05/04/2010

Grandes Cenas: Abril Despedaçado

Rodrigo Santoro é TonhoTalvez por não ter sido indicado ao Oscar, Abril Despedaçado não seja tão lembrado pelo grande público. Mas, é um dos melhores filmes brasileiros já feitos, uma obra-prima de Walter Salles de 2000. Baseado no livro do albanês Ismail Kadaré, traz para o sertão nordestino uma briga entre famílias bem peculiar. Por anos, os Breves e os Ferreira se matam em nome de vingança, terra e honra. O quase pacto consiste em esperar a camisa do último defunto amarelar no vento para vingá-lo matando o próximo descendente da família rival. Nessa situação está Tonho, vivido por Rodrigo Santoro, que após ver a camisa do irmão morto ficar amarela é obrigado a matar mais um descendente dos Ferreira e esperar a morte certa em consequência.

Ravi Ramos Lacerda é Pacu No meio dessa tradição funesta, Pacu, irmão mais novo de Tonho, começa a questioná-lo sobre a falta de lógica de tudo aquilo e a necessidade de libertação. Tonho, confuso, rígido e sem esperanças, não sabe como dar ouvidos aos apelos daquele menino, até que conhece Clara, uma mulher do circo vivida pela atriz Flavia Marco Antonio, livre, sem amarras que pode mostrar a Tonho outro significado para vida.

É esse o simbolismo que a cena escolhida carrega: a liberdade e a nova forma de ver o mundo. Em um passeio na vila, Clara vê uma corda e chama Tonho dizendo que vai lhe mostrar uma coisa. A moça sobe na corda e pede que Tonho a gire. Primeiro vemos a corda em uma pan vertical, dando a dimensão de sua altura. Depois em outra pan vertical, Clara vai subindo aos poucos, tendo Tonho logo abaixo, segurando-a. Ela no alto, ele plantado no chão. Ainda é uma transformação.

Abril Despedaçado Clara pede que Tonho gire a corda. Nessa hora estamos em um plano médio de Tonho, olhando para cima tendo a sombra de Clara ao fundo. Ele gira meio tímido. A câmera mostra Clara pendurada pela corda, sendo balançada em uma velocidade cada vez maior. Volta para Tonho, sempre com a sombra de Clara no chão, e agora ele está sorrindo. Aquilo é divertido. Nesse jogo, a música sobe, ampliando o clima. O plano vai ficando mais fechado. Tanto dela rodando, quanto dele olhando de baixo, até que vemos apenas detalhes de Clara passando pela câmera.

Temos, então, um contra-plongé mostrando Tonho e Clara pela primeira vez em um mesmo quadro. Eles estão completamente em sintonia, apesar de em pontos opostos. Corta para um plongée também enquadrando os dois, só que agora a câmera também gira, em um convite ao espectador para entrar naquela dança libertadora. É o clímax.

A cena vai desacelerando aos poucos. Mostra novamente apenas Clara girando e Tonho sorrindo, com o céu escurecendo para demonstrar a passagem do tempo. Até que finalmente é noite, em um belo balé, Clara desce da corda, sendo amparada por Tonho. Os dois exaustos, mas leves. Não é à toa que Tonho diz que nunca esquecerá aquilo, nem Clara. Uma verdadeira pintura no mundo cinematográfico.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

6 opiniões:

Fernando disse...

Puxa! parecer ser um filmão mesmo, mas eu ainda não vi. Todo mundo que já assistiu, recomenda. Gosto bastante dos trabalhos de Walter Salles, provavelmente gostarei tb de Abril Despedaçado.

5 de abril de 2010 15:41
Amanda Aouad disse...

Eu gosto bastante, Fernando, acho que não vai se arrepender se curte WAlter Salles.

abraços

5 de abril de 2010 19:03
Kamila disse...

Gosto do Walter Salles e da atuação do Rodrigo Santoro, neste longa, mas do filme em si, não sou grande fã!

5 de abril de 2010 22:23
Amanda Aouad disse...

Pena, Kamila, eu gosto muito. Central do Brasil, Abril Despedaçado e Diário de uma motocicleta são meus tops dele.

6 de abril de 2010 22:01
Cristiano Contreiras disse...

Definitivamente, meu filme brasileiro favorito.

Considero também um espetáculo cinematográfico, um absurdo não ter sido mais evidente no Oscar.

Gostei do post, eu adoro essa cena, Amanda!

Beijo

11 de abril de 2010 12:26
Amanda Aouad disse...

Também acho, Cris, ele merecia com certeza, mais destaque. Obrigada pelo elogio e bom te ver aqui de novo. Tava sumido, heim?

bjs

11 de abril de 2010 13:54

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