida, mas seu arco é limitado por diálogos simplistas. Ice Cube, como Danny, traz um tom urbano e direto como a âncora moderna da tripulação, alguém que não romantiza a selva, mas acaba envolvido na loucura de Serone. Já Eric Stoltz, como o cientista Dr. Cale, funciona como a voz da razão, levantando alertas plausíveis e bizarros sobre os perigos da floresta, incluindo um momento angustiante em que fala sobre peixinhos que podem invadir seres humanos de forma terrível. O resto do elenco cumpre bem os estereótipos de filmes de monstros e está lá para morrer de forma criativa e alimentar o suspense.
Os efeitos especiais são um dos pontos mais discutidos. Há mistura de CGI com animatrônica e o resultado varia: em algumas sequências, a cobra é impressionante, com textura, brilho e presença ameaçadora; em outras, especialmente sob a luz mais dura, fica claro que estamos vendo um adereço gigante. Essa oscilação, inclusive de tamanho, pode ser vista como falha, mas eu credito a mais uma parte do charme do filme. É nesses momentos que o filme abraça seu status de "filme B de monstro", não tenta ser realista a todo custo e ainda assim entrega momentos de verdadeiro terror, especialmente quando a cobra se move de maneira fluida, captura vítimas no ar ou mostra sua boca massiva cheia de presas.
A narrativa é previsível em muitos momentos. Há, inclusive, ecos de Tubarão, com o vilão que manipula os outros para seus próprios fins e a criatura que ataca sistematicamente à noite ou na água. O filme não reinventa o gênero, mas também não finge ser um grande drama filosófico. É um espetáculo de criatura e, como tal, vive de tensão, sustos e exagero.
Um dos grandes méritos de Anaconda é que o filme se leva bem pouco a sério, mesmo quando o tom parece sombrio. Há momentos de humor — com piadas sobre a selva, insinuações sexuais, disparidades entre cultura urbana e mata profunda — que ajudam a aliviar a pressão. E isso é importante: se fosse apenas terror, poderia parecer desequilibrado. Mas, justamente por misturar aventura, gore, suspense e comédia, mesmo involuntária, o filme se torna mais divertido e memorável.
Mas nem tudo funciona. Algumas mortes são convenientes demais, a lógica de por que certos personagens sobrevivem ou morrem é caprichosa, e o ritmo, por vezes, patina. Há cenas em que a cobra simplesmente demora para aparecer, o que quebra parte da promessa inicial de uma serpente gigantesca. Além disso, a morte da personagem de Jon Voight pode ser vista como o exemplo do exagero, um gesto tão escandaloso que desvia parte da tensão em prol do espetáculo bizarro.
Em termos de legado, Anaconda teve uma recepção mista, e algumas vozes apontaram falhas no roteiro ou nos efeitos, como a famosa cachoeira que corre para cima em um erro de montagem. Por outro lado, para alguns, tornou-se um clássico cult. Essa dualidade é fascinante: um filme é mal avaliado por alguns, mas querido por muitos, exatamente por sua extravagância e "diversão trash".
Em um balanço final, vejo Anaconda como um sucesso de proposta, tanto que alcançou várias continuações. O filme não pretende ser um grande drama, mas sim um passeio tenso pela selva com uma cobra assassina. A direção de Llosa acerta ao manter o ritmo de aventura, as atuações — especialmente a de Voight — flertam com o cômico sem perder a ameaça, e os efeitos, mesmo quando frágeis, servem ao espetáculo. Os momentos mais marcantes são pulsantes justamente porque abraçam o absurdo.
Claro, se você for ver Anaconda esperando um filme de horror sério, pode se decepcionar. Mas se entrar no clima, com gargalhadas involuntárias, sustos exagerados e vontade de ver uma cobra gigante engolindo gente, o filme entrega exatamente o que promete. Para mim, é uma peça icônica do imaginário dos filmes de monstros dos anos 90, um espetáculo selvagem que consegue ser ao mesmo tempo ridículo e hipnotizante.
Anaconda (Anaconda, 1997 / Estados Unidos)
Direção: Luis Llosa
Roteiro: Hans Bauer, Jim Cash, Jack Epps Jr.
Com: Jennifer Lopez, Ice Cube, Jon Voight, Eric Stoltz, Jonathan Hyde, Owen Wilson, Kari Wuhrer, Vincent Castellanos
Duração: 89 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Anaconda
2025-12-26T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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