20/11/2010

O Filho da Noiva

O Filho da NoivaÉ chover no molhado dizer que um filme de Juan Jose Campanella tem um roteiro bem construído, uma sensível direção direta e atuações memoráveis, ainda mais se o protagonista da trama é Ricardo Darín. O Filho da Noiva fala de dramas familiares com um olhar masculino que não o deixa cair no exagero. Tudo é construído de forma simples e direta, mas nos emociona em vários momentos. Mais uma pérola do cinema argentino que concorreu ao Oscar de 2002 e venceu o Festival de Gramado do mesmo ano.

Rafael Belvedere é um quarentão divorciado, completamente envolvido pelo trabalho, um restaurante familiar que administra por herança. Seu pai está aposentado e sua mãe sofre do Mal de Alzheimer. Sua filha pequena mora com a mãe e o padrasto, que parece ter mais intimidade com a menina que o próprio pai. E tem uma bela noiva, que quase não tem sua atenção. Para completar, seu pai lhe pede um favor que ele considera estaparfúdio: quer casar na igreja com sua mãe. Um sonho que ela sempre teve, mas nunca realizou. Em meio à toda pressão, Rafael sofre um infarto e resolve repensar a vida. Clichê, ok, mas nada é totalmente clichê nas mãos de Campanella.

O Filho da NoivaUm detalhe que vale destaque, a mãe do diretor realmente tem a doença o que torna o filme ainda mais tocante. Norma Aleandro consegue traduzir muito bem o drama desse estado delicado da mente, sem exageros, desconstruindo aos poucos seu raciocínio, repetindo perguntas e não reconhecendo seus parentes mais próximos. O amor do casal maduro é comovente, assim como o sonho de casar. É essa compreensão que torna Rafael mais humano, capaz de lutar pela realização do impossível. Afinal, qual padre daria a benção a uma mulher que não pode se responsabilizar por seus atos?

O Filho da NoivaÉ da sensibilidade na natureza humana e nossa capacidade de viver o dia a dia que se faz o filme. Como todos os filmes de Campanella traz o problema da crise econômica e a situação atual da Argentina. É difícil pensar na desconstrução dessa situação tão presente na vida de um país. A forma como o restaurante sobrevive, as propostas de venda, a agonia de Rafael, a situação dos empregados. Seu amigo ator que surge do passado para criar situações inusitadas. A arte de Campanella está na preocupação humana de tornar seu filme próximo do real.

O mais interessante em O Filho da Noiva é que além de todas as características apontadas, ele consegue ser leve, fluido como uma boa comédia romântica. Nenhum dos dramas é levado tanto a sério, há piadas, situações engraçadas, diversão e romance. Como deve ser a vida. Nada é definitivo, nada é possui um rótulo. As situações são construídas e desfeitas com a rapidez do pensamento. E o final segue a mesma linha, sem soluções mirabolantes que vemos apenas em filmes. Tudo na mais perfeita desordem. Uma beleza de se ver.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

6 opiniões:

renatocinema disse...

Sou fã do cinema argentino. Ricardo Darin é espetacular e Campanella idem. Desde que conheci "Nove Rainhas" me encantei com as produções dos hermanos.

20 de novembro de 2010 11:14
Elton Telles disse...

Lindo demais!
Como não se apaixonar por um filme desse? Melodrama muito bem conduzido e que leva o espectador a lágrimas sinceras. Filme raro hoje em dia. Campanella se estabelece como um grande diretor da atualidade pra mim, trabalhando com o sempre eficiente Ricardo Darín, são 2 grandes nomes do cinema latino contemporâneo.

e que venha mais dessa parceria! o/


bjs, Amanda.

21 de novembro de 2010 13:32
Reinaldo Glioche disse...

A despeito do sucesso de O segredo de seus olhos, esse continua sendo o filme mais representativo da dupla.Um filme, realmente, de sensibilidade ímpar!
bjs

21 de novembro de 2010 14:38
bruno knott disse...

Acho esse filme ótimo... mas sem dúvida o meu preferido do Campanella é O Segredo dos Seus Olhos.

21 de novembro de 2010 15:00
Película Criativa disse...

É um dos melhores filmes argentinos que já assisti!

21 de novembro de 2010 20:31
Amanda Aouad disse...

Falto ver nove rainhas, Renato, mas adoro a dupla também.

Com certeza, Elton, assino em baixo.

Verdade, Reinaldo, O Segredo dos Seus Olhos tem uma estrutura mais madura, mas esse filme é mais sensível.

Gosto de todos, Bruno.

É bom mesmo, Película.

bjs

21 de novembro de 2010 23:21

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails
 

Licença Creative CommonsBlog CinePipocaCult by Amanda Aouad is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License
Based on a work at www.cinepipocacult.com.br
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.cinepipocacult.com.br