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O Primeiro Dia
O Primeiro Dia
Virar a chave do ano e sentir a cidade respirando ao mesmo tempo que você é a proposta simples e certeira de O Primeiro Dia. O que Walter Salles e Daniela Thomas colocam na tela é, antes de qualquer artifício dramático grandioso, uma noite onde o Rio se revela desigual e íntimo: de um lado o homem que foge, à procura de chão, do outro, a mulher que caminha sem direção pela própria solidão. Essa geometria básica de João e Maria, em rota de colisão ou de encontro, carrega consigo uma ideia clara e também sua principal limitação.
O filme existe como versão editada para cinema de Meia-Noite, produzido dentro do projeto internacional “Visto Por”, e isso deixa sinais na sua construção. Ao mesmo tempo que há liberdade para experimentar um corte curto e seco, o formato reduzido exige economia e gerar empatia num espaço de pouco mais de uma hora é desafio que o roteiro nem sempre vence. A materialidade do filme, porém, compensa em parte essa economia dramática. A escolha de filmar sequências do réveillon em Copacabana em tempo real dá uma textura documental ao filme e transforma o cenário em personagem. Em várias passagens o Rio não é apenas pano de fundo, é território: duro, indiferente e ao mesmo tempo surpreendentemente poético quando vemos Maria subir ao telhado e dividir com a cidade a pequena possibilidade de redenção que a noite oferece.
As atuações são o que o filme mais tem a seu favor. Fernanda Torres segura com medida e uma ponta de espanto o vazio da mulher que vaga. Há uma economia de gestos que torna crível a desconexão dela com o mundo conjugal. Luiz Carlos Vasconcelos traz um João que é ao mesmo tempo frágil e resistente, alguém que carrega uma bagagem de violência contida. Matheus Nachtergaele, ainda que em papel coadjuvante, empresta ao conjunto um timbre das margens, uma linguagem de rua que dá verossimilhança às cenas de favela e perseguição. A soma desses intérpretes constrói os pontos afetivos do filme, mesmo quando o roteiro aparenta caber inteiro na sinopse.
Do ponto de vista da mise en scène, nota-se o trabalho de quem conhece a cidade e sabe quando deixá-la falar. A fotografia de Walter Carvalho é um suporte decisivo para que as imagens noturnas funcionem: ela alterna planos que forçam o realismo com composições que isolam rostos como se fossem paisagens íntimas. Essa ambivalência entre documento e fábula curta é bonita e, por vezes, comovente. Não é pouco conseguir que uma sequência de poucos minutos contenha tensão e um sopro de esperança sem apelar para o sentimentalismo.
Ainda assim, o filme padece de um problema que a curta duração agrava: a apresentação desigual das motivações. Há momentos em que personagens e situações pedem um pouco mais de ar para se desenvolver, e o espectador percebe que algumas decisões dramáticas chegam sem a construção necessária. Isso não é apenas a crítica de um espectador por querer mais história; é uma constatação sobre estrutura narrativa. Quando se reduz ao essencial, o essencial precisa ser mais bem costurado. Acreditei mais nas cenas que deixavam espaço para o não dito do que nos trechos que tentaram resolver conflitos com pressa. Sobre as intenções sociais do filme, a tensão entre classe média isolada e a população periférica aparece com clareza, mas sem a complexidade que um recorte mais longo permitiria.
É legítimo reconhecer o feito prático: filmar sequências do réveillon, em locais como Copacabana, exige logística e coragem. As filmagens foram curtas e intensas, e essa pressa de produção transparece em acertos e em sobras. Em cenas bem resolvidas sentimos a cidade crua, e em outras percebemos o risco de que a pressa de montagem leve à sensação de que o roteiro foi comprimido demais. Ainda assim, quando o filme acerta o tom, e acerta principalmente nas imagens noturnas, no uso do som ambiente e na economia de diálogo em momentos decisivos, ele atinge um efeito que funciona: um retrato melancólico da virada, onde a esperança é modesta, às vezes até frágil, mas possível.
Em resumo, O Primeiro Dia é um filme que vale pela intensidade contida e pelas ótimas interpretações, mas que fica aquém do que sua ambição poderia permitir. É uma obra feita dentro do projeto maior de uma série internacional sobre o fim de milênio e traz as marcas disso: independência de linguagem, limites de duração e uma preocupação estética coerente com um cinema urbano de câmera observadora. Quem se aproximar sem esperar uma narrativa extensa encontrará ali sequências de grande força imagética e atuações que resistem ao esquecimento. Quem desejar uma trama mais densa e respostas mais claras pode sentir frustração. A honestidade do filme está justamente em expor essa interrogação: é um filme que formula questões sobre cidade, solidão e esperança e, em certos momentos, escolhe não reduzir essas perguntas a respostas fáceis.
O Primeiro Dia (1998 / Brasil, França)
Direção: Walter Salles, Daniela Thomas
Roteiro: João Emanuel Carneiro, José Carvalho, Walter Salles, Daniela Thomas
Com: Fernanda Torres, Luiz Carlos Vasconcelos, Matheus Nachtergaele, Nelson Sargento, Tonico Pereira, Carlos Vereza
Duração: 75 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Primeiro Dia
2025-12-31T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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