A Lenda
Ridley Scott, o visionário por trás de clássicos como Alien e Blade Runner, nos trouxe A Lenda (1985), uma fantasia que se destaca pela sua audácia visual, embora tropece em narrativa e desenvolvimento de personagens. A trama segue Jack, o jovem Tom Cruise, que, ao lado da princesa Lili (Mia Sara), deve enfrentar o Lorde das Trevas (Tim Curry), que pretende mergulhar o mundo em escuridão eterna.
A direção de Scott brilha na construção de um universo repleto de criaturas mágicas, florestas encantadas e a personificação do mal. Os efeitos práticos e a maquiagem de Tim Curry como o Lorde das Trevas são verdadeiras obras de arte, transmitindo uma presença ameaçadora e memorável que rouba a cena sempre que aparece. Sua performance, embora exagerada, encaixa-se perfeitamente no tom grandioso da produção e se destaca como o ponto alto do filme.
No entanto, o mesmo não pode ser dito sobre os protagonistas. Tom Cruise, em um de seus primeiros papéis de destaque, luta para colocar personalidade em Jack, que acaba se tornando um herói genérico, sem a profundidade necessária para que o público se conecte com sua jornada. Mia Sara, embora encantadora, é relegada ao estereótipo da donzela em perigo, sem qualquer desenvolvimento significativo que a tornasse uma personagem marcante. O relacionamento entre Jack e Lili, que deveria ser o coração da narrativa, carece de química e substância, resultando em um romance que não convence.
O roteiro de William Hjortsberg não ajuda, mergulhando em clichês do gênero e falhando em explorar o potencial do universo criado. A história carece de uma mitologia bem definida, e a montagem do filme é frequentemente confusa, com cenas que parecem desconectadas e uma narrativa que pula de um ponto a outro sem a coesão necessária para envolver o espectador. A direção de Scott, geralmente tão precisa, aqui parece mais interessada em mostrar a beleza dos cenários do que em contar uma história envolvente.
A Lenda, no entanto, não é um filme que deve ser descartado facilmente. Seus méritos estéticos são inegáveis. A trilha sonora de Jerry Goldsmith na versão original contribui para a atmosfera mística, enquanto a versão americana, com uma trilha sonora mais moderna, acaba destoando do resto da produção. A atenção aos detalhes nos figurinos, na maquiagem, e nos cenários mostra um cuidado que poucas produções conseguem igualar, mesmo nos dias de hoje.
Ridley Scott se arriscou ao sair de sua zona de conforto e mergulhar no mundo da fantasia, e, embora A Lenda tenha seus defeitos, é uma obra que merece ser redescoberta por aqueles que apreciam o gênero. É um filme que talvez não tenha encontrado seu público na época, mas que, com o passar dos anos, ganhou status de cult, especialmente entre os fãs de fantasia dos anos 80. Sua influência pode ser sentida em diversas obras posteriores e, apesar de suas falhas, A Lenda é uma prova da ousadia de um diretor em explorar novos territórios.
A Lenda (Legend, 1985 / EUA)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: William Hjortsberg
Com: Tom Cruise, Mia Sara, Tim Curry, David Bennent, Billy Barty, Cork Hubbert, Alice Playten
Duração: 89 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
A Lenda
2024-10-30T08:30:00-03:00
Ari Cabral
aventura|critica|fantasia|Mia Sara|Ridley Scott|Tim Curry|Tom Cruise|
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