Ghostbusters: Apocalipse de Gelo é uma obra que, à primeira vista, promete recapturar o espírito jovial que tornou a franquia dos Caça-Fantasmas um ícone pop desde 1984. A direção de Gil Kenan se esforça para amarrar dois propósitos difíceis: agradar fãs antigos e estabelecer uma nova mitologia familiar que possa sustentar o futuro da saga. O problema é que, apesar de existir aqui e ali um lampejo de diversão genuína, o filme parece congelar exatamente onde deveria aquecer: no coração de sua própria narrativa.
A primeira qualidade que chama atenção em Apocalipse de Gelo é o compromisso com a estética da franquia. Os efeitos visuais são carinhosamente modelados para lembrar as antiguidades dos fantasmas clássicos e os créditos iniciais recuperam o logotipo e a música tema com a reverência certa. O espectador que cresceu com o telefone fixo tocando e o icônico “Who ya gonna call?” sentirá um calor nostálgico imediato nesses instantes. Mas logo essa sensação se dilui, não por um abandono total da fórmula, mas por sua repetição sem profundidade significativa.
No centro da história está novamente a família Spengler, que agora comanda o quartel histórico em Nova York. Mckenna Grace, como Phoebe, é sem dúvida o elemento mais interessante: há um olhar curioso e dedicado em suas cenas, uma fagulha interpretativa que tenta puxar o filme para frente quando o roteiro coloca obstáculos narrativos banais em seu caminho. O problema é que os demais personagens, tanto novos quanto antigos, raramente recebem espaço ou desenvolvimento que justifique presença tão ampla. As frequentes piadas e trocadilhos se tornam muletas narrativas, preenchendo lacunas onde deveria haver construção de personagem ou tensão dramática.
Os Caça-Fantasmas originais, os veteranos Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson, reaparecem mais como lembranças de um passado glorioso do que como forças vivas dentro do universo do filme. Essa presença reduzida torna-se irônica: o filme parece depender da nostalgia dos rostos, mas nega-lhes qualquer impacto narrativo forte. Enquanto isso, o vilão de gelo é visualmente impressionante, mas emocionalmente distante. A ameaça apocalíptica que o título sugere chega mais como um truque de marketing do que como um dispositivo realmente dramático.
Há acertos narrativos. Alguns momentos de humor que efetivamente arrancam sorrisos, boas interações entre certos membros do elenco e sequências de ação visualmente competentes. Ainda assim, o excesso de personagens dispersa o foco e impede que qualquer arco emocional atinja o impacto que poderia. O vilão com potencial ameaçador nunca ganha o espaço suficiente e a sensação de história feita por encomenda pesa nas costas do filme. O resultado é uma experiência que entretém ocasionalmente, mas raramente emociona ou surpreende.
No fim, Ghostbusters: Apocalipse de Gelo funciona como um passatempo leve e nostálgico, um convite para sorrir com referências e efeitos bem realizados. Porém, seu roteiro fraco, a falta de desenvolvimento de personagens e a sensação de indecisão sobre qual público realmente quer atingir tornam-no uma sequência que, apesar de rica em boas intenções, acaba esquecível. É como reler um livro amado com medo de estragar a lembrança: você o revisita, vê que ainda existe magia ali, mas nada soa tão vibrante quanto na primeira vez.
Ghostbusters: Apocalipse de Gelo (Ghostbusters: Frozen Empire, 2024 / EUA)
Direção: Gil Kenan
Roteiro: Gil Kenan, Jason Reitman
Com: Paul Rudd, Carrie Coon, Finn Wolfhard, Mckenna Grace, Dan Aykroyd, Bill Murray, Ernie Hudson, Kumail Nanjiani
Duração: 116 min.





