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Gabriela Dias
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Luis Pinheiro
Maíra Azevedo
Neusa Borges
Pedro Ottoni
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Vale Night
Vale Night
Depois de assistir Vale Night, o que primeiro ficou marcado não foi exatamente o riso que o filme prometia, mas uma sensação de desconforto que persiste nos minutos seguintes. É como se a comédia e o drama ali conversassem de forma tão intrincada que fosse impossível separar uma da outra com nitidez. Essa comédia nacional dirigida por Luís Pinheiro pretende usar o riso como lente para olhar questões sociais profundas, mas acaba muitas vezes refletindo uma tensão inevitável: a de que o humor em si talvez não baste para absorver a gravidade dos temas que o roteiro abraça.
No centro da narrativa estão Vini (Pedro Ottoni) e Daiana (Gabriela Dias), um casal de adolescentes da periferia de São Paulo que, diante da paternidade precoce, encara não só o peso da responsabilidade sobre seus ombros, mas também as expectativas que a sociedade projeta sobre corpos jovens que se tornam pais antes do tempo. A ideia é potente e é aqui que o filme acerta ao colocar o espectador diante de um espelho desconfortável: Vini, tão despreparado quanto simpático, parece mais um reflexo de uma juventude perdida entre festas, baile funk e vida cotidiana do que um herói clássico de comédia.
Pedro Ottoni imprime ao personagem uma leveza quase ingênua, como se cada gesto inconsequente fosse um sinônimo de imaturidade crua, e essa performance muitas vezes genuína ajuda a sustentar as cenas em que o riso deveria surgir. Gabriela Dias, por sua vez, traz à Daiana uma presença que equilibra drama e humor de forma rara, porque sua personagem é forçada pelo roteiro a transitar entre a exaustão de uma mãe jovem e a vontade legítima de viver sua juventude. Este contraste deveria ser o coração da comédia, mas muitas vezes a estrutura narrativa falha em aprofundar o impacto emocional dessa dicotomia, deixando a sensação de que o potencial dramático fica apenas sugerido.
A força do filme está no seu cenário. A favela se apresenta como ambiente vivo, pulsante, mais rico em cultura e humanidade do que tantas outras representações cinematográficas que se limitam a reduzi-la a crime e miséria. Essa escolha não é apenas estética; é política, e Pinheiro a abraça com planos que celebram a comunidade como um organismo coletivo onde todos têm um papel, onde a perda de um bebê não é apenas um evento isolado, mas uma ameaça ao senso de cuidado mútuo.
E ainda assim, o que deveria ser uma comédia leve sobre as trapalhadas de um pai distraído muitas vezes soa como uma comédia angustiante sobre irresponsabilidade dos pais e abandono de um incapaz. Para mim, uma crítica social importante, mas que faz do filme uma experiência tensa e desconfortável demais para se encaixar no rótulo tradicional de comédia. Esse conflito interno na proposta do filme pode ser um triunfo para quem aprecia cinema que desafia expectativas, mas também é uma armadilha narrativa que compromete sua coerência tonal.
Há momentos memoráveis que, de certo modo, condensam tudo o que o filme tenta expressar: o caos, a coletividade, o humor involuntário e a seriedade de um erro que não deveria ser motivo de riso. São cenas construídas com energia, quase documental na forma como a câmera abraça os becos, as conversas e os olhares da vizinhança.
Mas se o filme se apoia nessas boas intenções, ele tropeça no desenvolvimento, repetindo clichês de comédia e deixando de aprofundar a discussão que começa a desenhar sobre gravidez na adolescência, sobre a responsabilidade parental e sobre as estruturas sociais que cercam jovens de periferia. Mesmo com personagens carismáticos como Pulga (Linn da Quebrada) e Linguinha (Yuri Marçal), que oferecem momentos de brilho e autenticidade, a narrativa geral oscila entre o leve e o vazio.
No fim das contas, Vale Night é um filme com boas intenções e momentos sinceros, mas que se perde em sua própria definição de gênero. Ele levanta questões sociais relevantes, mas sem a profundidade necessária para que essas questões ecoem plenamente depois da obra. A produção tenta navegar entre o riso e a reflexão, e nisso revela mais sobre as contradições da própria sociedade do que sobre a arte cinematográfica efetiva. Para mim, fica claro que o filme é tenso e desconfortável demais para ser apenas uma comédia, e talvez nunca devesse ter sido vendido assim. O alerta que Vale Night lança sobre os males da gravidez na adolescência e a irresponsabilidade paterna é válido, mas a forma como isso é embalado nem sempre se converte bem.
Vale Night (Vale Night, 2022 / Brasil)
Direção: Luis Pinheiro
Roteiro: Ian Deitchman, Caco Galhardo, Renata Martins, Carla Meirelles, Kristin Rusk Robinson
Com: Pedro Ottoni, Gabriela Dias, Linn da Quebrada, Yuri Marçal, Maíra Azevedo, Neusa Borges
Duração: 93 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Vale Night
2026-05-15T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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