Home
acao
Ben Johnson
classicos
critica
drama
Edmond O’Brien
Ernest Borgnine
faroeste
Robert Ryan
Sam Peckinpah
Warren Oates
William Holden
Meu Ódio Será Sua Herança
Meu Ódio Será Sua Herança
Quando a gente volta os olhos para Meu Ódio Será Sua Herança hoje, o impacto do filme supera o faroeste tradicional e entra numa zona onde a violência é tão protagonista quanto os próprios personagens. Sam Peckinpah não estava interessado em reproduzir os mitos clássicos de mocinhos e bandidos, ele estava interessado em desconstruí-los. O filme, lançado em 1969, chega num momento em que o gênero já tinha sido saturado por décadas de representações romantizadas do Velho Oeste. O que Peckinpah entrega é uma visão visceral, cínica e profundamente humana de um mundo que está morrendo.
Não é coincidência que a primeira sequência, com escorpiões sendo devorados por formigas, se conecte simbolicamente com o final. Essa imagem, estranha e perturbadora, anuncia o tipo de cinema que virá: um lugar onde a violência não é apenas ação, mas metáfora. Nesta obra, a morte dói, lateja, não é apenas um corte rápido de edição. A câmera lenta usada nas mortes, inovadora para a época, não flerta com o espetáculo vazio, ela nos força a sentir o peso da violência, a encarar o quão brutal é a natureza dos homens ali retratada.
O elenco principal está à altura dessa proposta. William Holden, como Pike Bishop, compõe um fora-da-lei cansado, melancólico, alguém que carrega nos olhos a consciência de um tempo que acabou. A performance dele é mais do que presença física: é o retrato de um homem que já viu demais, que tenta se apegar a códigos de honra que já não existem mais. Ernest Borgnine, como Dutch Engstrom, equilibra lealdade feroz e uma energia quase selvagem, trazendo à tona a complexidade de um personagem que ama seus companheiros, mas sabe que sua trajetória tem um fim trágico. Robert Ryan, como Deke Thornton, introduz a noção de vingança e dever numa narrativa já carregada de ambiguidade moral, transformando o antagonismo numa espécie de legado emocional entre ele e Pike.
Enquanto a maioria dos westerns clássicos se preocupa em embalar a violência num pacote estilizado de justiça e redenção, Meu Ódio Será Sua Herança nos empurra para o centro da brutalidade sem pedir desculpas. A sequência final, um tiroteio que beira o apocalíptico, permanece gravada na memória como um lugar onde a estética e o caos se encontram. Não é apenas ação, é quase uma elegia: homens que representam uma era inteira caindo sob a própria condição.
Alguns aspectos do filme podem parecer hoje arrastados ou até estranhos. Há momentos em que o ritmo dá espaço a cenas que parecem deslocadas da narrativa principal, mas isso também faz parte da proposta de Peckinpah de romper com a narrativa linear tradicional. Ele troca ritmo por uma espécie de tempo vivenciado, um tempo que é melancolia, peso do passado e antecipação de desastre. Essa escolha estética contribui para a sensação de que estamos diante de um épico menos preocupado com glamour e mais com realidade.
No coração de Meu Ódio Será Sua Herança está a ideia de que o velho Oeste não morreu por falta de vilões, mas porque o próprio mundo moderno o ultrapassou. As metralhadoras começam a substituir os revólveres, as estradas de ferro pavimentam a chegada de um novo tempo e os personagens sabem que, por mais que tentem, não existe espaço para os códigos que os definiram. É por isso que a obra é tão poderosa: ela capta o fim de uma era com honestidade crua, sem disfarces românticos.
Assim, o filme não é apenas um faroeste violento, ele é uma meditação sobre fim, memória e identidade. Um daqueles raros filmes que reverberam muito depois da última cena, porque não oferecem respostas fáceis, e sim verdades incômodas sobre nós mesmos, nossas violências, falhas e brechas de sentido. Este não é um filme que apenas mostra o Velho Oeste; ele nos faz sentir o fim dele.
Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969 / EUA)
Direção: Sam Peckinpah
Roteiro: Walon Green, Sam Peckinpah
Com: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brien, Ben Johnson, Warren Oates
Duração: 145 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Meu Ódio Será Sua Herança
2026-02-06T08:30:00-03:00
Ari Cabral
acao|Ben Johnson|classicos|critica|drama|Edmond O’Brien|Ernest Borgnine|faroeste|Robert Ryan|Sam Peckinpah|Warren Oates|William Holden|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistir a Mar de Fogo (2004) é como revisitar uma expedição. Não tanto no sentido épico-clássico de sobrevivência, mas numa jornada de exp...
-
Uma Babá Quase Perfeita é o tipo de comédia que nasce de uma ideia prodigiosamente simples e perigosa: um pai divorciado se veste de babá ...
-
Eu preciso confessar: revisitar Querida, Encolhi as Crianças é como entrar numa máquina do tempo. Não só pela estética encantadora dos anos...
-
Assistindo Coração de Lutador , o que mais me marcou foi perceber que este não é simplesmente mais um filme de superação esportiva. A obra...
-
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A ...
-
Se Enlouquecer, Não se Apaixone (2010), dirigido por Ryan Fleck e Anna Boden , chegou aos cinemas prometendo tratar de saúde mental com l...
-
Assistir A Escolhida (2020) é como caminhar sobre uma ponte tensa que separa passado e presente, dor e espetáculo, intenção e execução ambí...
-
Poucos filmes conseguiram me incomodar tanto — e isso, acredite, é um elogio — quanto Instinto Materno (Pozitia Copilului, 2013), dirigido...
-
Revisitar Os Bandidos do Tempo , de Terry Gilliam , é como redescobrir um mapa antigo de aventuras que mistura humor, história e uma imagina...
-
Branca de Neve (2025) surgiu como mais uma tentativa da Disney de traduzir seu legado animado para o cinema em carne e osso e música, mas...





