sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Nine - Vamos repensar o cinema?
Começando sua carreira como roteirista do neo-realismo italiano, Federico Fellini nunca foi muito adepto das regras do movimento, apesar de muitos estudiosos o classificarem como tal. Após seu oitavo filme, o cineasta estava em crise, achava que não tinha mais nada a dizer. Resolveu colocar sua angústia na tela e intitulou o filme como Oito e Meio. Fellini dizia que era um grande mentiroso, pois seus filmes eram a partir de lembranças. Talvez por isso, achou que este não poderia ser considerado um filme inteiro. Mas acabou sendo uma obra-prima de sua cinegrafia, junto a Amarcord.
Em sua homenagem, Arthur Kopit estreou na Broadway o musical Nine, baseado em Oito e Meio, com Raul Julia no papel principal. Traz a mesma história do filme italiano: Guido um cineasta em crise criativa que apela para as lembranças das mulheres que passaram em sua vida para tentar fazer a trama. A diferença é o ritmo, com músicas criadas para a nova história e o nome, Nine, afinal, ele não era apenas meio filme.
A adaptação para o cinema dessa história me lembra uma frase de Godard: "Tenho pena do cinema francês por não ter dinheiro e tenho pena do cinema norte-americano por não ter idéias". Claro que o fundador da nouvelle vague tinha muito preconceito em relação a Hollywood, mas a enxurrada de adaptações e refilmagens demonstram que o cinema está cada vez menos criativo. Ainda assim, por mais paradoxal que possa parecer, Nine é um bom filme. Pelo menos, é bem produzido, com grandes interpretações e faz jus aos questionamentos que Fellini propôs em 1963. Afinal, qual a função e o sentido do cinema?
Há em Oito e Meio, várias cutucações ao movimento neo-realista como a frase de Guido "...estou cheio desses filmes em que nada acontecem..." Ou o formato narrativo que flerta com o surrealismo, escandalizando os neo-realistas que viam em um filme a essência da vida. A ponto do termo "felliniano", virar uma gíria na Itália que significa pessoas bizarras e imagens circenses. Filme é sonho, gritava Fellini com sua obra. É interessante ver o Guido de Daniel Day Lewis dizer em Nine que acha ser o palhaço daquele circo. Uma referência não apenas a isso, como a cena final de Oito e Meio, feita em um picadeiro ao ar livre.
Em Oito e Meio, e em Nine por consequência, Fellini recorre a sua infância em Rimini e outros detalhes, mostra a lembrança dolorosa dos pais, a Igreja punitiva e opressiva, e a, ao mesmo tempo, prazerosa e incômoda presença da mulher. O musical mantêm toda essa essência, a mistura surrealista entre realidade e sonho, além da metalinguagem explícita.
Daniel Day Lewis está esplêndido no papel que foi de Mastroiani, dando a densidade exata para o cineasta em crise, e ainda cantando muito bem. As mulheres são um show a parte, destaco apenas Marion Cotillard que desde Piaf não nos brindava com uma interpretação tão intensa. Quanto às demais, deixo a dica de um post interessante que este já está ficando imenso.
Por ser bem produzido, ter uma história interessante, um roteiro bem feito e interpretações tão boas fica o questionamento de o porquê Nine ter sido tão excluído do Oscar. Apenas Penélope Cruz, que parece ter virado a nova queridinha da América, está na lista de indicados. Talvez seja um prenúncio da morte definitiva dos musicais. Tiveram sua época áurea nas décadas de 50/60, um revival na década de 80 e poucos contemporâneos de sucesso. Interessante é perceber que hoje não cabe mais ninguém sair cantando e dançando no meio de uma cena. Assim como Chicago, Nine só utiliza músicas na imaginação de um personagem. Será que não há mais espaço para musicais em Hollywood? Fica a questão para pensar...





























8 opiniões:
Muito bom o post, os comentários são bem plausíveis e não sei se os musicais acabaram, mas que mudaram, mudaram. E eu sinto saudades dos musicais antigos. Aqueles em que os atores dançavam no meio da rua e fazia parte do contexto.
5 de fevereiro de 2010 13:52Ah, ótimos os links do post também. Boa pesquisa, inclusive de produtos. Já comprei Fellini: A História de um Mito. Tô doido pra assistir qndo chegar. Abraços.
Obrigado Amanda pelos links! :)
5 de fevereiro de 2010 14:59Não acredito que os musicais estejam acabando, apenas acho que Nine não foi tão feliz como imaginávamos que seria, já que traz tanta gente boa junta... Chicago tá aí pra mostrar que um musical pode sim levar o melhor filme em pleno século XXI.
Abs.
Eu estou doido pra assistir esse filme, foi bom saber a história do filme.
5 de fevereiro de 2010 15:41-------------------------------------------------------
http://umoscarpormes.blogspot.com/
Levi Ventura
Amanda, eu sou fã de musicais. Por isso tenho altas expectativas em relação à "Nine". Fico feliz de ler seus bons comentários sobre a obra! Espero poder conferí-la em breve.
5 de fevereiro de 2010 19:03Olha, devo dizer que discordo de sua opinião sobre o filme. Acho que ele tem vários problemas, e é justamente por isso que não teve uma tão boa recepção. Acho inclusive que a indústria deve adorar musicais, pois além de gerar bilheteria contribuem para o surgimento de novas estrelas (resquícios do "star system") e lucra-se com a venda das músicas (nem que seja mp3). Desconfio também que é o tipo de filme que vende muito DVD, que se quer ter em casa...
7 de fevereiro de 2010 03:04Enfim, escreverei também sobre Nine!
Obrigada, Paulo, espero que tenha gostado do DVD, e volte sempre.
7 de fevereiro de 2010 16:43Levi e Kamila, também gosto muito de musicais e, ao contrário de alguns comentários, achei que o filme foi o que tinha que ser. Sinceramente, eu gostei.
Fernando e Davi, respeito as suas opiniões, mas não vi tantos problemas em Nine quanto vocês apontam, comparando-o a Chicago, por exemplo, não vejo onde um seja tão melhor que o outro, pelo contrário, acho que Nine tem interpretações bem melhores. Quanto a direção, achei correta, nada demais, mas condizente com as cenas. A cena em que Guido acaba de assistir aos testes, por exemplo, é muito bem feita, com uma iluminação e efeitos bem interessantes.
Claro que os musicais ainda dão biheteria e outros lucros extras, mas não tem mais o charme da época de ouro, isso é fato. Hoje sair dançando e cantando por tudo é considerado bobo. O remake de Fama mesmo foi um fiasco. Vendo Nine apenas quis levantar a questão de até que ponto os musicais ainda tem vez no primeiro time dos clássicos. É possível ainda surpreender como um Moulin Rouge ou Sweeney Todd? Entendam, não estou dizendo que Nine seja um clássico, achei um musical interessante, correto, que cumpriu o papel a que se propôs e as interpretações estão muito boas, recordando outros grandes musicias que marcaram época, verão que não tem muita diferença. É por isso que pergunto se acabou o tempo dos musicais.
Estou esperando seu texto Davi,
abraços
Eu gosto muito de musicais, não sou tão experct em cinema para dizer se eles estão descendo ou subindo a ladeira, mas gostei de Nine, principalmente de Marion Cotillard, Kate Hudson e Daniel Day Lewis.
8 de fevereiro de 2010 08:22Agora, Chicago tinha Catarina Zeta Jones, que é um espetáculo.
Mas, é isso, Robin, Catarina Zeta Jones é quem carrega o filme, Renée Zellweger e Richard Gere estão muito fracos.
8 de fevereiro de 2010 12:07abraços
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