26/03/2010

Ilha do medo

Leonardo DiCaprio em Ilha do MedoCinema é ilusão. Com esta afirmação mais do que óbvia, inicio meu post sobre um dos filmes que mais me impressionou nos últimos tempos. Ouvi alguns dizerem ser chato, outros confuso, outros ainda que foi óbvio ou repetição de uma tendência. Mas, o jogo fílmico, a construção da ilusão do medo, a economia narrativa que Martin Scorsese imprimiu em Ilha do Medo não nos faz perceber as três horas passando e mostra o porquê do cinema ser tão fascinante.

Scorsese é o tipo do diretor que não precisa provar mais nada a ninguém. Desde Taxi Driver, e nisso já se vão mais de trinta anos, entrou para história do cinema como um dos grandes diretores de todos os tempos. Fez coisas chatas como New York, New York ou a A Cor do Dinheiro, trouxe clássicos provocantes como A Última Tentação de Cristo ou melodramas esplêndidos como A Época da Inocência. A questão que sempre explorou foi a dualidade humana. O que é certo, o que é errado? O que é falso ou o que é verdadeiro? Realidade e ficção se misturam muito bem nesse jogo de contar histórias que o diretor constrói com paixão.

Ilha do MedoLeonardo DiCaprio, cada vez mais à vontade nas mãos de seu mestre, constrói um personagem complexo e envolvente. O espectador cola sua atenção naquele ser que acredita piamente nos recursos escusos daquele local que esconde um prisioneiro misterioso. Baseada no livro Paciente 67 de Dennis Lehane, a história gira em torno de Teddy Daniels, um policial federal convocado para descobrir o paradeiro de uma prisioneira de uma ilha que funciona como um manicômio prisional. Junto com ele está seu novo parceiro Chuck Aule, vivido por Mark Ruffalo.

Logo no início, ficamos sabendo que naquele local, estão os prisioneiros psiquiátricos mais perigosos, divididos em três Alas e que a ALA C é proibida para todos os visitantes. Investigando o caso, Teddy descobre que Rachel Solando, a prisioneira sumida, está ali porque matou seus três filhos afogados e que, na noite anterior, foi trancada em seu quarto, sumindo misteriosamente. Em seu quarto, há um bilhete estranho com a pergunta: quem é o 67? Importante perceber que todas as pontas soltas e detalhes da história vão fazer sentido no final.

Terror e suspense se misturam como provavelmente Hitchcock nunca imaginou. Scorsese não se contenta em nos envolver e deixar tensos com o mistério e perigo eminente. Em muitos momentos, os recursos são de terror mesmo, com sustos e surpresas de grande impacto. A trilha sonora estrondosa nos deixa quase em pé na cadeira, lembrando muito o clássico O Iluminado. A atmosfera sombria, a tempestade, os raios, a escuridão das celas da Ala C iluminadas apenas pelo fósforo de DiCaprio. Isso é que constrói a verdadeira fruição de A Ilha do Medo. Não é a história, nem a virada, muito menos o desfecho, que alguns podem acusar de repetitivo. O grande mérito é o jogo de emoções que ele faz, nos proporcionando uma viagem fantástica à mente humana, conduzida com maestria por um diretor que prova ainda ter muito a mostrar. Afinal, a loucura contagia? A loucura pelo cinema, pelo menos, parece que é contagiante.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

5 opiniões:

Fernando disse...

adorei seu texto! E concordo com tudo q disse sobre o filme. É pra mim um dos grandes da temporada. Tomara queo filme tenha vida longa e seja lembrado nas premiações

26 de março de 2010 08:24
Juliana disse...

Muito bom, não vi o filme, mas fiquei super curiosa. Só não entendi o que você quis dizer com: "provavelmente Hitchcock nunca imaginou". Scorsese superou o mestre do suspense?

26 de março de 2010 14:23
Rodrigo Carreiro disse...

Filmaço! Scorsese voltando aos bons tempos da sua cinematografia. Claro, não é nenhum Taxi Driver ou Ranging Bull, mas é um filmaço. Grande mesmo.

26 de março de 2010 19:11
Amanda Aouad disse...

Que bom que gostou, Fernando, também espero que ele não seja esquecido. Filmes lançados no início do ano sempre correm esse risco.

Juliana, é que Hitchcock dizia que o suspense é superior ao terror (que ele chama de surpresa), porque é melhor elaborado e o público fica mais colado na narrativa. Eu quis apenas ressaltar que Scorsese usou genialmente dos dois programas de efeito em seu filme. Acho que não dá para comparar qual dos dois é melhor. Ambos tem grande importância.

Também acho, Rodrigo. Eu gostei muito.

26 de março de 2010 19:29
Kamila disse...

Voxê gostou muito mais desse filme que eu! Os elementos que eu apreciei: a edição de som, a direção de arte, os figurinos, a fotografia, a edição, a performance do Leo, a trilha sonora, a atmosfera de suspense. Odiei, no entanto, o roteiro. Acho que ele era um tanto previsível.

26 de março de 2010 20:49

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