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O Ato de Matar
O Ato de Matar
Assistir a O Ato de Matar é confrontar uma das manifestações mais raras e inquietantes do cinema documental moderno. Não é simplesmente um relato histórico sobre a purga anticomunista na Indonésia dos anos 1960, onde cerca de meio milhão de pessoas foram assassinadas. O que Joshua Oppenheimer propõe, ao lado de Christine Cynn e de um colaborador indonésio anônimo, é uma experiência cinematográfica que escava não só os eventos, mas o terreno psicológico e ético de quem cometeu esses crimes e ainda hoje vive sob aplausos em seu país.
O que o torna tão perturbador não é a reconstituição cronológica dos fatos, mas a escolha provocadora de dar espaço aos próprios assassinos para reencenarem suas atrocidades em frente às câmeras. Anwar Congo, figura central, e seus comparsas celebram com naturalidade monstruosa a sua participação nos esquadrões da morte enviados a “limpar” supostos comunistas, incorporando elementos de filmes de gangsteres, faroeste e até musicais. Isso transforma a obra num espelho distorcido: não apenas vemos os acontecimentos, mas vemos como eles foram absorvidos, imaginados e reinventados por aqueles que os praticaram.
Cinematograficamente, Oppenheimer explora essa dicotomia entre realidade e encenação de forma inventiva. As reencenações feitas pelos próprios assassinos parecem inicialmente grotescas e quase teatrais, cheias de improvisos. Essa estética deliberada cria um estranhamento onde a banalidade da crueldade se revela através de cenários que lembram filmes populares. O público é forçado a aceitar que aquilo que parece artificial é, paradoxalmente, mais perturbador do que qualquer imagem explícita de violência poderia ser.
Não há performances no sentido tradicional, mas o que mais intriga é a “atuação” de Anwar Congo ao revisitar seus próprios métodos de matar. Ele explica com uma frieza quase casual como estrangulava suas vítimas, como se ensinasse um truque. Isso cria um efeito que muitas vezes evita o choque fácil e gráfico, preferindo uma sensação mais profunda de incredulidade e desconforto moral. A direção de Oppenheimer não busca comover por sangue derramado, mas por meio do confronto direto com a normalização do horror.
Uma das cenas mais marcantes exemplifica isso: quando os homens, inicialmente orgulhosos e jocosos, começam a encarar suas próprias recriações com uma mistura de desconforto e dúvida. Não se trata de um arrependimento tradicional, mas de uma fissura na postura arrogante que eles exibiam. Nessa transformação sutil, dramática e dolorosa é onde o filme encontra sua força mais memorável. A câmera não julga, mas revela.
Ao mesmo tempo, ao abdicar de uma contextualização histórica mais robusta, inclusive com vozes de sobreviventes ou especialistas, o filme pode parecer, em alguns momentos, desorganizado ou aberto demais, deixando ao espectador a tarefa de ligar as peças por si mesmo. Essa escolha estilística, por mais ousada que seja, fragiliza a narrativa se comparada a documentários mais explicativos. O filme é um convite à reflexão, mas também uma experiência exigente e, para alguns, cansativa.
O impacto de O Ato de Matar vai além da tela. Ele recoloca em debate como lembramos e representamos episódios traumáticos da história, como sociedades silenciam vozes inconvenientes e como a impunidade pode ser incorporada como orgulho nacional. A obra abre fissuras no entendimento tradicional de documentário, misturando elementos de performance, memória e crítica social numa mistura perturbadora justamente por sua honestidade incômoda.
O documentário não é um convite confortável; é um espelho que nos força a reconhecer que a face humana do mal nem sempre está em quem admite culpa, mas também em quem a nega com naturalidade. E é ali, nesse encontro desconfortável com a complexidade moral, que o filme atinge seu ápice.
O Ato de Matar (The Act of Killing, 2012 / Dinamarca, Reino Unido, Noruega)
Direção: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn
Roteiro: Joshua Oppenheimer
Com: Anwar Congo, Herman Koto, Syamsul Arifin
Duração: 115 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Ato de Matar
2026-02-25T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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