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O Beijo da Mulher Aranha
O Beijo da Mulher Aranha
O Beijo da Mulher Aranha foi um marco da filmografia brasileira. Dirigido por Hector Babenco, argentino naturalizado brasileiro, a coprodução Brasil–Estados Unidos foi indicada a quatro Oscars, vencendo o de Melhor Ator com William Hurt. A nova versão dirigida por Bill Condon, que chega agora aos cinemas, não se configura como um remake direto desse clássico, mas como uma adaptação cinematográfica do musical da Broadway, também inspirado no romance homônimo do argentino Manuel Puig.
Em todas as quatro obras, a estrutura narrativa é a mesma. Em meio a uma ditadura militar, dois homens dividem uma cela: Valentin, um preso político, e Molina, encarcerado por ser homossexual e ter sido flagrado fazendo sexo em local público. Para sobreviver ao confinamento, Molina passa a narrar os enredos de seus filmes favoritos, dissolvendo progressivamente as fronteiras entre realidade e fantasia e estabelecendo uma relação inesperada de afeto e troca.
A versão de Babenco deslocava a ação para o contexto da ditadura brasileira e utilizava o cinema dentro do cinema como comentário político direto. Já a adaptação de Bill Condon opta por outro caminho: Jennifer Lopez interpreta uma estrela de musicais inspirada no imaginário hollywoodiano dos anos 1940. A escolha dialoga com a trajetória do diretor, responsável pelo roteiro de Chicago e pela direção de Dreamgirls e da versão live-action de A Bela e a Fera. Sua familiaridade com o gênero garante eficiência formal, ritmo preciso e números musicais bem executados.
No entanto, essa mesma competência técnica revela também o principal limite do filme. Ao abraçar o musical como eixo central, a obra suaviza o caráter político que sustenta o romance de Puig e o filme de Babenco. A fantasia narrada por Molina passa a funcionar mais como escapismo estético do que como alegoria crítica do regime autoritário que estrutura aquela realidade.
A ideia central permanece: em um mundo violento, preconceituoso e opressivo, a arte pode ser um refúgio psicológico. Ainda assim, quando Valentin questiona ou ironiza as histórias de Molina, inclusive por se tratarem de musicais, essa tensão perde força simbólica. O conflito deixa de representar um embate ideológico mais amplo e se restringe a um contraste de sensibilidades individuais.
Diego Luna e Tonatiuh conseguem construir uma boa dinâmica em cela, contrastando os dois universos e os aproximando aos poucos. Jennifer Lopez também encarna bem a estrela Aurora e, claro, a mulher aranha. As cenas musicais são bem orquestradas e envolvem, nos convidando a embarcar naquela fantasia também.
Paradoxalmente, é justamente aí que o filme mais se distancia de seu potencial crítico. A narrativa de Molina dialoga muito mais com o drama íntimo da prisão do que com o contexto político externo. A ditadura torna-se pano de fundo difuso, e a luta que Valentin representa perde densidade dramática e força simbólica.
O resultado é uma obra tecnicamente segura e afetivamente envolvente, que celebra o cinema e a capacidade da arte de criar mundos paralelos. Avaliado de forma isolada, o filme possui méritos claros. Em comparação com o romance de Puig e com a adaptação de Babenco, porém, sua abordagem mais conciliadora e menos política acaba soando tímida, o que acaba sendo também frustrante.
O Beijo da Mulher Aranha (Kiss Of The Spider Woman, 2026 / Estados Unidos)
Direção: Bill Condon
Roteiro: Bill Condon
Com: Diego Luna, Tonatiuh, Jennifer Lopez, Bruno Bichir
Duração: 128 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
O Beijo da Mulher Aranha
2026-01-15T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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