09/10/2010

Tropa de Elite 2

Irandhir SantosJosé Padilha é um cara corajoso. Com uma linguagem popular e estilo de thriller, ele fez um dos filmes denúncia mais comentados dos últimos tempos. Não foi à toa que Tropa de Elite se tornou mania nacional e hit dos piratas. O filme foi ameaçado de censura, vazou para o mercado paralelo em uma versão não finalizada, conseguiu chegar aos cinemas, ganhou Urso de Ouro em Berlim e consagrou o diretor e o ator Wagner Moura. A denúncia foi deturpada e Nascimento virou herói nacional para alguns e símbolo de fascismo para outros. Agora, ele volta, não mais como Capitão. É Coronel Nascimento, o homem por trás do BOPE que tenta combater o crime como se estivesse em uma verdadeira guerra. A crítica detonou o primeiro por essa postura extremista. Nos filmes americanos ver soldado matando e torturando inimigo parece bonito, nas favelas do Rio de Janeiro fica uma realidade incômoda. Padilha, então, colocou tudo isso em seu segundo filme. Um personagem defensor dos direitos humanos, Nascimento explicitando que o consideram fascista, o povo do Rio de Janeiro aplaudindo seu herói. Tudo isso para nos mostrar que a denúncia do primeiro filme era apenas a ponta do iceberg.

André RamiroTropa de Elite 2 tem o subtítulo "o inimigo agora é outro". Todas as sinopses apontam esse inimigo para as milícias, grupo formado por policiais corruptos, políticos e bandidos para manipular a população das favelas. Ao ver o filme, percebemos a profundidade do retrato denunciado por Padilha. E é melhor eu não contar muito, pois não é apenas o final do filme que merece surpreender o espectador. Todo brasileiro precisa ver e refletir sobre essa história. É um fato. Pena que ele chegou com uma semana de atraso. Talvez se estreasse antes das eleições poderia fazer as pessoas pensarem melhor antes de eleger Tiririca e determinados deputados.

Wagner MouraComo falei, Nascimento agora é Coronel do Bope, tendo Mathias como Capitão. Após uma investida no presídio de Bangu 1, muita coisa muda em suas vidas e Nascimento acaba virando Sub-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro. Aquele homem de guerra demonstra-se, então, um pouco ingênuo, achando que pode resolver todos os problemas da mesma forma de sempre. Acontece que o buraco é mais embaixo. O homem de poucas palavras vai descobrir que o esquema de corrupção que se retroalimenta no nosso país é muito mais difícil de ser combatido do que um grupo de traficantes. Todo o filme se desenrola destrinchando esse esquema, mostrando os três lados da situação e nos dando uma sensação de desânimo e mãos atadas. Faz me lembrar a pergunta de Renato Russo "Que país é esse?"

André MattosDo primeiro filme, além de Nascimento e Mathias, temos Rosane (ex-mulher de Nascimento), Fábio (o famoso soldado 02 que pediu pra sair) e o Russo. Os dois últimos com maior destaque dessa vez, devido ao estilo corrupto. Das novidades, a melhor é Fraga, um professor de história, defensor dos direitos humanos, vivido pelo ótimo Irandhir Santos. Tem também o garoto Pedro Van-Held, que faz o filho de Nascimento e uma jornalista destemida vivida por Tainá Muller. André Mattos é outro destaque como Fortunato, um enfático apresentador de programa popular. A platéia baiana reconheceu o estilo nos vários programas de meio-dia que temos por aqui. No cenário nacional, o mais próximo seria Datena. Ah, destaque também para micro participação de Seo Jorge como o detento de Bangu 1. Sem exagero, todas as atuações são empolgantes.

Tropa de Elite 2O roteiro de Padilha com Bráulio Mantovani não poderia ser mais feliz. A narração over, característica do primeiro filme, está de volta ainda mais envolvente e bem escrita. Há realismo nas falas, independente da quantidade de palavrões. A história flui de forma harmônica. A direção é ágil, com muita câmera na mão, em um estilo documental, mas também com boas tomadas aéreas e cenas mais clássicas. Agora, a montagem é que continua sendo o destaque para mim. Sou fã de Daniel Rezende  por toda inovação que ele fez em Cidade de Deus, pela reconstrução do primeiro Tropa de Elite na sala de edição onde Nascimento virou protagonista, quando no roteiro original era Mathias e pela manutenção do estilo nessa continuação. O filme tem ritmo, cadência. Envolve a todos. O único porém é que tanta agitação dá pouco tempo para pensar. E este é um filme que tem muito o que pensar.

Tropa de Elite 2 é um filme obrigatório para todo brasileiro. Não vá pelas aparências pensando que é apenas o tiroteio e os palavrões que sustentam o filme. Nem acredite no "herói" Nascimento. Muito menos siga cegamente as palavras do professor Fraga. Padilha expõe todas as visões para que cada um perceba o cenário e tire suas conclusões de que papel desempenha nesse sistema. Sem escolher lados. Buda já dizia que o segredo é o caminho do meio.


E, por favor, não contem o final do filme.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

14 opiniões:

bruno knott disse...

Ainda não assisti, mas verei em breve.

Gosto muito da narração em off, não sei pq alguns críticos implicam tanto com isso. É uma das tantas virtudes do primeiro filme e fico feliz que ela continua aqui.

E realmente, bem poderia ter estreado antes da eleição. Esse lance de votar em candidatos absurdos já era. Desde os tempos do hipopótamo Cacareco isso é passado! hehehe

"Buda já dizia que o segredo é o caminho do meio." Não sou budista, mas concordo inteiramente. Isso me faz lembrar de um texto sobre Aristóteles que diz que a VIRTUDE ESTÁ NO JUSTO MEIO. Ele fala mais no sentido de que não devemos cometer excessos para sermos virtuosos, mas podemos facilmente aplicar isso no campo da política e da ética.

Abraços!!

9 de outubro de 2010 12:55
alan raspante. disse...

Eu vou rever antes o primeiro filme para poder ver agora esta continuação, que bom que é uma 'felix continuação', pelo que ando lendo ... este está melhor que o primeiro. Muito bom, isso!

9 de outubro de 2010 13:14
Amanda Aouad disse...

Concordo, Bruno, já li algumas críticas falando que a narração é chata e didática. Pois acho exatamente o contrário. Ela dá o tom do filme, da mesmas forma que os filmes noir. Nos tornamos confidentes de Capitão Nascimento e assim entendemos um pouco melhor a lógica daquele personagem.

Fiquei com vontade de rever o primeiro também, Alan.

bjs

10 de outubro de 2010 09:21
Renan Barreto disse...

Amanda, você me deixou com mais vontade de ver o filme!!! Eu devo ir essa semana com minha prima. Vamos ver como vai ser. Ah! E um dos personagens é inspirado no deputado estadual Marcelo Freixo aqui do Rio. Eu o entrevistei uma vez e fiquei com medo do que ele falou. Ele foi tão sincero e falou com tanto amor do trabalho dele que ganhou meu voto. Ele disse que podia contar nos dedos quantos deputados eram bons e o pior, deputados milicianos! Eleitos pelo crime organizado. Ele disse também que eles querem é que a galera com educação superior vote nulo mesmo, porque assim fica ainda mais fácil votar em milicianos e colocá-los no poder. O Freixo já sofreu vários atentados e sempre tentam matar ele. Uma vida triste, mas por alguém que realmente eu acredito. Ah! e não é papo de eleição não. Eu sempre gostei dele e além do mais ele foi eleito... bem, junto com o Garotinho que foi eleito a federal. É uma vergonha esse calhorda. Mas o Tropa de Elite é um blockBuster que mexe com você. Eu vivo muito próximo dessa realidade mostrado no filme porque eu moro no Rio de Janeiro. Eu olho pela janela do meu quarto tem uma favela, tem tudo o que você vê no filme... Acredito que até pior. Quem crítica o Capitão Nascimento, está criticando a melhor parte da polícia... Para vc ver como andam as coisas por aqui. Enfim... vou ver o filme e comentar com vc o que achei! E ah! Votei no CinePipoca Cult, heim! Dá uma força pro coleguinha tbm uhauhhua

Bjo, minha querida!

Excelente post pra variar!

10 de outubro de 2010 16:25
Amanda Aouad disse...

Seu depoimento só enriquece o post, Renan. Fico na espera das considerações sobre o filme, após vê-lo. É importante pelo menos discutirmos o tema.

Quanto ao TOP BLOG, claro, eu e Ari já votamos...

beijos

11 de outubro de 2010 08:58
Caio Costa disse...

Amanda, também achei fenomenal a montagem. A abertura é espetacular e arrepia com qualquer um que assistiu ao primeiro. Parabéns a Wagner Moura que conseguiu, mais uma vez, mexer com a platéia através do Nascimento.

Eu, você e Maurício Saldanha achamos que esse filme deveria ter estreado no final de semana passado. Mas o espectador do Cabine Celular falou algo interessante: se ele tivesse estreado antes das eleições e o resultado fosse o mesmo, a mensagem no final do filme perderia a sua força.

11 de outubro de 2010 10:04
Robin disse...

Muito F... Esse filme é um soco no estômago. Todo mundo precisa ver e pelo visto está vendo, foi recorde absoluto de bilheteria, muito bom.

abraços

11 de outubro de 2010 11:40
Amanda Aouad disse...

Verdade, Caio, a abertura arrepia. E verdade também que no final, as eleições podiam continuar na mesma. Como o próprio Saldanha fala, a gente sai do cinema empolgado achando que filme pode mudar o mundo. E não é bem assim... Uma pena.

O recorde de bilheteria empolga mesmo, Robin. Quem sabe agora consegue chegar perto de Dona Flor.

bjs

11 de outubro de 2010 23:10
Reinaldo Glioche disse...

Pois é Amanda. O filme é ótimo mesmo. Mas diferentemente do primeiro em que a coragem imperava, além de uma abordagem inédita para uma chaga social, o segundo filme repercute algo que há muito já é repercutido pela dramaturgia nacional (ainda que com menos ranço ideológico. Além do que a fita apresenta uma visão simplista do problema da segurança pública no Rio de Janeiro (no microcosmo) e do Brasil (no macro). Não é preciso ceder a ficção para saber que os políticos brasileiros dão o C.. e três vinténs pelo voto. Basta notar a mudança de atitude da candidata petista à presidência Dilma Rouseff em relação ao aborto...
Não acho que Tropa d eelite 2 seja tão insurgente e reflexivo quanto o primeiro. Acho que surfa na própria apoteose. O que não quer dizer que a denúncia do filme não seja legítima e que a fita em si não seja ótimo cinema.
Bjs

11 de outubro de 2010 23:59
Absinto Muito disse...

Passamos e gostamos do blog. Gostaríamos que, se pudesse, também conhecesse o nosso. Um abraço!
http://absintomuitorock.blogspot.com/

12 de outubro de 2010 01:57
Wenndell Amaral disse...

Se fosse num juri de um festival cinematográfico, votaria da seguinte forma: Roteiro 10; Atuação 10; Som 10; Fotografia 10; Direção 10; Montagem 10. Enfim. Produção nacional que bebeu na fonte estrangeira, mas não perdeu a veia, a vontade e qualidade brasileira.

15 de outubro de 2010 00:04
Amanda Aouad disse...

É verdade, Reinaldo. O problema é que todo mundo sabe e ninguém faz nada, continuando a votar nessas figuras. Vide o caso Roriz em Brasília.

Obrigada, Absinto, já visitei.

Entendi, Wenndell, hehe. É um grande filme mesmo.

bjs

15 de outubro de 2010 13:56
Wesley Moreira de Andrade disse...

Tropa de Elite 2 é um excelente filme, um dos melhores destes últimos anos, consegue expandir a discussão que o primeiro trabalho causou, deixando toda a trama e os personagens mais complexos.
Parabéns pelo texto Amanda, preciso, esclarecedor e que desperta ainda mais o interesse pelo trabalho maravilhosos de José Padilha, Wagner Moura, Bráulio Mantovani e equipe.

16 de outubro de 2010 18:06
Amanda Aouad disse...

Obrigada, Wesley, também achei o filme muito bom. Complexo e bem realizado.

abraços

17 de outubro de 2010 10:15

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails
 

Licença Creative CommonsBlog CinePipocaCult by Amanda Aouad is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License
Based on a work at www.cinepipocacult.com.br
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.cinepipocacult.com.br