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Todos os Homens do Presidente
Todos os Homens do Presidente
Todos os Homens do Presidente parece, à primeira vista, discreto demais para o tamanho da história que conta. Não há explosões dramáticas, não há grandes discursos inflamados, não há sequer uma catarse tradicional. E ainda assim, poucas obras conseguem transmitir com tanta precisão a sensação de estar diante de algo gigantesco se revelando aos poucos.
Dirigido por Alan J. Pakula, o filme se insere naquilo que ficou conhecido como o ciclo de paranoia política dos anos 1970, mas talvez seja o exemplar mais contido desse movimento. Ao contrário de outros títulos mais estilizados, Pakula aposta em uma encenação quase invisível. A câmera observa mais do que interfere. E essa escolha estética não é por acaso. Ela está profundamente conectada à ideia central do filme: o poder não está nos eventos espetaculares, mas nos detalhes aparentemente banais.
O roteiro de William Goldman é construído como um quebra-cabeça onde cada peça é um telefonema, uma anotação, uma porta que se fecha na cara dos protagonistas. Existe algo fascinante na decisão de focar no processo, não no escândalo em si. O filme não quer recontar Watergate, ele quer mostrar como se chega à verdade. E isso transforma uma narrativa que poderia ser apenas histórica em uma experiência quase sensorial de investigação.
As atuações de Robert Redford e Dustin Hoffman são fundamentais para sustentar esse realismo. Redford constrói um Woodward metódico, quase obsessivo, alguém que parece medir cada palavra antes de falar. Hoffman, por outro lado, imprime em Bernstein uma energia caótica, impulsiva, que às vezes beira a imprudência. O contraste entre os dois não é apenas dramático, é funcional. É como se o filme precisasse dessas duas forças para avançar. Um organiza, o outro provoca.
Há uma cena em particular que sintetiza tudo isso. Quando os dois percorrem listas telefônicas intermináveis, ligando para desconhecidos em busca de uma conexão mínima, o filme encontra seu verdadeiro motor dramático. Não é um momento grandioso no sentido tradicional, mas é ali que se entende o que está em jogo. A repetição exaustiva, o cansaço, a dúvida. A investigação não é glamourosa. É trabalho braçal.
A direção de Pakula reforça essa ideia com uma mise-en-scène que privilegia espaços amplos e opressivos, especialmente a redação do Washington Post reconstruída em estúdio. Os personagens frequentemente aparecem pequenos dentro do quadro, engolidos pelo ambiente. É uma escolha visual que traduz perfeitamente o peso daquilo que estão enfrentando. Não são heróis clássicos. São profissionais tentando dar conta de algo maior do que eles.
O filme também evita uma armadilha comum em narrativas baseadas em fatos reais: a tentação de mistificar seus protagonistas. Aqui, Woodward e Bernstein não são apresentados como salvadores, mas como jornalistas fazendo seu trabalho, com erros, hesitações e até certa dose de ambição pessoal. Isso torna tudo mais crível, mas também mais complexo.
Ainda assim, nem tudo funciona com a mesma força e o ritmo pode parecer arrastado. Há momentos em que a repetição do método investigativo, essencial para a proposta do filme, pode soar excessiva. E o final, deliberadamente anticlimático, pode causar estranhamento. Em vez de encenar a queda de Nixon, o filme opta por encerrar com a continuidade do trabalho jornalístico. É uma escolha coerente, mas emocionalmente menos satisfatória.
Mas talvez seja justamente essa recusa em oferecer um fechamento tradicional que torna o filme tão poderoso. Ao evitar o espetáculo, Todos os Homens do Presidente reforça sua tese principal: a história não termina com uma revelação, ela continua sendo escrita todos os dias.
Décadas depois, o filme permanece assustadoramente atual. Em um momento em que a credibilidade da imprensa é constantemente questionada, revisitá-lo é lembrar que o jornalismo, no seu melhor, não é sobre opinião, mas sobre persistência. Sobre fazer a pergunta certa, mais de uma vez, até que alguém finalmente resolva responder. Um filme obrigatório.
Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, 1976 / Estados Unidos)
Direção: Alan J. Pakula
Roteiro: William Goldman
Com: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Hal Holbrook, Jack Warden
Duração: 138 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Todos os Homens do Presidente
2026-06-22T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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