06/01/2014

Confissões de Adolescente

Confissões de Adolescente Já que o título pede, façamos uma confissão. Li o livro de Maria Mariana e assisti toda a série Confissões de Adolescente com a primeira formação. Então, este filme tem uma certa memória afetiva que o torna especial. Mas, o filme consegue mesmo manter o padrão, com uma trama adolescente bem construída, a exemplo de As Melhores Coisas do Mundo e não como uma Malhação.

Daniel Filho, que também era o diretor da série, consegue manter um clima ameno, que levanta as questões da adolescência com leveza. Temos o primeiro beijo, a perda da virgindade, as descobertas amorosas, os preconceitos e medos em geral da idade. E claro, o crescimento. Tudo é feito com seriedade, sem julgamentos e com um bom ritmo. Mesmo quando vemos alguns deslizes forçados, a exemplo de um certo chiclete.

Confissões de Adolescente Uma coisa que difere da série é a trama não ser tão centrada nas quatro irmãs, mas ter também uma visão masculina da adolescência. Os garotos crescem, ganhando cenas protagonizadas por eles e suas dúvidas e vontades, o que torna o filme mais universal. O que não é muito legal para os fãs da série é a mudança dos nomes das personagens, algo que não faz muito sentido já que a personalidade permanece, e até o pai é bem próximo, fazendo Cássio Gabus Mendes quase imitar os tiques criados pelo tio Luis Gustavo.

Em compensação, o filme presta uma espécie de homenagem às atrizes originais, colocando-as em participações especiais ligadas de alguma maneira às suas antigas personagens. Deborah Secco faz a mãe de um garoto que irá se relacionar com Carina. Georgiana Góes faz a professora de educação física de Bianca, Daniele Valente faz a mãe do namorado de Alice e Maria Mariana faz a advogada que entrevista Tina para uma vaga de emprego.

Confissões de Adolescente Para construir uma linguagem atual, a direção de arte do filme ainda investe em um design próximo das redes sociais. Temos inserções de janelas diversas dando uma dinâmica principalmente na abertura da trama. Isto traz uma questão interessante, já que Confissões de Adolescente surgiu a partir do diário de Maria Mariana. Hoje, as meninas não escrevem mais em diários de papel com códigos e cadeados, mas na rede, quase que expondo a vida de uma maneira irresponsável, tornando o mundo moderno bem menos privado.

Talvez por isso, a personagem de Bianca tenha que ir para o banheiro falar no celular. E talvez também por isso, seja lá que ela acabe conquistando uma amizade mais verdadeira do que as de aparência com as quais convive. É a visão atual da juventude em um mundo politicamente correto, que fiscaliza os bullyings, mas que no fundo está cada vez mais superficial e até hipócrita.

Confissões de Adolescente Diante de tantas questões e problemas, o filme mantem também o humor da série, construindo situações tragicômicas como o jantar de Alice e Marcelo, em uma tentativa frustrada de primeira noite. Ou as lições de Carina, a filha caçula que parece ser a mais ajuizada da família. Isso sem falar na hilária paródia a Saga Crepúsculo, com direito a reprise da cena do acidente.

Mas, ainda que busque verdade, o filme traz também momentos superficiais e falsos, como o já citado chiclete, ou algumas festas exageradas. Isso sem falar na cena da roda de violão, onde a música não parece nem um pouco inserida na cena, causando estranheza. Porém, o que soa mais estranho mesmo é a crise financeira da família que dá costura ao filme, tratada de uma maneira tão superficial que não convence.

De qualquer maneira, Confissões de Adolescente consegue cumprir o seu objetivo de ser uma trama leve e envolvente sobre essa fase tão complexa da vida. É um filme para adolescentes, buscando dialogar com suas questões e atualizando para as novas gerações. Mas, aos que viram a série, fica a sensação de memória afetiva.


Confissões de adolescente (Confissões de adolescente, 2014 / Brasil)
Direção: Daniel Filho
Roteiro: Sylvio Gonçalves e Matheus Souza
Com: Anna Rita Cerqueira, Sophia Abraão, Cássio Gabus Mendes, Deborah Secco, Georgiana Góes, Maria Mariana e Daniele Valente
Duração: 100 min.


Amanda Aouad

Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, especialista em Cinema pela UCSal e roteirista de Ponto de Interrogação, Cidade das Águas e Vira-latas. É ainda professora de audiovisual, tendo experiência como RTVC e assistente de direção. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos e da Liga dos Blogues Cinematográficos.

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