A Vizinha Perfeita
Logo nos primeiros minutos de A Vizinha Perfeita eu tive a sensação de estar preso não a um clássico de true crime qualquer, mas diante de uma obra que explora a tensão entre vigilância, narrativa e verdade documental de forma inédita. A diretora Geeta Gandbhir já tinha mostrado em trabalhos anteriores uma sensibilidade para temas de justiça e desigualdade, mas aqui ela eleva essa inclinação a uma reflexão dolorosamente íntima sobre como pequenas fricções cotidianas podem ser amplificadas por estruturas legais e sociais que não protegem igualmente todos os indivíduos.
O centro da história é um caso real ocorrido na Flórida: uma vizinha idosa, Susan Lorincz, entra em conflito repetido com crianças e famílias que brincam perto de sua propriedade. A câmera, quase sempre oriunda de dispositivos policiais, se torna nossa guia e única testemunha. Não há narração que dite o que pensar, não há reconstituições dramáticas. Essa escolha formal de Gandbhir é a arma mais poderosa da obra, nos colocando dentro dos eventos, diante do desconforto, da repetição e da inevitável escalada para um desfecho trágico.
A experiência de assistir ao filme é perturbadora porque nos força a lidar com o documentário como um espelho. Quando as cenas de câmera corporal mostram crianças correndo e pais tentando acalmar situações, somos tentados a julgar com base em nossa própria bagagem de espectador. Mas, justamente quando a tensão começa a se tornar insuportável, vemos a falha das instituições. Várias chamadas para a polícia não resultam em uma intervenção eficaz, expondo de maneira quase clínica como sistemas que deveriam garantir segurança podem ser ineficientes ou neutros até a violência explodir.
A montagem de Viridiana Lieberman merece destaque. A maneira como ela transita entre registros oficiais, silêncio e ruídos do cotidiano cria um ritmo que não é dramático, mas insistente. É uma forma de editar que não manipula emocionalmente — ou melhor, manipula pelo próprio peso do real — fazendo com que o espectador se sinta cansado, confuso e, eventualmente, impotente ante o desfecho. É essa exatidão editorial que justifica as premiações que o filme já recebeu, especialmente em categorias como melhor direção e melhor edição de documentário.
O documentário também se insere em debates maiores sobre a lei “Stand Your Ground”, criticando sua aplicação e exposição a preconceitos que vão muito além do caso particular que vemos na tela. Não é exagero dizer que A Vizinha Perfeita usa um caso específico para falar de questões sistêmicas: desigualdade racial, acesso a armas e a falha constante de instituições para proteger vulneráveis. A obra não oferece respostas fáceis, mas provoca perguntas incômodas sobre quem realmente está sendo protegido quando leis como essa são invocadas.
Esse enfoque mais amplo pode ser ao mesmo tempo uma força e uma fraqueza. Para alguns, especialmente espectadores que buscam uma narrativa mais tradicional e embasada em entrevistas diretas, a ausência de uma voz narrativa clara pode parecer um vazio ou um artifício frio. Mas essa frieza é deliberada. Gandbhir não quer que você simplesmente sinta, ela quer que você pense sobre as implicações de observar sem intervir, de permanecer espectador enquanto um sistema falha repetidas vezes.
Há momentos no filme em que a inteligência do projeto formal, clínica, antropológica, se choca com a brutalidade dos fatos. Uma cena que resume isso é o uso contínuo de gravações de chamadas e interações policiais que parecem banhadas em rotina até que, de repente, o horror se materializa quase sem aviso. Essa transição é um golpe de maestria que revela como o documentário trabalha não com a arte do choque fácil, mas com a tensão acumulada de dias, semanas e meses de escalada.
No balanço entre pontos positivos e negativos, A Vizinha Perfeita brilha por sua ousadia formal e por insistir na própria complexidade do real. Ao mesmo tempo, pode frustrar quem espera uma construção mais narrativa ou um posicionamento editorial claro. Mas talvez esse desconforto seja exatamente o ponto. A diretora não nos oferece conclusões prontas porque o tema em si, sobre violência, lei, vigilância e preconceito, não tem soluções simples. O que sobra é a urgência de refletir, longamente, sobre o que vimos e sobre o que nossos próprios julgamentos revelam de nós mesmos.
A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor, 2025 / Estados Unidos)
Direção: Geeta Gandbhir
Roteiro: Geeta Gandbhir
Com: Susan Lorincz, Ajike Owens
Duração: 96 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
A Vizinha Perfeita
2026-02-12T08:30:00-03:00
Ari Cabral
critica|documentario|Geeta Gandbhir|oscar 2026|
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