02/08/2010
400 contra 1
Quem me conhece sabe que sou uma das maiores defensoras do cinema nacional. Até de bairrista já fui chamada, o que é uma bobagem, porque defender um filme não é ser extremista, nem deixar de enxergar os defeitos. Por isso, estava com boas expectativas para o primeiro longametragem do publicitário Caco Souza. Mas, a sua intenção de contar o surgimento do Comando Vermelho não deu muito certo.
Ao sair da sessão de Salt, ouvi uma pessoa dizendo que preferia filmes assim do que cinema nacional, pois nele só há violência. Fiquei pensando: Salt não é violento? Na verdade é, mas os americanos aprenderam a fazer da violência um espetáculo. As lutas, as perseguições e as explosões são balés tão bem ensaiados que o espectador abstrai e se diverte. E ainda ganham ajuda dos puritanos tradutores brasileiros que colocam no lugar de xingamentos pesados coisas como "droga" ou "poxa". Assim, ao ouvir um FDP em alto e bom som, os ouvidos estranham e acham que brasileiro xinga muito. De qualquer forma, os blockbusters são apenas filmes, não é vida real. Já a violência no cinema brasileiro é crua, por isso incomoda. É cinema denúncia, não cinema entretenimento. Mas, as vezes, isso cansa.
De qualquer forma, esse não é o caso de 400 contra 1. Fui ao cinema já esperando algo no estilo de Cidade de Deus ou Salve Geral. Poderia até ser algo como Carandiru, que é menos interessante. Mas, antes fosse. O filme de Caco Souza fica no limbo dos gêneros. Ele tenta uma estética irônica ao estilo de Quentin Tarantino, sem chegar a um rascunho do mesmo. Narrativas não-lineares podem não ser mais novidade, mas ainda assim, funcionam muito bem se tiver um motivo para tanto, um fio que os una, mesmo que apenas na cabeça do espectador. O roteiro escrito por Victor Navas com a colaboração de Julio Ludemi, porém, é um ping pong temporal sem sentido. Cenas curtas e soltas passeando de 81 para 73, depois para 77, para 70, voltando a 80, 79 etc. Tudo com legendas estilizadas com uma estética até interessante e costurado por uma narração over de Daniel Oliveira que é mais chata do que funcional, quase repetindo o que vemos na tela.
Ele é Willian da Silva, um dos fundadores do grupo, na época em que estavam presos na Ilha Grande. A aproximação com os presos políticos teria inspirado a formação do crime organizado. Mas, o filme pouco mostra disso. Sendo apenas duas cenas insinuantes que são negadas pelo personagem cômico do grupo. Será que eles não teriam essa mesma atitude independente da convivência com os revolucionários? Até porque eles eram separados por setores e pouco se encontravam. O mais interessante da história é acompanhar o trabalho da personagem de Branca Messina entrevistando os presos e sendo proibida de falar com os presos políticos.
A atuação de todo o elenco é boa, sem muitos destaques para o bem ou para o mal. Chama atenção apenas a caracterização de Daniela Escobar, acima do peso, com cabelo desgrenhado e quase não lembra a atriz global. Bem condizente com o papel. Aliás, o figurino e a direção de arte com a reconstituição da época são o ponto forte do filme. Tudo é muito bem cuidado, com uma fotografia funcional. A trilha sonora também é bastante feliz. Mas nada disso consegue segurar o filme, ou nos fazer envolver com ele. Até a revelação do porquê 400 contra 1 vira um anti-climax. Ainda assim, é um filme a ser conhecido. Dia 06 estreia em todos os cinemas do Brasil.






































12 opiniões:
Triste são os que sempre esperam algo que já tenha visto alguma vez na vida. Pobreza de pensamento. Aliás, é Branca MESSINA, não Melissa. E o Roteiro é de Victor Navas, não de Caco Souza. Faltou saber a ficha técnica, hein.
2 de agosto de 2010 15:58Obrigada pela correção Anônimo, realmente não recebi a ficha técnica oficial e acabei confiando em um site que dizia que o roteiro era do diretor. Uma falha, acontece. Quanto a Branca, foi erro de digitação. Ambos já estão corrigidos. E mais uma vez agradeço. Da próxima vez, pode se identificar. Sem problemas.
2 de agosto de 2010 16:26Quanto a sua crítica ao novo. Bom, eu não quero mais do mesmo, muito pelo contrário, vibro com novas formas de abordagem, eu apenas disse que esperava (não no sentido de ansiar por, mas por imaginar que fosse) mais do mesmo ao ir ao cinema. Não tinha expectativas que ele trouxesse boas novidades. E de fato o filme não me convenceu pelo que falei, nem a muitos que estavam no cinema ou que já li em algumas críticas. Se você achou interessante, gostou, ótimo. É dessa diversidade que se faz o cinema.
abraços
Volte sempre.
Como eu também sou defensora ferrenha do cinema nacional, com certeza, prestigiarei este filme!
2 de agosto de 2010 19:47Com certeza, Kamila, foi o que disse no final do post, merece ser conhecido.
2 de agosto de 2010 20:09Entendo sua frustração com a repetição do cinema nacional e de como ela flagela seu público e vicia a própria produção. Não concordo que a grande diferença entre um filme como Salt e um filme como 400 contra 1 seja o fato do cinema americano conseguir fazer da violência um espetáculo enquanto no cinema brasileiro a violência ganha tons de denuncia em sua crueza estética. Acho que há mais aí. O Brasil ainda engatinha em termos de cinema de entretenimento. Malu de bicicleta, por exemplo, vai ser a primeira adaptação de um autor contemporâneo não baseada em evento histórico ou biografia. Adoro o cinema nacional, que para mim tem melhorado sensivelmente nos últimos anos, mas é plenamente compreensível a resistência que muitos ainda apresentam a nosso cinema.
3 de agosto de 2010 10:07Enfim, tem muito mais para repercutir neste tema...
Beijos
Sim, tem muito mais aí, Reinaldo, apenas refleti nesse aspecto pelo que a senhora falou: "não gosto de cinema nacional porque tem muita violência prefiro filmes assim". Torço muito para que o Brasil consiga diversificar os gêneros e fazer cinema de entretenimento de qualidade, só assim teremos uma indústria capaz de se sustentar, sem depender de editais.
3 de agosto de 2010 10:34Agora, Malu de bicicleta não é a primeira adaptação, tem os dois Bellinis de Tony Beloto, O Xangô de Baker Street de Jô Soares e Feliz Ano Velho do mesmo Marcelo Rubens Paiva, por exemplo. Nenhum grande filme, é verdade, nem com público tão significativo, mas há uma evolução. Vamos aguardar filmes cada vez melhores.
bjs
É verdade Amanda. Tem esses aí sim, mas o Xangô eu sou obrigado a discordar de vc.rsrs. O Jô não é um autor contemporâneo. É um autor ainda contemporâneo. Se é que vc me entende... desculpa a maldade.rsrs.
4 de agosto de 2010 10:50De qualquer maneira, eu realmente havia esquecido das adaptações de Belloto e do próprio Marcelo Rubens Paiva, há toda a cinematografia do Beto brant Tb, assim como os dois primeiros trabalhos do Heitor Dhalia, enfim, de qualquer maneira é um panorama muito tímido, o que só é reforçado pelo meu esquecimento momentâneo dessa filmografia...
bjs
Concordo 101% com o que você falou sobre o cinema nacional. A opinião daquela pessoa de que prefere Salt é lixo puro. Esqueçamos hehe
4 de agosto de 2010 18:42Amanda, eu concordo plenamente com você. Quanto ao filme e quanto à defesa ao cinema nacional. A pessoa que comentou sobre Salt não pensou um segundo antes de proferir bobagens.
4 de agosto de 2010 19:59Também acho que 400Contra1 tem uma narrativa inadequada. O filme ficou entedioso. Poderia ter sido muito melhor, mas ficou no "quase".
E o primeiro comentário aí ficou parecendo gente amargurada, que não sabe receber críticas... entendeu?
Beijos!
Sim, Reinaldo, ainda é tímida, mas vamos aos poucos...
4 de agosto de 2010 21:41É, Rodrigo, mas é uma pena que as pessoas ainda tenha esse preconceito com o cinema nacional.
Pois é, Fred. Ficou mesmo entedioso, no quase como você definiu. Quanto ao comentário deve ser por aí mesmo, mas, paciência. Continuo torcendo por bons filmes brasileiros.
bjs
Acho que em vez de "puristas", você quis dizer "puritanos". Tradutores puristas seriam aqueles que fazem questão de traduzir os xingamentos pesados.
29 de novembro de 2010 10:21ops, verdade, já troquei. Obrigada.
29 de novembro de 2010 15:04abraços
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