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Kraven, o Caçador

Kraven, o Caçador - filme

Kraven, o Caçador
chegou com uma promessa que, no papel, parecia interessante. Um estudo de personagem sobre um dos vilões mais instintivos do universo do Homem-Aranha, dirigido por J.C. Chandor, um cineasta que já demonstrou habilidade em dramas densos como O Ano Mais Violento. O problema é que, na transição para o cinema de franquia, algo se perdeu, e o que se perdeu é justamente o que sustenta um filme: intenção. Além do mais, tem algo nessas adaptações da Sony que são grandes desafios: como um vilão dos quadrinhos pode ser tratado como herói nos filmes. Em Venom, essa transição de motivações funciona, aqui, não.

O longa tenta construir uma origem trágica para Sergei Kravinoff, centrada na relação abusiva com o pai, interpretado por Russell Crowe. Essa dinâmica deveria ser o coração emocional da história, mas nunca ganha a complexidade necessária. Em vez de tensão dramática, o que vemos são cenas expositivas longas, carregadas de diálogos artificiais, como se o filme estivesse constantemente explicando suas próprias ideias ao espectador. Isso enfraquece qualquer tentativa de profundidade.

Kraven, o Caçador - filme
Aaron Taylor-Johnson
até entrega fisicalidade ao personagem. Ele entende o corpo de Kraven, a postura predatória, o olhar sempre em alerta. Mas a atuação não se sustenta só com presença física. Falta a ele um arco emocional convincente, algo que o roteiro simplesmente não oferece. O resultado é um protagonista que parece mais um conceito do que um personagem.

Russell Crowe, por outro lado, parece operar em outro filme. Sua interpretação, com um sotaque russo exagerado, beira o caricatural. Há momentos em que isso poderia funcionar, se o filme abraçasse o exagero com consciência, mas aqui soa deslocado. É um daqueles casos em que o ator tenta preencher o vazio do material com energia, mas acaba evidenciando ainda mais o problema.

Kraven, o Caçador - filme
A direção de Chandor talvez seja o aspecto mais intrigante. Não porque seja particularmente inspirada, mas porque revela um cineasta desalinhado com o projeto. Há resquícios de um olhar mais sério, especialmente nas primeiras sequências, mas o filme rapidamente se rende a uma estética genérica de ação. As cenas de violência, mais gráficas do que o padrão do gênero, parecem uma tentativa de diferenciar o produto, mas acabam soando superficiais. É violência sem consequência dramática.

Um momento que sintetiza bem o filme acontece durante uma sequência envolvendo o personagem Rhino. O que deveria ser uma escalada de ameaça se transforma em algo quase involuntariamente cômico, tanto pela execução quanto pela lógica interna da cena. É nesse tipo de passagem que o filme revela sua maior fragilidade: a incapacidade de sustentar o próprio tom.

Talvez o maior problema de Kraven, o Caçador seja sua falta de identidade. Ele não é suficientemente ousado para romper com o modelo de filmes de super-herói, mas também não é competente o bastante para funcionar dentro dele. Fica preso em um limbo, tentando ser ao mesmo tempo um estudo de personagem e um blockbuster de ação, sem conseguir ser plenamente nenhum dos dois.

No contexto da filmografia de Chandor, o filme parece um desvio estranho. E dentro do universo de adaptações da Marvel fora do MCU, ele reforça uma sensação crescente de esgotamento. Não é apenas um filme ruim. É um filme que parece não saber por que existe.

No fim, o que resta é uma experiência curiosamente vazia. Não chega a ser desastrosa o suficiente para se tornar memorável, nem competente o bastante para justificar sua existência. Apenas passa, como mais um capítulo esquecível de uma franquia que nunca encontrou sua razão de ser. Pelo menos, é melhor do que Morbius.


Kraven, o Caçador (Kraven the Hunter, 2024 / Estados Unidos)
Direção: J.C. Chandor
Roteiro: Richard Wenk, Art Marcum, Matt Holloway
Com: Aaron Taylor-Johnson, Russell Crowe, Ariana DeBose, Christopher Abbott, Alessandro Nivola, Fred Hechinger
Duração: 127 min.

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