Home
Adam Sandler
comedia
critica
Drew Barrymore
Peter Segal
Rob Schneider
romance
Sean Astin
Como Se Fosse a Primeira Vez
Como Se Fosse a Primeira Vez
Como Se Fosse a Primeira Vez é um desses filmes que, à primeira vista, parece um brinquedo leve de Hollywood, uma comédia romântica com uma premissa que poderia, nas mãos erradas, deslizar facilmente para o sentimentalismo vazio. Mas o que torna essa obra de 2004 peculiar é a forma como mistura humor físico e uma certa fragilidade emocional, sobretudo graças à condição fictícia de Lucy, uma mulher cuja memória recente é apagada toda noite. Essa ideia não é totalmente original, e nos faz lembrar de Feitiço do Tempo ou outras narrativas que trabalham com repetição, mas é justamente essa repetição que estrutura tudo o que o cinema romântico tradicional não costuma ousar: aqui, o amor não é um arco heroico de conquista só uma vez, é um ciclo persistente de recomeço.
Peter Segal, diretor mais conhecido por comédias amplas, acerta ao não tratar o tema com condescendência. A narrativa não pretende ser um tratado científico sobre amnésia, mas explora as implicações emocionais dessa condição através dos gestos e da persistência de Henry (Adam Sandler). A câmera não inventa truques visuais sofisticados, prefere se manter respeitosa com seus personagens, o que alivia o peso das piadas mais grosseiras que, em alguns momentos, atropelam o tom do filme. Esse desequilíbrio entre humor físico e coração é talvez o ponto mais marcante da obra: há momentos em que a comédia parece deslocada, como uma sequência com um animal marinho logo no início, e outros em que o coração do filme se mostra de forma surpreendentemente sincera.
A dupla central, Sandler e Drew Barrymore, tem uma química palpável que, por si só, sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro tropeça. Barrymore transforma Lucy em algo mais do que um conceito: sua performance transmite vulnerabilidade sem cair no exagero melodramático, e ao mesmo tempo faz com que cada amanhecer seja sentido pelo público, não apenas pela personagem. Sandler, por sua vez, está num modo surpreendentemente ternurento, longe do exagero burlesco de muitos de seus outros papéis, e constrói um Henry que não é apenas o conquistador eterno, mas alguém disposto a aprender a amar todos os dias, em cada pequeno gesto repetido.
A direção de Segal não pretende reinventar a roda cinematográfica. Visualmente, o filme se apoia na beleza do cenário havaiano para reforçar a sensação de recomeço constante. Em outras mãos, isso poderia parecer pirotécnico, mas aqui funciona como um contraponto à tristeza potencial do tema central.
Há momentos realmente memoráveis, como quando Henry monta um vídeo diário para Lucy, um método engenhoso dentro da lógica do filme para criar continuidade emocional apesar da perda de memória, e essa ideia simboliza o núcleo do que o longa quer dizer: amar de novo, aprender de novo, lembrar de novo. Quando esse arcabouço funciona, a sensação que fica é mais profunda do que se esperaria de uma comédia romântica tradicional. Mas essa profundidade não é constante. Há sequências em que a piada fácil, personagens secundários caricatos e escolhas narrativas previsíveis interrompem a conexão emocional que o espectador poderia construir.
E resumo, Como Se Fosse a Primeira Vez é um filme que é tanto leve quanto resolutamente humano na sua proposta de recomeço. Não se trata de um clássico imortal, nem de um exemplar perfeito do gênero, mas há nele um gesto narrativo corajoso: mostrar que amor não é um momento único no tempo, e sim um compromisso repetido, que pode ser doce, confuso, engraçado e doloroso, tudo ao mesmo tempo.
Como Se Fosse a Primeira Vez (50 First Dates, 2004 / EUA)
Direção: Peter Segal
Roteiro: George Wing
Com: Adam Sandler, Drew Barrymore, Sean Astin, Rob Schneider
Duração: 99 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Como Se Fosse a Primeira Vez
2026-02-02T08:30:00-03:00
Ari Cabral
Adam Sandler|comedia|critica|Drew Barrymore|Peter Segal|Rob Schneider|romance|Sean Astin|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistir 1984 , a adaptação cinematográfica dirigida por Michael Radford em 1984 , é sentir no corpo o peso de uma realização que vai muito...
-
Ratatouille não é apenas um filme de animação sobre um rato que sonha em cozinhar em Paris . Assistir a esse longa é confrontar uma ideia ...
-
Dezesseis indicações ao Oscar 2026 . Um recorde histórico, superando obras como Titanic (1999), A Malvada (1950) e La La Land (2016), todas ...
-
Quando penso em Tubarão hoje, não consigo dissociar duas sensações: a do medo primitivo que senti na primeira vez que ouvi aquela batida du...
-
Quando a câmera de Aquário se aproxima de Mia, ela não olha para nós: nos atinge. Não é um filme sobre adolescentes ficcionais idealizados...
-
Ainda no clima Avatar vs M. Night Shyamalan, percebi que não falei de seu grande filme aqui no blog. Por isso, resolvi resgatar O Sexto Sent...
-
M. Night Shyamalan começou muito bem a sua carreira e foi caindo aos poucos, chegando a ser desacreditado pela crítica . Parece que a má f...
-
Armadilha , dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan , chegou ao público num momento em que o nome do cineasta era sinônimo tanto de ex...
-
Assistindo Frankenstein de Guillermo del Toro , dá para sentir de imediato que estamos diante de um cineasta apaixonado por monstros, mas m...
-
Quando assisti Minority Report – A Nova Lei pela primeira vez, fui imediatamente capturado não apenas pela promessa de ação em alta densida...





