13/03/2010
Grandes Cenas: A escolha de Sofia (com spoilers)

Já que pela décima quarta vez, Meryl Streep perdeu um Oscar, resolvi lembrar aqui a última estatueta ganha por essa excelente atriz. A escolha de Sophia é um filme complexo. Mistura o sofrimento da guerra, do campo de concentração, com simples prazeres da vida, como tomar vinho, passear no parque com os amigos, e problemas psicológicos graves. Fala de muita coisa, mas o que fica para nós é a maldita escolha. A possibilidade de escolha é a grande questão da nossa existência humana. Afinal, se somos capazes de escolher, temos que arcar com nossas responsabilidades. Mesmo a escolha de se abster é uma escolha e pode nos carregar de culpa, por não ter feito nada. A escolha infringida a Sofia foi tão forte que a expressão se transformou em símbolo de escolha impossível. E o mais notável é que só lhe deram míseros cinquenta e cinco segundos. Todo o filme é notável, a interpretação de Meryl Streep é fenomenal em cada momento, seja sorrindo, dançando, chorando na beira da escada, apanhando do namorado, mentindo, confessando, aprendendo a falar inglês e tudo mais que a vemos fazer. Mas, nada é tão forte e significativo quanto o momento da escolha. E esta é a grande cena que fica em nossa memória.
ATENÇÃO, SE VOCÊ NÃO VIU O FILME E QUER SE SURPREENDER, NÃO LEIA O RESTO.
Somos avisados no título de que Sofia vai fazer uma escolha, mas não nos explicam qual é essa escolha. Durante duas horas e quinze minutos somos induzidos a entender que ela deverá escolher entre seu namorado Nathan e seu vizinho Stingo. Só no apagar das luzes vem a revelação. Sua escolha é muito mais profunda do que um simples romance. Quem deve viver? Seu filho de dez anos ou sua filha de oito? Quem você irá mandar para câmara de gás e quem terá uma chance naquele campo insólito? Qual a mãe conseguiria responder? Mas, se não respondesse, Sofia veria os dois serem exterminados. Não seria justo salvar ao menos um? Nem muito tempo há para pensar. Do instante em que o nazista fala "você pode ficar com uma" até o momento em que ele diz "levem as duas crianças", se passam exatos cinquenta e cinco segundos. A decisão que irá torturar a mente de Sofia para o resto de sua vida, não leva um minuto. E ela grita, quase inconsolável, "leve o meu bebê, leve a minha garotinha". A tensão psicológica é imensa, não há como não se emocionar.
Engraçado que já estamos quase no final do filme, já sabemos que a menina foi para a caldeira e que o menino poderia estar vivo, sendo criado por uma família alemã. A revelação ali era apenas que foi Sofia a responsável pelos dois destinos. Então, sem a expectativa da resposta, podemos nos concentrar no sofrimento daquela mulher. Na expressão que Meryl Streep consegue construir em cada gesto e na frieza de seu opositor.
Percebam o enquadramento escolhido por Alan J. Pakula. Ele coloca o nazista de baixo para cima, na penumbra e Sofia de cima para baixo com a luz estourada em sua face. Ele, no conforto de sua superioridade e escondido pela sombra. Ela, submissa e totalmente exposta. O plano é fechado em ambos os casos. A tensão está no olhar, nos pequenos gestos. Ele chega falando de sua beleza e do seu desejo. Brinca com seu desespero ao falar as palavras de Jesus. Tudo dá ainda mais raiva daquele homem sem sentimentos.

Outro detalhe que dá força à cena é o fato de a menina estar no colo da mãe e o menino ao seu lado, agarrado as suas pernas. Então, vemos a garotinha que irá morrer (já sabemos disso, lembrem) e suas expressões de medo. A força dramática disso é ainda maior. O menino só é mostrado no momento em que o nazista manda levar os dois. Aí ele chora agarrado à mãe e ela grita para levarem a menina que sai chorando muito. A cena dela se afastando se contrasta com o rosto de Meryl Streep no ápice da dor, nenhum som ela consegue soltar.
Se tem uma cena emblemática de dor, é essa. Infelizmente não encontrei-a no Youtube com legendas em português, apenas em inglês e mesmo assim sem possibilidade de incorporar ao blog. Cliquem aqui para vê-la. E se você não domina a língua inglesa, abaixo o diálogo completo.

Comandante Hoess:
Você é tão bonita...
Gostaria de ir para cama contigo.
Você é polaca?
Você! É também uma dessas comunistas sujas?
Sofia:
Eu sou polonesa!
Nasci na Cracóvia! Não sou judia. Tampouco meus filhos!
Não são judeus.
São arianos puros.
Eu sou católica.
Sou católica devota.
Comandante Hoess:
Não é comunista?
É religiosa?
Sofia:
Sim, senhor.
Eu creio em Cristo.
Comandante Hoess:
Então, crê em Cristo... o redentor?
Sofia:
Sim!
Comandante Hoess:
E Ele não disse... "Que sofram as criancinhas... para que possam vir a Mim"?
Poderá ficar com um de seus filhos.
Sofia:
Perdão?
Comandante Hoess:
Poderá ficar só com um de seus filhos.
Um terá de morrer.
Sofia:
Diz que terei de escolher?
Comandante Hoess:
É polaca, não uma judia.
Isso lhe dá um certo privilégio, o da escolha.
Sofia:
Eu não posso escolher!
Eu não posso escolher!
Comandante Hoess:
Quieta.
Sofia:
Não posso escolher!
Comandante Hoess:
Escolha! Ou mandarei ambos para lá!
Faça a escolha!
Sofia:
Não me faça escolher!
Não posso!
Comandante Hoess:
Mandarei ambos para lá.
Cale- se! Basta!
Eu disse para se calar.
Faça a escolha.
Sofia:
Não me faça escolher!
Eu não posso!
Comandante Hoess:
Mandarei ambos para lá.
Sofia:
Não posso escolher!
Comandante Hoess:
Leve as duas crianças embora! Mexa-se!
Sofia:
Leve minha filhinha!
Leve meu bebê!
Leve minha garotinha!






































8 opiniões:
Forte, cruel, interpretação maravilhosa. Grande lembra, me arrepiei.
14 de março de 2010 10:48Para mim, esta é simplesmente a maior atuação da história do cinema dentre as atrizes. Acho simplesmente poderoso, não só o trabalho de construção da personagem feito pela Meryl com a ajuda dos roteiristas, como também os detalhes que ela imprimiu à personagem com muito cuidado, como o sotaque. Essa cena é simplesmente sensacional. Emocionante, sincera e muito bem escrita, dirigida e atuada. Para mim, somente uma está pau a pau com ela: aquela cena de "Sindicato dos Ladrões", em que Marlon Brando desabafa com o irmão dentro do carro falando a clássica frase: "I could have been a contender". Parabéns pela análise!
14 de março de 2010 20:18Um de seus melhores posts, Amanda
15 de março de 2010 00:34Chega foi bem impactante, me arrepiei também pois me lembro dessa cena forte e intensa. E a forma como você foi pontuando...parabéns!
Um dos seus melhores posts do espaço aqui, vou rever a cena, mas me incomoda um pouco.
bjo
Verdade, Robin, arrepia.
15 de março de 2010 09:17Kamila, a cena de Marlon Brando é maravilhosa, mas essa por tudo que carrega acho ainda mais forte. Obrigada pelo elogio.
Cris, obrigada, a cena ajuda, porque é simplesmente perfeita. Revendo só a cena eu já chorei, imagine o impacto no filme.
bjs
Droga, agora eu quero ver esse filme...
15 de março de 2010 10:14Mas, a idéia é essa, Larissa, hehe. Brincadeira, mas se tiver a oportunidade, veja que é bom.
16 de março de 2010 12:13bjs
um dos melhores filmes que assisti em toda minha vida, a interpretação fantástica da atriz Meryl Streep, a qual virei fã desde esse filme. O ponto mais forte e emocionante com certeza foi a cena em que ela é obrigada a escolher um de seus filhos para a morte.Não existe dor maior no mundo que a perda de um filho, que dirá , a própria mãe ter que escolher esse destino para salvar pelo menos um de seus filhos.
16 de junho de 2011 09:35Um filme comovente demais... recomendo a todos!
Realmente, Miki a interpretação dessa cena é de doer na alma. Meryl Streep, o texto, a forma como é conduzido.
16 de junho de 2011 17:18Postar um comentário