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Gualter Limongi Batista
Vera Roquette Pinto
Um Clássico, Dois Em Casa, Nenhum Jogo Fora
Um Clássico, Dois Em Casa, Nenhum Jogo Fora
Existe algo de profundamente inquietante em Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora que vai além do seu tema ou da sua narrativa fragmentada. É um filme que parece existir em estado de tensão permanente, como se cada plano carregasse um peso histórico invisível. E, de fato, carrega. Realizado em 1968, no auge do endurecimento da ditadura militar brasileira, o curta de Djalma Limongi Batista não apenas conta uma história, mas encontra uma forma de sobreviver dentro de um ambiente onde dizer demais podia ser fatal.
A trama, em sua superfície, é simples. Um jovem desempregado vaga por São Paulo, rompe relações, atravessa a cidade como quem procura algo que não sabe nomear. Esse percurso urbano, quase errante, ganha outro significado quando ele encontra um parceiro e estabelece uma relação afetiva e sexual. Mas o filme não está interessado em explicar esse encontro. Ele simplesmente acontece. E talvez seja justamente essa recusa em explicar que torna tudo mais potente.
Limongi Batista opta por um cinema de sugestão. O que não é dito pesa mais do que qualquer diálogo. Aliás, o silêncio é um elemento fundamental. Os personagens parecem existir em um mundo onde a comunicação direta foi substituída por gestos, olhares e cortes bruscos. É um recurso que pode causar estranhamento, mas que faz todo sentido dentro do contexto de repressão. Quando não se pode falar, o cinema precisa encontrar outras formas de dizer.
O título é uma chave importante. O futebol, ouvido apenas pelo rádio, funciona como metáfora de pertencimento social. Existe um jogo acontecendo, um jogo coletivo, masculino, normativo. Mas aqueles personagens estão fora dele. Eles estão em casa, isolados, sem possibilidade de participar. É uma ideia simples, mas devastadora. O filme constrói, aos poucos, essa sensação de deslocamento, de não pertencimento, de estar à margem de uma sociedade que não tem espaço para eles.
Visualmente, o curta abraça um certo desleixo técnico que, paradoxalmente, contribui para sua força. Há irregularidades, cortes abruptos, momentos em que a linguagem parece quase improvisada. Mas isso não enfraquece o filme. Pelo contrário. Esse aspecto cru reforça a sensação de urgência, como se fosse um cinema feito no limite, sem tempo para polimento, mas cheio de necessidade de expressão.
Apesar disso, essa aposta em uma linguagem mais experimental faz com que algumas sequências pareçam desconectadas, quase herméticas. Há momentos em que a narrativa se fragmenta a ponto de dificultar o envolvimento do público. São ruídos fazem parte da identidade do filme. Não são falhas isoladas, mas sintomas de um cinema que estava se reinventando em meio ao caos.
As atuações seguem essa mesma linha. Eduardo Nogueira, no papel principal, constrói um personagem que é mais presença do que psicologia. Não há um arco tradicional, não há desenvolvimento claro. O que existe é um estado emocional contínuo, uma espécie de inquietação silenciosa. Carlos Alberto, como o parceiro, funciona quase como um espelho, alguém que compartilha da mesma condição de deslocamento. Juntos, eles formam uma dupla que não precisa de palavras para estabelecer uma conexão, o que torna tudo ainda mais íntimo e, ao mesmo tempo, mais trágico.
Um dos momentos mais marcantes do filme, e que sintetiza bem sua proposta, é a cena intercalada com uma luta em um ringue. A montagem cria um paralelo entre a violência explícita do combate e a tensão emocional dos personagens. É como se o filme dissesse que, mesmo quando a violência não é visível, ela está presente, estruturando as relações e os destinos.
Dentro da filmografia de Djalma Limongi Batista, esse curta carrega um frescor típico de estreia, mas já revela um olhar interessado em tensionar forma e conteúdo. É um cinema que não quer apenas contar histórias, mas questionar como essas histórias podem ser contadas em um contexto adverso.
Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora hoje é um acesso a um documento sensorial de uma época. Um retrato não literal, mas profundamente verdadeiro, de um Brasil que reprimia, silenciava e empurrava para as margens tudo aquilo que não se encaixava. E é justamente nesse espaço marginal que o filme encontra sua força.
Não é um filme fácil, nem confortável. Mas talvez seja justamente por isso que ele ainda ressoe. Porque há algo ali que não envelhece. A sensação de não pertencimento, o desejo de conexão, o medo de existir fora das regras. Tudo assustadoramente atual.
Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora (Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora, 1968 / Brasil)
Direção: Djalma Limongi Batista
Roteiro: Djalma Limongi Batista
Com: Eduardo Nogueira, Carlos Alberto, Gualter Limongi Batista, Vera Roquette Pinto
Duração: 29 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Um Clássico, Dois Em Casa, Nenhum Jogo Fora
2026-06-26T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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