Após passar por diversos festivais, O Barco chega aos cinema essa semana. Quarto longa-metragem de Petrus Cariry, a obra traz uma adaptação do conto homônimo, escrito por Carlos Emílio Corrêa Lima. O cineasta cearense constrói uma dramaturgia lírica e épica ao mesmo tempo.
O Barco
Após passar por diversos festivais, O Barco chega aos cinema essa semana. Quarto longa-metragem de Petrus Cariry, a obra traz uma adaptação do conto homônimo, escrito por Carlos Emílio Corrêa Lima. O cineasta cearense constrói uma dramaturgia lírica e épica ao mesmo tempo.
A trama traz uma pequena vila de pescadores onde mora Esmerina com seus vinte e seis filhos que tem como nome as letras do alfabeto. O pai que não fala mais e o velho cego. A rotina local é quebrada com a chegada de um barco e uma misteriosa mulher que o mar trouxe. Sua presença e suas histórias abalam principalmente A, vivido por Rômulo Braga, que deseja sair dali.
É possível perceber algumas referências clássicas desde Platão na obra, assim como simbologias diversas a começar com filhos com letras de alfabeto para um pai que não mais fala. Ou o homem, considerado sábio, ser cego. Isso sem falar nessa mulher que é mãe de tantos e única que tem um nome para identificá-la. A presença desse barco também parece trazer esse convite ao desconhecido.
O lírico vem através da maneira como a jovem forasteira narra suas histórias de alto mar. Ainda que se valha da narrativa e mesmo da dramaturgia na encenação, há uma poesia e um ritmo próprio, quase onírico que ajuda na construção do encantamento de A. Essa estratégia é também uma construção de empatia, como de nós também estivéssemos sendo hipnotizados aos poucos.
Chama a atenção a maneira como aquelas imagens, apesar de trazer um cenário natural vasto, não constroem uma sensação de liberdade. Petrus Cariry se vale de uma janela scope para alcançar a maior extensão possível da paisagem, mas ao mesmo tempo lhe dar margens. Há um certo enclausuramento que reflete os sentimentos de A, cansado de estar preso ali, amarrado a uma tradição que não leva a nada. Sem perspectiva de futuro, como uma repetição inquestionável.
“Pelo mar, quase nada chega e quase nada se vai”, afirma a narração. A própria contradição dessa fala demonstra que o filme de Petrus Cariry não é para ser visto em sua estrutura literal. É sobre a própria contradição da alma humana que sonha com liberdade, mas está sempre em busca de portos seguros. Fala também de solidão, visto que há pouca interação entre as personagens.
O Barco é uma experiência estética. A sua projeção nos faz imergir em suas imagens e sons, conduzidos por aqueles sonhos, desejos, medos e estagnação. Ansiosos para sair da inércia e hipnotizados pelas ondas que vão e vem, parecendo iguais, mas que, na verdade, carregam infinitas possibilidades. Uma obra para apreciação, pois tal qual as ondas do mar, as interpretações também podem ser múltiplas.
O Barco (Brasil, 2020)
Direção: Petrus Cariry
Roteiro: Petrus Cariry, Firmino Holanda e Rosemberg Cariry
Com: Rômulo Braga, Samya de Lavor, Verônica Cavalcanti, Everaldo Pontes, Nanego Lira
Duração: 72 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
O Barco
2020-11-05T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
cinema brasileiro|critica|drama|filme brasileiro|Petrus Cariry|Rômulo Braga|
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