04/01/2010
Lula, o filho de Dona Lindu
"Nunca antes na história desse país" foi feito um filme sobre a vida de um presidente. Ainda mais de um presidente em exercício. Este, talvez seja o maior problema de Lula, o filho do Brasil. Por mais interessante que a história seja, não há como esquecer que estamos vendo a vida do nosso presidente às vesperas de uma eleição. O mais irônico é a tela inicial dizendo que o filme foi feito sem nenhuma lei de incentivo. Precisa? Qual a empresa não gostaria de estar na lista seguinte de patrocinadores de um filme do presidente? Fica, então, o clima eleitoreiro, o que é lamentável, pois acaba-se discutindo o político e esquecendo-se do filme.
Fábio Barreto tem três grandes méritos: ser filho de Luis Carlos Barreto, irmão de um grande diretor (Bruno Barreto) e constar em seu currículo o segundo filme brasileiro no Oscar (O Quatrilho). Com Lula, ele pretendia conquistar crítica e público com uma obra essencialmente melodramática. Mas, parece que nem mesmo o trágico acidente e sua situação delicada comoveram a crítica que continua batendo no filme, chegando a diminuir o número de salas em que este foi lançado. Uma pena, pois se lançado em outro momento, o filme poderia ser sucesso, já que a história tem muito potencial.
É, a princípio, mais uma história de superação. Uma família sertaneja que migra no pau-de-arara para São Paulo, em busca de uma vida melhor. Tem miséria, pai alcoólatra, fome, casas alagadas, muita luta, trabalho desde a infância. Uma trajetória parecida como muitas outras no país. Mas, mesmo não gostando do presidente, não se pode negar que ele chegou lá. Teimou, como orientou sua mãe. É então, uma história de ascenção social da forma como sonha cada brasileiro. Fábio Barreto pode ter floreado algumas passagens, exagerado na trilha emotiva e nos flashbacks em momentos chaves, tentando nos fazer chorar, mas é uma história real. Lula saiu do sertão, trabalhou anos como peão, fundou um partido, tentou por treze anos e não apenas se tornou presidente de dois mandatos, como foi eleito o homem do ano com uma aceitação mundial impressionante.
Voltando ao filme, ele acaba antes da fundação do PT. É, então, a história do Lula sindicalista e sua origem. O início, do nascimento à adolescência, foca na força de dona Lindu. Uma mulher que saiu do meio do nada com oito filhos, foi para São Paulo, e, com toda dificuldade, criou-os como pessoas de bem. Não há como não admirá-la ao ver o filme, principalmente com a interpretação de Glória Pires. É possível esquecer um pouco sua imagem global e se identificar com Lindu. A exceção de cenas sem sentido como a conversa entre ela e Cléo Pires após o casamento, parecendo algo arrumado só para brincar com o fato de serem mãe e filha interpretando nora e sogra.
A segunda parte, com Lula já metalúrgico, é bem feita. Rui Ricardo Dias consegue acertar no tom, não caindo na caricatura habitual, mas trazendo todas as característica daquele personagem histórico, até mesmo no timbre da voz. As cenas de discurso do personagem são muito boas, principalmente a do estádio onde as pessoas vão repetindo o que ele fala para as outras ouvirem. O que faz o filme perder um pouco é a ligação entre a primeira e a segunda parte. Muito picotada, com cenas esporádicas facilmente descartadas e que resolveriam o segundo problema, o filme é muito longo e acaba se tornando cansativo. Menos uns 20 minutos e estava ótimo.
A fotografia é coerente com momentos de contrastes incríveis como a viagem no pau-de-arara, a aridez do cenário, o sol forte, alternando com os closes dos personagens. Ou nas cenas em Santos, com os trabalhadores carregando as sacas e as mulheres catando os restos que caem no chão. Há ainda cenas poéticas, mas clichês, como Lurdes correndo entre as roupas no varal. E outras muito bem realizadas, como a já citada do estádio de futebol. Tudo isso, no entanto, serve apenas para comprovar que Fábio Barreto é um diretor correto, porém limitado. Não há traços geniais em sua mão, mas também, não é obrigatório o ser para fazer um filme bem resolvido. Lula, o filho do Brasil, é um bom filme e merece ser visto, uma pena que tenha sido lançado em um momento tão inoportuno. Quem sabe, em um futuro distante, ele seja resgatado. Só o tempo dirá.










































12 opiniões:
Não há como separar o "político" do fílmico, levando-se em conta o momento em que ele é lançado. É hipocrisia dizer que o filme não tem fins eleitoreiros, ainda mais em se tratando de pessoas experientes no ramo (os Barreto), que sabem o poder que uma cinebiografia tem de elevar o conceito do seu retratado. Nós, o público, somos sim influenciáveis. Eu posso até assistí-lo, mas em outro momento. Por enquanto, prefiro devolver o mesmo desdém que os produtores do filme dispensaram à imprensa, só que menos ofensivo do que eles.
4 de janeiro de 2010 14:41Ah! De momento "inoportuno" o lançamento não tem nada. É mais que oportuno e isso é o que me afasta de querer vê-lo agora.
Abç, Amanda!
E obrigado pelo link, mesmo sendo na base da discordância! rsrs
Respeito seu ponto de vista Fred, apesar de não concordar. E o link foi para exemplificar o que você mesmo colocou, todos estão falando do político e não do filme. Foi exatamente por isso que o achei inoportuno apesar de não ser ingênua de achar que não foi proposital. Como cinéfila, eu gostaria que ele viesse daqui a uns dez anos, talvez.
4 de janeiro de 2010 15:23abraços
Eu concordo que o filme "pareça" eleitoreiro, mas o pessoal não deixaria de fazer um filme dele para ser lançado em 2010, seria para coroar o último mandato. Bem, eu não tenho partido, e nem posso julgar o Lula, afinal, estamos falando do filme. A história é boa sim, assim como foi a de "2 filhos de Francisco", mas é aquilo que você falou, se fosse em outra época e com menos 20 minutos, o filme seria sucesso.
4 de janeiro de 2010 16:25Valeu, Amanda!!!
Oi Amanda!
4 de janeiro de 2010 21:27Gostei da forma como abordou o filme. Embora o veja como um filme eleitoreiro, afinal está mais do que claro que o intuito é este, mesmo assim fiquei curiosa em ver de que forma a história foi contada. Com certeza, pelo que ja li nosso presidente tem uma história de vida muito bonita de força e superação. Concordo que este não é o melhor momento para lançar o filme, pois fica muito explicito sua intenção. Se o lançassem daqui a alguns acredito que faria sucesso.
No entanto, decidiram lançar agora, então vamos ver. Depois que eu assistir, comento com vc o que achei.
Ah, eu to louqinha para assistir o filme do cachorrinho e assim que ver tb, comento contigo.
Vi avatar e gostei demais dos efeitos e da idéia. No entanto, a história é fraquinha. Mas, vale a pena. Um bom filme.
Um beijinho carinhoso.
Oi Amanda,
5 de janeiro de 2010 22:58Ainda não vi o filme. Mas, sua crítica é até agora a mais positiva que li, mesmo assim, você mostrou lucidez para apontar as falhas ou senão, as limitações do projeto. Antes de criticar, quero ver e aí sim vou formular uma opinião.
Abs.
O ponto principal é mesmo a questão do cara ser o presidente e estar tentando eleger sua candidata, usando o cinema (feito com dinheiro público, nossa grana) como palanque.
6 de janeiro de 2010 17:22A história de vida pode ser interessante e o filme também, mas o que está por trás é mais um exemplo da vergonha que são os políticos do nosso país. O Lula é apenas parte do mecanismo, esse comentário vale para 99% deles.
Amanda, vc escreveu outra detalhe correto, este filme deveria ser feito daqui há alguns anos, não hoje.
Até mais.
É... Eu até gosto de Lula, voto nele desde 1989, mas é complicado um filme de um presidente em exercício às vesperas de uma eleição... Gostei do que vi no cinema, mas incomoda a sensação eleitoreira, apesar de não ter achado que o filme em si mude a visão de Lula para ninguém. Na verdade, passei a admirar Dona Lindu, uma mulher retada. Seu filho Luís, não teve novidade, ou seja, o filme em si não é eleitoreiro, porque não faz a cabeça de ninguém nesse sentido, entende? Mas, o marketing em volta dele, é. E aí é que está o problema.
7 de janeiro de 2010 09:45lançar um filme sobre o presidente as vesperas de uma eleição onde ele quer fazer a sua substituta...se não for eleitoreiro, eu não sei que nome se da então...
7 de janeiro de 2010 22:35lamentavel.
www.idioticetemlimite.com
link pra download??
7 de janeiro de 2010 23:59haueheuheue
Ah, gente... Fala sério! Como não envolver política se boa parte da vida do cara foi mesmo a política? Sinceramente! Pensar com senso comum (o que não quer dizer 'alienação') é fechar os olhos pra uma grande história e um excelente filme. Realmente se for assistir com o pensamento de que é pra fins eleitoreiros, é melhor nem ir, pois não se vai deliciar o roteiro com o trato que ele merece. E outra coisa, não faz o perfil dos Barreto filmes de caráter eleitoreiro, é só avaliar o currículos dos caras. Enfim! Não tiro a razão de quem critica, mas fui assistir o filme com os olhos de crítica da obra cinematográfica (e não de crítica do momento do lançamento, do presidente, da Dilma, seja lá o que ou quem for). E, com estes olhos, achei o filme excelente!
8 de janeiro de 2010 00:46Eleitoreiro ou não, isso não importa, o que importa é que o presidente LULA foi e é o melhor presidente da história deste país! O Brasil todo concorda e o mundo também, exceto alguns paulistanos que , infelismente, são alienados pela grande mídia...eles elegeram José Serra/PSDB(o exterminador do futuro) como governador de SP, a cegueira é tanta que não percebem a blindagem que grande parte da mídia paulista faz em torno dele.
13 de janeiro de 2010 22:53"interessante" é a meia entrada para sindicalizados...
14 de janeiro de 2010 22:30Postar um comentário