segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Anselmo Duarte, uma última homenagem
Como todos já devem saber, faleceu, nesse fim de semana, Anselmo Duarte. Nascido na cidade de Salto, interior de São Paulo, em 21 de abril de 1920, começou ainda criança molhando telas de cinema mudo. Foi galã de diversos filmes da Vera Cruz e da Atlântida, como Tico-Tico no Fubá, onde fez par romântico com Tônia Carrero, e Aviso aos Navegantes. Trabalhou como roteirista em diversos longas e digiriu alguns de certo destaque como "Vereda de Salvação" (1964) que concorreu ao Urso de Ouro em Berlim, além de longas como "Absolutamente Certo" (1957), "Um Certo Capitão Rodrigo" (1971) e "O Crime do Zé Bigorna" (1977).
Seu maior feito, no entanto, foi mesmo a conquista da Palma de Ouro em Cannes (1962) com O Pagador de Promessas. O filme concorria com ícones do cinema, como O Anjo Exterminador de Luis Buñuel, O Eclipse de Michelangelo Antonioni, Le Proces de Jeanne DArc, além de Electra de Michael Cacoyannis, seu mais forte concorrente segundo anúncios da época.
Ao contrário do que deveria, no entanto, a conquista parece ter mexido com os brios dos cineastas brasileiros que preferiram desdenhar a comemorar o feito. O estilo clássico do paulista, com sua forma narrativa direta, era criticada pelos jovens em busca de inovações. Sua situação piorou quando não quis aderir ao movimento do Cinema Novo. A inveja e a cobiça quase acabaram com a carreira desse grande homem, mas ele continou firme naquilo que acreditava, fazendo os filmes que ele queria fazer.
O Pagador de Promessas, baseado na peça de Dias Gomes, conta a história de Zé do Burro e sua saga para pagar a promessa que fez a Santa Bárbara pela vida de seu burro de estimação. Com cunho altamente político, em prol dos menos favorecidos, mostrando a intolerância da igreja e a esperteza da imprensa que se aproveita do fato, o filme fez sucesso e continua atual. Não tem uma linguagem inovadora, nem as alegorias tão comuns em filmes de Gláuber Rocha, por exemplo, mas nem por isso é um filme menor. No elenco nomes como Leonardo Villar, Glória Menezes, Othon Bastos e Geraldo Del Rey ajudam a contar a comovente história. Talvez a honestidade com que o cineasta fez o filme, querendo passar a sua mensagem o tenha tornado universal. Zé do Burro é uma espécie de novo Cristo e Anselmo Duarte parece ter sido crucificado junto com ele. Uma pena, porque talento ele mostrou ter de sobra. O Pagador de Promessas é um clássico, um marco que merece ser lembrado e relembrado sempre. Esta é a melhor homenagem que podemos fazer a esse grande cineasta.
























8 opiniões:
Esta homenagem é exatamente o que eu queria fazer para ele, Amanda. Infelizmente, a correria para cobrir o FIC Brasília está tão grande que não conseguirei fazê-la.
9 de Novembro de 2009 09:08Anselmo foi um grande cineasta e ator. O Pagador de Promessas é um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos e Absolutamente Certo um dos mais engraçados.
Parabéns pela homenagem (coisa que a mídia pouco tem feito). Vou, pelo menos, linkar-te no twitter.
Beijo!
Pois é, ainda não vi O Pagador de Promessas, mas eis um motivo muito bom, haha.
9 de Novembro de 2009 09:25Gostei do seu comentário sobre o desdenho dos cineastas brasileiros à época. Não sabia que era assim. Bem feito pra eles, que ficaram criticando um filme que acabou levando a Palma de Ouro.
Li seu post e lembrei duma entrevista que vi do Anselmo, há muitos anos atrás, no Jô Onze e Meia, se não me engano, onde ele contava como foi levar a Palma de Ouro. Era uma história deliciosa, que envolvia até um certo ritual mágico, feito na véspera da premiação. Será que tem no Youtube?!
16 de Novembro de 2009 16:33Encontrei seu blog no Cinecabeça, de uma grande amiga, a Cintia. Muito bom!
Embora o meu não seja voltado para a sétima arte, no meu último post falei sobre dois filmes que curto muito. Se puder me honrar:
www.marcelo-antunes.blogspot.com
Voltarei mais vezes!
Abraços!
Oi, Marcelo vou lá no seu blog, volte sempre. Estou sempre visitando o blog da Cintia e ela o meu, hehe.
16 de Novembro de 2009 18:03Quanto a entrevista, não conhecia, mas achei aqui, olha: http://video.google.com/videoplay?docid=-5514590922089134030#
Verdade, Fred, não apenas a mídia, mas, principalmente a classe cinematográfica. Anselmo merece nossa homenagem.
9 de Novembro de 2009 09:23Ah, e parabéns pela cobertura do FIC Brasília, estou acompanhando.
bjs
Oi Amanda!
9 de Novembro de 2009 11:38Bonita homenagem!
Confesso que conheço pouco sobre a história de Anselmo Duarte (vi somente "o pagador de promessas" e "tico tico no fubá").
Inclusive desconhecia o fato de que seu filme, após ganhar a palma de ouro, foi rejeitado e criticado pelos companheiros aqui no Brasil. Um fato triste, pois um prêmio "deste porte" deveria ser motivo de alegria e felicidade para qualquer um aqui no Brasil. Ainda mais concorrendo com diretores tão conhecidos e renomados como Bunuel e Antonini.
Quanto ao filme "O pagador de promessas", concordo com vc, de fato é um clássico de nossa filmografia. Isso nos mostra que o Brasil sempre teve competência para produzir filmes com qualidade.
Pena que num determinado momento de sua história ele perdeu o seu caminho. Somente alguns anos depois, conseguiu retomar seu caminho novamente.
Um abraço.
Amanda, no sábado tb escrevi no meu blog sobre "O Pagador de Promessas" e seu texto informa bem sobre como os críticos brasileiros não deram valor a esta obra. No final este é o nosso único filme que ganhou a "Palma de Ouro" até hoje, passados 47 anos.
9 de Novembro de 2009 16:38Hoje a história mudou um pouco, mas me lembro que nos anos oitenta a chamada crítica especializada elogiava apenas filmes europeus. Obras brasileiras e a maioria dos filmes de Hollywood eram populares demais para eles.
Até mais
Veja sim, Maria Celina, e o pior é que eles desdenharam após o prêmio, dizendo que ele só ganhou porque namorava uma assessora do festival, que o Pagador não podia ser comparado a um Anjo Exterminador.
9 de Novembro de 2009 18:48Pois é, Cíntia, o cinema nacional tem muita coisa boa, e muito ainda a crescer.
Isso mesmo, Hugo, a década de 80 foi crítica para o nosso cinema, mas nem sempre foi assim, na época do cinema novo os filmes do movimento eram elogiados pela crítica, Anselmo Duarte foi menosprezado, exatamente por não fazer parte deles.
Postar um comentário