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Máfia no Divã
Máfia no Divã
Existe algo irresistivelmente irônico em Máfia no Divã. Durante décadas, o cinema construiu a figura do mafioso como uma entidade quase mitológica. O gangster era uma criatura movida por códigos de honra, violência ritualizada e uma aura trágica. Basta lembrar do universo de O Poderoso Chefão ou de Os Bons Companheiros para perceber como o gênero costuma tratar seus personagens com solenidade. A ideia de colocar um chefão da máfia deitado num divã, confessando inseguranças emocionais, parece uma piada pronta. E, de certa forma, é exatamente isso que o filme quer explorar.
Dirigido por Harold Ramis, cineasta que já havia demonstrado talento para comédias de conceito claro como Os Caça-fantasmas e Clube dos Pilantras, o longa parte de uma premissa simples e extremamente eficaz: um poderoso mafioso começa a sofrer ataques de pânico e decide procurar ajuda psicológica. O problema é que seu terapeuta não está preparado para lidar com alguém cujo cotidiano envolve assassinatos, disputas entre famílias criminosas e reuniões secretas para decidir quem deve morrer.
O mafioso em questão é Paul Vitti, interpretado por Robert De Niro. Desde os primeiros minutos fica claro que o filme depende quase inteiramente da presença do ator. E não apenas porque ele é um astro. De Niro carrega consigo um histórico cinematográfico tão profundamente ligado ao universo da máfia que o simples fato de vê-lo chorar ou falar sobre sentimentos já provoca humor. O filme entende isso e brinca o tempo todo com a imagem construída pelo próprio ator ao longo de décadas.
Há uma cena particularmente reveladora desse jogo de expectativas. Em determinado momento, Vitti se emociona de maneira inesperada ao assistir a algo sentimental. O homem que deveria representar a frieza absoluta desmorona em lágrimas diante de algo banal. A graça da situação nasce justamente da contradição entre a imagem do mafioso implacável e a fragilidade psicológica que surge de repente.
O contraponto perfeito para essa figura explosiva é o psiquiatra Ben Sobel, vivido por Billy Crystal. Crystal sempre teve talento para interpretar personagens nervosos, ligeiramente neuróticos, que parecem viver permanentemente à beira de um colapso emocional. Aqui ele utiliza esse registro com precisão. Sobel não é um herói, tampouco um gênio da psicanálise. Ele é apenas um profissional tentando sobreviver ao caos que entrou em sua vida.
O que realmente sustenta o filme é a dinâmica entre esses dois personagens. De Niro trabalha com uma comédia baseada na intensidade. Ele continua sendo ameaçador, mesmo quando fala de sentimentos. Crystal, por sua vez, atua como um homem comum esmagado por uma situação absurda. O contraste entre essas duas energias gera grande parte do humor do filme.
A direção de Ramis é funcional e direta. Não há experimentação estética nem ambição visual. O foco está na interação entre os atores e na exploração da premissa. Isso pode ser visto como uma limitação, mas também como uma escolha consciente. Em vez de transformar o filme em uma paródia exagerada do cinema de máfia, Ramis prefere manter os elementos do gênero relativamente intactos. O humor surge justamente porque esses elementos sérios entram em choque com o universo da terapia.
O roteiro explora com habilidade a ideia de aplicar linguagem psicológica ao cotidiano criminoso. Imaginar um mafioso tentando discutir traumas de infância enquanto organiza assassinatos é o tipo de contraste que gera humor quase automático. Em alguns momentos, porém, o filme parece depender demais de clichês associados ao gênero mafioso. Certas situações seguem caminhos previsíveis, como se o roteiro estivesse apenas reciclando convenções conhecidas.
Mesmo assim, o filme encontra energia suficiente para manter o interesse. Um mérito importante está no elenco de apoio. Joe Viterelli, como o fiel capanga Jelly, rouba várias cenas com sua mistura de lealdade absoluta e ingenuidade cômica. Já Lisa Kudrow aparece como a noiva do psiquiatra, representando a vida normal que Sobel tenta preservar enquanto seu paciente mafioso invade cada vez mais seu cotidiano.
Talvez a principal virtude do filme esteja justamente nesse equilíbrio delicado. Ele não tenta reinventar o gênero da comédia nem desconstruir radicalmente o universo da máfia. Em vez disso, aposta em uma ideia central forte e na química entre dois atores que sabem exatamente o que estão fazendo.
Assistir ao filme hoje mostra como o filme antecipou uma tendência que se tornaria muito popular na cultura pop. A ideia de mafiosos lidando com problemas psicológicos ganharia grande visibilidade pouco depois com Os Sopranos, série que exploraria o mesmo conceito em registro dramático. Enquanto a série transformaria a premissa em estudo psicológico profundo, Máfia no Divã prefere seguir pelo caminho da comédia. Outro aspecto curioso é sobre a carreira de Robert De Niro. A partir desse período, o ator começaria a explorar cada vez mais papéis cômicos. Máfia no Divã funciona quase como um ponto de transição, um momento em que ele decide brincar com a própria imagem construída ao longo de décadas de cinema.
No fim das contas, o filme funciona melhor quando se concentra nessa brincadeira metalinguística. O humor nasce da percepção de que estamos vendo um dos maiores intérpretes de gângsteres da história do cinema confessar suas inseguranças emocionais em um consultório. É uma piada que só poderia funcionar com alguém como De Niro.
Máfia no Divã talvez não seja uma comédia revolucionária, mas continua sendo um exemplo eficiente de como uma boa premissa, aliada a duas performances fortes, pode sustentar um filme inteiro.
Máfia no Divã (Analyze This, 1999 / Estados Unidos, Austrália)
Direção: Harold Ramis
Roteiro: Kenneth Lonergan, Peter Tolan, Harold Ramis
Com: Robert De Niro, Billy Crystal, Lisa Kudrow, Joe Viterelli, Chazz Palminteri
Duração: 103 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Máfia no Divã
2026-06-01T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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