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Ed Mort
Ed Mort
Poucos filmes brasileiros dos anos 90 capturam tão bem o espírito de uma comédia policial debochada quanto Ed Mort, longa de 1997 dirigido por Alain Fresnot e estrelado por Paulo Betti. Adaptado do personagem criado por Luis Fernando Verissimo e popularizado nos quadrinhos por Miguel Paiva, o filme se apresenta como uma paródia assumida dos detetives clássicos do cinema e da literatura, mas com um tempero bem brasileiro. É um humor que nasce do improviso, da precariedade e de um certo cinismo urbano que dialoga diretamente com a São Paulo da época.
A primeira impressão é a de que estamos diante de uma caricatura. Ed Mort é um detetive particular falido, vivendo em um cubículo, sobrevivendo a base de pastel e caldo de cana fiados, sempre à beira do colapso financeiro. Essa construção do personagem já indica o tom do filme. Não há glamour nem heroísmo, apenas um sujeito teimoso tentando parecer mais competente do que realmente é. A escolha de Paulo Betti para o papel não poderia ser mais acertada. Ele constrói um protagonista que oscila entre a autoconfiança ridícula e a melancolia discreta. O humor nasce muito do timing do ator, de pausas e olhares que sugerem que Ed Mort sabe que é um fracasso, mas insiste em agir como se fosse um grande detetive com a interpretação de um Humphrey Bogart.
A trama gira em torno do desaparecimento de um homem especialista em disfarces e de um garoto desaparecido, investigações que se cruzam e levam o protagonista a um universo de empresários corruptos, políticos suspeitos e personagens excêntricos. O roteiro aposta numa estrutura de mistério clássico, mas constantemente sabotada pelo absurdo. O filme nunca se leva totalmente a sério, e essa é tanto sua maior virtude quanto seu maior problema.
A direção de Alain Fresnot demonstra um interesse claro em brincar com os códigos do cinema noir e da espionagem. Há sombras, perseguições e conspirações, mas tudo filtrado por uma lente cômica. Fresnot parece entender que a graça está na fricção entre o gênero e a precariedade da realidade brasileira. Em vez de carros luxuosos e escritórios sofisticados, temos ruas caóticas, indústrias de salsicha e programas de televisão duvidosos. Essa estética quase improvisada se transforma em estilo. A mise-en-scène, da iluminação ao figurino, reforça essa sensação de mundo torto e improvisado.
A trilha sonora de Arrigo Barnabé contribui muito para o clima. Ela mistura ironia e suspense, criando uma atmosfera que nunca permite que o espectador se acomode completamente em um único tom. Em vários momentos, a música parece comentar o próprio filme, como se estivesse consciente da farsa que se desenrola.
Cláudia Abreu surge como Cibele, figura que mistura sensualidade e caricatura televisiva. Sua presença remete aos programas infantis e ao imaginário pop dos anos 90, funcionando como uma sátira da cultura midiática brasileira. O elenco de apoio, que inclui nomes como Otávio Augusto, Ary Fontoura e Irene Ravache, embarca no jogo de exagero. Nem sempre o resultado é equilibrado. Em algumas cenas, a atuação parece deliberadamente artificial, como se o filme estivesse sempre à beira de se tornar um esquete televisivo. Isso pode afastar parte do público, especialmente quem espera uma comédia mais contida.
Há um momento que sintetiza bem o espírito do filme. Quando o personagem Silva aparece sucessivamente disfarçado como diferentes celebridades, a narrativa assume de vez o absurdo. Uma sequência que funciona como declaração de intenções. O filme não quer apenas contar uma história policial, mas brincar com a própria ideia de identidade e representação. É um humor que depende muito da familiaridade com a cultura brasileira da época, o que explica por que o filme funciona melhor dentro desse contexto.
Nem tudo, porém, funciona com a mesma precisão. O ritmo oscila. Algumas piadas se alongam mais do que deveriam, e a narrativa por vezes se perde em subtramas que não acrescentam muito. Há também um certo desequilíbrio tonal. O filme tenta equilibrar sátira, mistério e comentário social, mas nem sempre consegue integrar esses elementos de forma orgânica. Em alguns momentos, parece uma coleção de esquetes conectados por uma trama policial.
Ainda assim, Ed Mort permanece um objeto curioso dentro do cinema brasileiro dos anos 90. É um filme que aposta em um humor menos escancarado e mais irônico, que prefere a observação ao exagero histérico. Funciona melhor quando assume sua natureza de paródia e abraça o absurdo sem reservas. Quando tenta se aproximar demais de uma narrativa policial convencional, perde parte de sua força.
Revisitado hoje, o filme ganha um charme particular. Ele captura um momento específico da cultura brasileira, com suas referências televisivas, sua estética urbana e seu humor auto irônico. Não é uma comédia perfeita, mas é um experimento interessante de adaptação e de linguagem. E, sobretudo, é um lembrete de que o cinema brasileiro sempre encontrou maneiras criativas de rir de si mesmo.
No fim das contas, Ed Mort pode não ser lembrado como um clássico incontestável, mas permanece como uma peça singular. Um filme que entende que o fracasso pode ser uma forma de estilo e que, às vezes, o melhor personagem é justamente aquele que nunca parece estar no controle.
Ed Mort (1997 / Brasil)
Direção: Alain Fresnot
Roteiro: José Rubens Chachá
Com: Paulo Betti, Cláudia Abreu, Otávio Augusto, Ary Fontoura, Irene Ravache
Duração: 102 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Ed Mort
2026-03-27T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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