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Cyclone
Ser mulher no Brasil não é algo fácil. Imagine no início do século XIX. Ser uma mulher artista era ainda pior. Não havia espaço para criar, ser reconhecida ou mesmo valorizada por seu talento em funções tradicionalmente atribuídas aos homens. Não por acaso, no diário coletivo O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, organizado por Oswald de Andrade, a única mulher presente é Maria de Lourdes Pontes, ou Miss Cyclone, seu nome artístico.
Pouco se sabe sobre ela. E é justamente em busca dessa mulher enigmática, musa do modernismo, que o filme Cyclone, de Flávia Castro, se constrói. A trama, roteirizada por Rita Piffer, acompanha a história de uma operária que, em suas horas vagas, atua como auxiliar do renomado dramaturgo Heitor Gama no Theatro Municipal de São Paulo. Seu sonho de ser reconhecida por seu talento dramatúrgico é alimentado quando é selecionada para uma bolsa de estudos em Paris. No entanto, uma gravidez inesperada ameaça destruir seus planos e evidencia o peso das convenções sociais que moldam e limitam o destino feminino.
A força da narrativa reside também em seu elenco. Protagonizado por Luiza Mariani, o filme conta ainda com Eduardo Moscovis, Karine Teles e Magali Biff, compondo uma dinâmica intensa entre texto e mise-en-scène. O tom teatral é evidente, mas acaba dialogando diretamente com o universo artístico que o filme homenageia, reforçando a ideia de performance constante exigida daquela mulher no palco e fora dele.
O palco, aliás, surge como um cenário central. A magia daquele espaço de ilusões é reforçada a todo momento, funcionando tanto como promessa de liberdade quanto como metáfora do confinamento simbólico. É ali que Cyclone vislumbra a possibilidade de existir como artista, ainda que essa existência seja constantemente mediada pelo olhar e pela validação masculina.
Nos cenários internos, especialmente na casa da protagonista, o filme ganha densidade dramática. O espaço doméstico é construído de forma opressiva, com enquadramentos fechados e uma direção de arte que privilegia a repetição e a austeridade. A casa não é refúgio, mas prisão: um lugar onde o corpo feminino é convocado apenas para o cuidado, a espera e a renúncia. A contraposição entre esse ambiente e o palco do teatro explicita a cisão entre desejo e realidade, entre criação e sobrevivência.
O roteiro intensifica essa sensação ao construir, com precisão, a impossibilidade de escolha. Cada decisão de Cyclone parece já tomada antes mesmo que ela possa formulá-la. A gravidez não surge apenas como um conflito narrativo, mas como um dispositivo histórico que revela o quanto a maternidade foi, e muitas vezes ainda é, usada como ferramenta de controle sobre o corpo e o futuro das mulheres. Cyclone não fala apenas de uma artista esquecida, mas de uma estrutura social que sistematicamente impede mulheres de decidirem suas próprias vidas, sobretudo quando ousam desejar algo além do que lhes foi destinado.
Ao recuperar a figura de Miss Cyclone, o filme dialoga de maneira incisiva com as contradições do próprio Modernismo brasileiro. Movimento que se pretendia ruptura, vanguarda e liberdade estética, mas que, na prática, manteve as mulheres em posições periféricas, muitas vezes restritas ao papel de musas, amantes ou notas de rodapé da história cultural. Cyclone expõe esse paradoxo ao iluminar o apagamento de Maria de Lourdes Pontes, cuja presença no círculo modernista se deu mais pelo olhar masculino do que pelo reconhecimento de sua produção artística. Ao fazê-lo, o filme não apenas revisita um período fundamental da cultura brasileira, mas também questiona seus mitos fundadores, revelando como a promessa de inovação convivia com estruturas profundamente conservadoras. Sobretudo quando o assunto era o direito das mulheres de criar, escolher e existir para além da cena que lhes foi concedida.
Filme visto no 20º Fest Aruanda 2025.
Cyclone (Brasil, 2025)
Direção: Flávia Castro
Roteiro: Rita Piffer
Com: Luiza Mariani, Eduardo Moscovis, Karine Teles, Magali Biff
Duração: 100 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Cyclone
2025-12-22T13:00:00-03:00
Amanda Aouad
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