23/08/2010
Narradores de Javé
Nos confins do mundo, esquecido em um vale em pleno Nordeste está o povoado de Javé. Ameaçado por uma represa que está prestes a se instalar ali, a população local precisa provar seu valor histórico para não ver suas casas afundar. Mas, como provar o valor de um povo semi-analfabeto que vive totalmente da oralidade passada de pai para filho? Talvez como um resgate de nossa mais pura origem, ali, Javé já valesse ser ouvida. E é assim que Eliane Caffé constrói a sua história, que não apenas dirige como assina o roteiro junto a Luiz Alberto de Abreu.
Javé é uma cidade fictícia, mas poderia ser qualquer uma. Repleta de lendas, mitos e embalos culturais desse país tão rico. O filme é divertido, emocionante, envolvente na sutileza de cada cena. A construção de cada personagem daquele povoado é uma verdadeira aula de roteiro. São tipos que encontramos por aí, e interpretados de forma tão natural nos parece um recorte da vida simples, que pode se tornar tão complexa. Para contar a história de Javé e seu povo, Caffé recorre a história dentro da história, dentro da história. Talvez o primeiro nível, no bar, nem fosse necessário, mas acaba ocupando a função de passar a emoção de nós, espectadores ao ouvir a jornada "javistica".
No bar, Rui Resende, personagem de Nelson Xavier, conta ao colegas de trabalho a história da terra onde nasceu: Javé, um povoado que foi surpreendido pela construção de uma usina hidrelétrica. É dele a idéia de escrever o valor daquele local para convencer os engenheiros. Como a maioria é analfabeta, têm que recorrer ao antigo carteiro local, atualmente banido da cidade por ter escrito cartas difamatórias dos moradores na tentativa de manter o correio funcionando e, consequentemente, seu emprego. Antônio Biá, em uma interpretação magistral de José Dumont, é o típico malandro nordestino, já retratado em tantas peças e filmes. É aquele que acredita que para tudo tem um jeitinho brasileiro a ser dado e vai levando sua vida sem muito comprometimento.
A tarefa de escrever um livro sobre aquele local não é fácil. Afinal, como contar o que é passado de boca em boca? "Quem conta um conto aumenta um ponto", e Biá se vê em versões infinitas da história do povoado, pois cada morador tem seu próprio ponto de vista, sempre valorizando o próprio antepassado. As histórias narradas que são mostradas no terceiro nível da narrativa, são engraçadíssimas. Sempre com um tom sátiro e brejeiro, tornando tudo ainda mais interessante. Em dado momento, esquecemos o bar e ficamos apenas com Javé e suas histórias. E tudo flui com naturalidade, sem didatismo ou apelos. Caminhamos por uma linha tênue do que seja verdade ou mentira, com uma fotografia discreta e o verbo como ator principal.
Por estarmos presos a oralidade, tudo ali tem o tom de fábula. Ficamos esperando a moral de cada história, a distração de cada tipo representado, a construção da verdade que nos ilude ou da mentira que desconfiamos. Afinal, encontramos a outra função do primeiro nível da história, o grupo no bar. Tudo o que vemos é contado por Rui Resende que por sua vez diz reproduzir o que está no livro de Biá. Ele não estava na cidade naquele momento, sai logo no início para negociar com os engenheiros deixando o "escrivinhador" com os narradores locais. É genial essa construção cíclica, afinal, nunca saberemos o que foi ou deixou de ser. São apenas histórias passadas. Histórias que sempre fascinaram o homem e que também são a base da arte cinematográfica.
Talvez por isso, Narradores de Javé tenha feito tanto sucesso pelo Brasil. E não se pode analisá-lo, nem falar dele de uma forma técnica, pois é pura emoção cultural. Pra isso também precisamos de bons filmes brasileiros. Para contar nossas histórias, nossa cultura e passá-las de forma natural tornando-as universais.










































5 opiniões:
Oie...acheei hj esse blog atraves de outro...eh bem legal os filmes q falam aki, curti..voces sao dono tb do apimentario neah? vi que ari eh membro daki e conheci o blog atraves dele...voces sao cineastas? pq este blog eh diferente do estilo do apimentario..bom vou linka los ao meu..to construindo um...ate
23 de agosto de 2010 12:03Oi, Sheila, que bom que gostou do blog, quando tiver o seu avise. Quanto ao Apimentário, não é bem assim, na verdade, eu (Amanda) escrevo o CinePipocaCult e Cristiano escreve o Apimentário, mas Ari, que é o designer daqui também contribui com o lay out de lá. Por isso está nas duas equipes. Somos os três publicitários de Salvador, mas cada um tem seguido especializações diversas. Cristiano está terminando jornalismo e eu estou no mestrado de comunicação (já tendo feito especialização em cinema), trocamos sempre idéias, filmes e comentários, sendo parceiros nessa jornada, mas cada blog tem sua trajetória própria.
23 de agosto de 2010 12:16Eu considero esse um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos. José Dummont humilha em sua atuação. Simplesmente perfeito. Sempre recomendo esse filme para as pessoas, mas nem sempre gostam :(
23 de agosto de 2010 20:30Este filme é uma delícia. Adoro o tom popular dele e a maneira como a narrativa nos é contada.
23 de agosto de 2010 21:20Ótima lembrança Amanda. Sem dúvidas um dos meus filmes nacionais prediletos. Simples, engraçado, emocionante. Um banho de criatividade em meio a um cinema cada vez mais repetido. Grande abraço.
24 de agosto de 2010 22:07Postar um comentário